Denúncias de pacientes e ex-funcionários de uma clínica de hemodiálise em Campo Grande levantam sérias preocupações sobre a qualidade e segurança do atendimento. Relatos apontam para problemas na esterilização de equipamentos, calor excessivo nas salas de tratamento, falta de estrutura adequada e uma gritante diferença no tratamento oferecido a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) e particulares. Os episódios recentes de pacientes passando mal durante as sessões, e a morte de um deles, estão sob investigação dos órgãos competentes, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.
Clínica DaVita sob investigação após mortes e mal-estar
Pacientes da clínica DaVita, localizada na Rua Treze de Maio, no bairro São Francisco, em Campo Grande, têm relatado uma série de problemas que comprometem a segurança e o bem-estar durante o tratamento de hemodiálise. As queixas incluem falhas na esterilização de materiais, condições ambientais inadequadas, como calor excessivo, e uma percepção clara de disparidade no atendimento entre usuários do SUS e pacientes particulares. A situação se agravou com relatos recentes de pacientes que passaram mal durante as sessões, e a confirmação da morte de um deles, fatos que agora serão apurados pelas autoridades.
Estrutura precária e receio de represálias
Uma paciente aposentada, que realiza hemodiálise na unidade há quase quatro anos, expressou sua insatisfação com a estrutura oferecida aos pacientes do SUS. Embora ela própria nunca tenha passado mal, relatou que outros pacientes precisaram ser hospitalizados recentemente após passarem mal durante o tratamento. “Alguns colegas passaram mal, foram hospitalizados. Uma delas sentava ao meu lado e já saiu. Uma delas foi internada na Santa Casa”, contou a paciente, que preferiu não se identificar por medo de represálias.
A insatisfação se estende à restrição de acesso ao refeitório, que agora é exclusivo para funcionários. Os pacientes são obrigados a se alimentar na recepção, um ambiente que a paciente descreve como inadequado e potencialmente insalubre. “A minha maior insatisfação é que, desde o ano passado, tiraram o direito dos pacientes entrarem no refeitório. Ficou só para os funcionários”, disse. “Os pacientes comem na recepção. Alguns não se sentem bem em comer ali e acabam comendo lá fora”.
A paciente também criticou a diferença nas poltronas. Enquanto pacientes particulares desfrutam de assentos novos e elétricos, os pacientes do SUS utilizam poltronas antigas e desgastadas. “Tem o pessoal do particular e o pessoal do SUS. A gente nota diferença em tudo. As poltronas deles são muito melhores que as nossas. As poltronas do particular são novas, elétricas. As nossas já estão bem antigas e desgastadas”, afirmou. Ela complementou que é preciso solicitar limpeza frequente das cadeiras, evidenciando a discrepância no cuidado.
Falhas na esterilização e alta rotatividade de funcionários
Um ex-funcionário da clínica, enfermeiro especialista em nefrologia, corroborou as denúncias, apontando para problemas graves na gestão e operação da unidade. Ele descreveu um ambiente de trabalho tóxico e focado unicamente no lucro, com redução salarial para a equipe de enfermagem e aumento da carga horária. A alta rotatividade de funcionários, muitos sem experiência prévia em hemodiálise, é vista como um fator crucial para a queda na qualidade do atendimento.
O ex-médico levantou a hipótese de falha humana no processo de reprocessamento dos materiais, como linhas e capilares, utilizados nas sessões. Segundo ele, o setor de reuso, responsável pela esterilização com o produto químico Proxitane, pode ter sofrido com problemas na diluição do produto, baixa qualidade do químico ou até mesmo troca de fornecedor sem o devido controle de concentração. “Ou houve falha na diluição, muito diluído, ou baixa qualidade do produto químico, ou troca de fornecedor do produto com diluição e concentração diferentes, o que é o mais provável”, explicou.
Outra possibilidade levantada é a permanência de resíduos químicos nos equipamentos. “Também é uma hipótese bem provável ter ligado os pacientes com resíduos de Proxitane, que também é uma falha humana por falta de capacidade técnica”, acrescentou o ex-funcionário. Ele enfatizou que a hemodiálise é um tratamento complexo que exige mão de obra qualificada e treinada, algo que a clínica parece não priorizar.
Calor excessivo e falta de ar-condicionado
Além das questões de esterilização e estrutura, pacientes também relataram problemas estruturais mais básicos, como o calor excessivo nas salas de procedimento. Uma das reclamações, enviada pelo canal Direto das Ruas, indicava que o ar-condicionado do espaço não funcionava há mais de um mês. “Na sala dois tem muito paciente passando mal porque fica quente demais”, relatou a paciente, evidenciando um descaso com o conforto e a saúde dos pacientes em um ambiente que já é por si só desgastante.
Posicionamento das autoridades e da clínica
Procurada pelo Campo Grande NEWS, a clínica DaVita informou, por meio de nota, que está apurando e acompanhando os fatos relatados e que toda a assistência necessária está sendo prestada aos pacientes e seus familiares. A empresa reforçou seu compromisso com a segurança e a qualidade do atendimento.
Já a Secretaria Municipal de Saúde Pública (Sesau) declarou que, até o momento, não recebeu comunicação oficial sobre as ocorrências na clínica. A pasta ressaltou que os serviços de hemodiálise são fiscalizados por órgãos estaduais competentes, incluindo a Vigilância Sanitária. A Sesau permanece à disposição para colaborar, caso seja oficialmente acionada. A Polícia Civil ainda não se posicionou sobre a investigação da morte do paciente, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.

