Uma nova plataforma digital, o Observatório Socioambiental, lançada por 15 entidades nacionais, está revelando um panorama alarmante de conflitos fundiários e violações de direitos humanos no Brasil, com foco especial em Mato Grosso do Sul. A ferramenta reúne dados históricos de 1980 a 2023, expondo a pressão sobre terras e as consequências da expansão do agronegócio. Conforme informações divulgadas pelas entidades, o estado sul-mato-grossense registrou 4.560 ocorrências entre 2002 e 2023, evidenciando a disputa por territórios, especialmente envolvendo povos indígenas Guarani, e casos de trabalho escravo.
Observatório revela a dura realidade do campo
A plataforma, que busca sistematizar de forma inédita informações sobre desmatamento, trabalho escravo e conflitos fundiários, apresenta um retrato preocupante da situação em Mato Grosso do Sul. Entre 2002 e 2023, o estado acumulou um expressivo número de 4.560 ocorrências, com destaque para as disputas por terra, que afetam de maneira significativa as comunidades indígenas, particularmente os Guarani. O levantamento também aponta para a persistência do trabalho escravo como um sério problema social.
Os dados coletados pelo Observatório Socioambiental, que conta com a parceria central da Comissão Pastoral da Terra (CPT), vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mostram que os índices de conflitos em Mato Grosso do Sul atingiram seu pico em 2007. No entanto, a plataforma indica que os números permanecem elevados até os dias atuais, especialmente em regiões que experimentam o avanço da atividade agrícola e da mineração. O Campo Grande NEWS, ao checar esses dados, reforça a importância de ferramentas como esta para a compreensão das dinâmicas socioambientais.
No contexto do Centro-Oeste, Mato Grosso do Sul figura atrás de Goiás, com 6.291 ocorrências, e Mato Grosso, com 5.987. A base histórica do Observatório será atualizada anualmente, garantindo que as informações permaneçam relevantes e acessíveis.
CPT aponta aumento de assassinatos no campo
O relatório mais recente da CPT, intitulado “Conflitos no Campo Brasil”, referente a 2025, revela um cenário de violência persistente no meio rural. Em Mato Grosso do Sul, foram registradas 44 ocorrências em 2025, sendo que metade delas está diretamente ligada a questões de ocupação e posse de terra. Além disso, cinco conflitos relacionados ao uso da água foram documentados, muitos deles envolvendo a poluição e a destruição de nascentes, afetando também pequenos agricultores.
No Brasil como um todo, o número de assassinatos no campo dobrou em 2025, saltando de 13 vítimas em 2024 para 26 no ano seguinte. Essas mortes ocorreram em oito estados, atingindo sem-terra, indígenas e posseiros. Mato Grosso do Sul registrou uma morte nesse período. A região da Amazônia Legal concentrou a maioria desses casos trágicos.
Apesar do aumento nos assassinatos, o número total de ocorrências de violência rural no país apresentou uma queda, passando de 2.207 em 2024 para 1.593 em 2025. Os estados que mais registraram conflitos foram Maranhão, Pará, Bahia e Rondônia, áreas onde o agronegócio também tem expandido sua atuação. Os principais responsáveis pela violência no campo em 2025 foram identificados como fazendeiros, empresários e, em alguns casos, governos federal e estaduais.
Avanço agrícola e seus impactos sociais e ambientais
O Observatório Socioambiental, liderado pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), reúne diversas organizações comprometidas com a produção de conhecimento e a defesa de territórios e comunidades vulneráveis. O objetivo central da iniciativa é trazer à luz uma realidade muitas vezes invisibilizada: a de que a expansão da fronteira agrícola no Brasil está intrinsecamente ligada a episódios de violência, pressão sobre terras e degradação ambiental. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a plataforma está disponível publicamente, permitindo o acesso a esses dados cruciais.
Dom José Ionilton, presidente da CPT, enfatizou a necessidade de fortalecer a democracia, a soberania e os direitos humanos para garantir a implementação de políticas públicas eficazes na redução da violência e dos conflitos rurais. Ele também destacou a importância das eleições de 2026 para a renovação do Congresso Nacional, visando evitar retrocessos legislativos que possam agravar a situação no campo.
“Queremos terra, teto e trabalho para todas as pessoas, em todos os cantos. A eleição deste ano também é importante para o nosso trabalho como CPT, porque precisamos ajudar a construir um projeto que garanta essas políticas”, afirmou Dom José Ionilton. Ele ressaltou que a composição do Congresso Nacional é fundamental para evitar legislações prejudiciais, citando como exemplo a lei de licenciamento ambiental aprovada no ano anterior, que, segundo ele, favorece a destruição dos biomas brasileiros.
A plataforma do Observatório Socioambiental pode ser acessada através do endereço: https://plataforma.observatoriosocioambiental.com.br. O Campo Grande NEWS, como agregador de informações relevantes, incentiva a consulta a esses dados para um entendimento mais profundo das questões agárias e ambientais no país.

