No Dia do Trabalhador, as ruas do Centro se tornaram palco para desabafos sinceros de quem move a economia. Mototaxistas e vendedores expressaram suas frustrações e esperanças, enviando um recado direto aos seus empregadores. A principal mensagem ressoa na busca por um tratamento mais humano, reconhecendo a batalha diária que cada trabalhador enfrenta.
Emerson Gomes, 53 anos, com quase três décadas de experiência em vendas, especialmente em colchões nos últimos cinco anos, compartilha a exaustão que observa em seus clientes. Muitos desabafam sobre a saúde mental debilitada e o cansaço extremo, resultado de longas jornadas em pé e pressões constantes. Ele mesmo já vivenciou o lado escuro da exploração laboral, chegando perto do burnout em empresas que ofereciam baixa remuneração e exigiam esforço excessivo.
“Se eu pudesse dar um recado para algum chefe meu, faria para ele ser mais humano com o funcionário dele. Para ele pensar que um dia ele também foi um empregado CLT e hoje é empresário. Que ele precisa se recordar disso. O funcionário, quando sai de casa, vai para uma batalha diária com tudo aquilo que ele carrega: casa, contas, dívidas, metas. Olhe para ele com mais humanidade, é só isso que eu peço. Seja humano com o ser humano”, desabafa Emerson. Ele enfatiza que a educação financeira e a busca por empresas com perfil mais humanizado foram cruciais para sua autonomia e bem-estar.
O desânimo generalizado e a busca por propósito
Antonio Flozindo Duarte, 67 anos, mototaxista desde 1997, ecoa um sentimento de desânimo generalizado entre os trabalhadores. “Trabalha muito e ganha pouco, essa é a maior reclamação, a maioria está infeliz”, afirma. Apesar de se sentir bem, ele alerta para a insatisfação coletiva, especialmente com a concorrência dos aplicativos. Antonio, que já foi CLT e trabalhou em jornada dupla, ressalta a importância do trabalhador para a sociedade: “O trabalhador é o alicerce dos ricos. Sem eles, o mundo não vai para frente. Quem fabrica o avião que o rico anda? O pobre. A roupa de marca que ele usa? Quem limpa a mansão dele? O pobre tem que ter mais consciência de que ele é importante”.
Em contrapartida, Manoel Mendes, 65 anos, encontra satisfação em sua rotina intensa, que começa de madrugada e termina ao anoitecer. Para ele, o segredo está em gostar do que faz. “Minha cabeça como trabalhador está ótima. O trabalho é gratificante. Todo mundo que tem um pouco de consciência tem que incentivar o trabalho”, diz. Manoel acredita que o trabalho ocupa a mente e dá propósito, sendo o descontentamento com a atividade a verdadeira fonte do cansaço, e não a carga horária em si.
O peso do cansaço físico e psicológico
Edmir Soares de Souza, 64 anos, mototaxista desde o início da profissão, reforça o impacto do cansaço, tanto físico quanto psicológico. Ele relata que, apesar do esforço contínuo, o ganho não é proporcional, levando a uma sensação de estagnação. “Eu falaria que sinto muito, mas que não vou mais trabalhar como empregado, vou ser autônomo”, declara, evidenciando sua preferência pela autonomia.
José Alencar Alves da Silva, 52 anos, atualmente desempregado, aponta as relações interpessoais no ambiente de trabalho como um fator de peso para o psicológico. A dificuldade de convivência entre colegas pode afetar o desempenho e o bem-estar. Ele defende relações mais respeitosas e equilibradas entre chefes e funcionários, destacando a importância de um ambiente de trabalho harmonioso para a produtividade e a felicidade. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a busca por um ambiente de trabalho positivo é um anseio comum.
A visão da psicologia sobre o esgotamento moderno
A psicóloga Cristiane Lang alerta que o Dia do Trabalho, além de celebrar conquistas, expõe o adoecimento de muitos profissionais. Condições como burnout, ansiedade e cansaço extremo não são sinais de fraqueza, mas sim consequências de rotinas pesadas, com cobranças excessivas, pouca valorização e tempo insuficiente para descanso. A tecnologia, ao invadir o tempo de folga e criar a cultura do “sempre disponível”, intensifica esse quadro.
“O que antes era símbolo de dignidade e sobrevivência, hoje, para muitos, tornou-se fonte de exaustão, ansiedade e perda de sentido. Jornadas extensas, metas inalcançáveis. Vivemos sob a lógica da produtividade constante. A tecnologia, que prometia facilitar a vida, acabou por dissolver as fronteiras entre trabalho e descanso. Mensagens fora do expediente, demandas urgentes a qualquer hora, a cultura do ‘sempre disponível’, tudo isso contribui para um estado permanente de alerta”, explica a psicóloga. O dilema contemporâneo, segundo Lang, é saber se trabalhamos para viver ou vivemos para trabalhar, e o desafio é ressignificar o trabalho como parte equilibrada da existência, e não como fonte de sofrimento.
A matéria, que buscou entender o estado de espírito dos trabalhadores em Campo Grande, conforme o Campo Grande NEWS apurou, revela um cenário de desafios, mas também de resiliência e busca por melhores condições. A reportagem do Campo Grande NEWS destaca a importância de um diálogo aberto entre empregadores e empregados para construir um futuro laboral mais digno e saudável.

