Família brasileira morta por Israel buscava pertences no Sul do Líbano

Uma família de cidadãos brasileiros e libaneses foi tragicamente morta em um bombardeio realizado por Israel na cidade de Burj Qalowayh, no sul do Líbano. O ataque ocorreu enquanto os familiares buscavam roupas e pertences em sua residência, que foi completamente destruída. Os corpos das vítimas ainda não foram encontrados nos escombros, adicionando mais dor a esta devastadora perda. A situação levanta sérias questões sobre a segurança de civis em zonas de conflito e a proteção de nacionais em território estrangeiro.

Família buscava itens essenciais em casa bombardeada

A brasileira Manal Jaafar, de 47 anos, seu filho Ali Ghassan Nader, de 11 anos, e o pai do garoto, o libanês Ghassan Nader, de 57 anos, faleceram no ataque. Eles haviam deixado sua residência em Bint Jbeil no início da atual fase do conflito, em 2 de março, refugiando-se em Beirute. Com um cessar-fogo anunciado em 16 de abril, a família decidiu retornar temporariamente ao sul para coletar mais roupas e pertences antes de voltar para a capital. Conforme o Campo Grande NEWS checou, eles haviam chegado ao local no último sábado, 25 de abril.

O plano interrompido e a perda irreparável

O irmão mais novo de Ghassan, Bilal Nader, de 43 anos, que reside em Foz do Iguaçu (PR), detalhou os planos da família. Ghassan Nader planejava retornar a Beirute no mesmo dia do ataque, mas acabou pernoitando na casa. “Ele falou que ia só juntar as coisas e voltar, só para pegar mais roupa. Ele até estava com o carro ligado, sabe, com o porta-malas já carregado”, relatou Bilal. A tragédia interrompeu os planos de retorno, ceifando a vida de três membros da família.

O impacto do bombardeio também feriu outro filho do casal, Kassam Nader, de 21 anos, estudante de computação no Líbano. Ele recebeu alta hospitalar nesta terça-feira, 28 de abril. O casal possuía ainda outros dois filhos mais velhos, de 28 e 26 anos, que vivem e trabalham no exterior. A família, que viveu no Brasil por mais de 15 anos entre 1995 e 2008, possui fortes laços com o país, onde Manal Jaafar adquiriu a nacionalidade brasileira e Ghassan era um conhecido comerciante de eletrônicos.

Vidas ceifadas sem envolvimento em conflitos

Bilal Nader enfatizou que seu irmão Ghassan não possuía qualquer ligação com partidos políticos ou grupos armados, levando uma vida pacífica como agricultor de oliveiras. “Meu irmão é uma pessoa de bem, não tem ligação com nada, não apoia nenhum partido, é uma pessoa bem reservada, bem sossegada”, assegurou Bilal. Ele também destacou que a região onde viviam não era um ponto de combate recente, sendo composta por construções civis e população comum.

A Agência Brasil buscou contato com a Embaixada de Israel no Brasil para obter um posicionamento oficial sobre o bombardeio, mas não obteve resposta até o fechamento da reportagem. O Líbano abriga a maior comunidade de brasileiros no Oriente Médio, com cerca de 22 mil brasileiros residindo no país em 2023, segundo o Ministério das Relações Exteriores (MRE). O Brasil condenou os ataques ocorridos durante a vigência do cessar-fogo.

Contexto do conflito e deslocamento forçado

O conflito entre Israel e o Hezbollah teve uma nova fase iniciada em outubro de 2023. O Hezbollah começou a realizar ataques contra o norte de Israel em solidariedade aos palestinos, em resposta aos eventos na Faixa de Gaza. Um cessar-fogo foi anunciado em novembro de 2024, mas, segundo relatos, não foi respeitado por Israel. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o Hezbollah retomou os ataques em 2 de março, em resposta às violações da trégua e ao assassinato do líder supremo do Irã, Ali Khamenei.

Um novo cessar-fogo foi anunciado em 8 de abril, mas Israel continuou com ataques no Líbano. A Casa Branca indicou que Israel poderia realizar ataques contra o Hezbollah apenas em legítima defesa. O governo israelense tem defendido a ocupação de todo o sul do Líbano até o Rio Litani, a cerca de 30 quilômetros da fronteira, alegando a criação de uma zona de segurança contra ataques do Hezbollah. Especialistas em geopolítica, como Anwar Assi, apontam que essas ações podem configurar uma limpeza étnica para expulsar moradores e tomar territórios, com a destruição de infraestruturas essenciais para dificultar o retorno da população civil.

A história do conflito remonta à década de 1980, com a criação do Hezbollah em reação à invasão israelense do Líbano. O grupo expulsou os israelenses em 2000 e se tornou um partido político com representação parlamentar. Israel atacou o Líbano em outras ocasiões, como em 2006, 2009 e 2011. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a situação no sul do Líbano tem sido marcada pela violação de cessar-fogos e ações que impactam diretamente a população civil, como o bombardeio da Ponte de Qasmiyeh, que isolou a região.