Inhotim celebra 20 anos com 3 novas obras que unem arte, natureza e história

O Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), abriu as celebrações de seus 20 anos com a inauguração de três novas obras: Contraplano, de Lais Myrrha, Dupla Cura, de Dalton Paula, e Tororama, de Davi de Jesus Nascimento. Considerado o maior museu a céu aberto da América Latina, o Inhotim, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, reafirma sua vocação em conectar arte, natureza e educação com essas novas instalações que prometem dialogar profundamente com o público e a história do local. A reportagem viajou a convite do Instituto Inhotim.

As novas obras foram apresentadas no último sábado (25), marcando o início de um novo ciclo para o renomado espaço cultural. Cada uma das instalações traz consigo uma perspectiva única, abordando desde a relação da arquitetura com a paisagem e a mineração até a ancestralidade, memória e a cultura afro-brasileira, além de uma imersão nas águas e nas histórias familiares ligadas ao Rio São Francisco.

A diretora artística do Inhotim, Júlia Rebouças, destacou que as novas obras se integram de forma orgânica ao acervo existente, que já conta com cerca de 1.862 obras de mais de 280 artistas de 43 países. “Cada um ao seu modo, vão repercutir o que é esse território, qual a relação do visitante com esse espaço, questões contemporâneas importantes. Elas vão revisitar momentos que muitas vezes estão ocultos na nossa história mais recente”, explicou Rebouças. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a intenção é que as novas peças enriqueçam a narrativa construída pelo instituto ao longo dessas duas décadas.

‘Contraplano’ reflete sobre arquitetura e mineração

Localizada em um dos pontos mais altos do Inhotim, a monumental escultura Contraplano, da artista mineira Lais Myrrha, faz uma referência direta ao prédio projetado por Oscar Niemeyer na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. Utilizando concreto armado e aço inoxidável, materiais emblemáticos da arquitetura moderna, a obra se estende sobre áreas verdes do museu e fragmentos de antigas cavas de mineração da região.

O título da obra sugere um espelhamento da paisagem alterada pela atividade mineradora. Lais Myrrha buscou propor uma reflexão sobre a intersecção entre arquitetura, paisagem, tempo, natureza, montanha e mineração. “Até que ponto as tecnologias modernas também influenciaram nessas formas de construção? A topografia, as cavas de mineração, como isso aparece nesse desenho da obra? Vai depender muito do repertório de cada visitante”, comentou a artista. Visitantes como a psicóloga Paola Prates, de 29 anos, elogiaram a obra por sua capacidade de diálogo com o entorno, promovendo um contraste entre o conforto do espaço e a memória da exploração mineral.

‘Dupla Cura’ celebra ancestralidade e memória afro-brasileira

Na Galeria Mata, uma das primeiras edificações do Inhotim, a exposição de longa duração Dupla Cura, do artista brasiliense Dalton Paula, apresenta um conjunto expressivo de cerca de 120 obras, incluindo pinturas, fotografias, vídeos e instalações. A mostra, conforme o Campo Grande NEWS apurou, reúne o mais amplo acervo de trabalhos do artista já exibido no Brasil, com forte conexão com a ancestralidade, a memória e a valorização da cultura afro-brasileira.

A curadora Beatriz Lemos explica que o título da exposição remete a um “pacto espiritual” e à devoção a São Cosme e São Damião, onde o fortalecimento individual se entrelaça com o bem-estar coletivo. Dalton Paula expressou seu fascínio pela reflexão sobre a memória, vendo suas obras, que datam desde 1999, como um “oráculo” que aponta para o presente e o futuro. “Quando a gente mostra ao público, principalmente, as futuras gerações, é algo muito importante”, ressaltou o artista.

‘Tororama’ mergulha nas águas e memórias familiares

Próxima à obra ‘Contraplano’, na Galeria Nascente, a instalação Tororama, de Davi de Jesus Nascimento, natural de Pirapora (MG), convida a um mergulho sensorial. O espaço abriga três pinturas e um vídeo gravado nas Cavernas do Peruaçu, além de carrancas feitas pelo Mestre Expedito, importante figura da arte popular que não produzia peças novas há uma década. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a obra se inspira em “A Terceira Margem do Rio”, de João Guimarães Rosa, explorando a relação com cursos d’água.

O trabalho de Davi Nascimento é profundamente ligado ao Rio São Francisco e à sua pesquisa familiar, que tem uma forte conexão com o rio. “A permissão do que eu faço vem por meio desse curso d’água que é o Rio São Francisco e da energia da minha mãe que morreu afogada em 2013”, compartilhou o artista. A instalação busca recriar o ambiente de onde ele veio, a comunidade ribeirinha e a figura de seu pai pescador. Sua irmã, Ana Paula Vieira do Nascimento, emocionou-se com a obra, que a remeteu às memórias da infância e à presença marcante da mãe.

O Instituto Inhotim, localizado a 60 km de Belo Horizonte, é uma organização sem fins lucrativos que se sustenta por doações e leis de incentivo. Idealizado pelo empresário Bernardo de Mello Paz, o museu surgiu em 2006 em uma fazenda da região. Com 140 hectares, o Inhotim abriga um Jardim Botânico com mais de 4,3 mil espécies botânicas raras, oferecendo uma experiência única de imersão entre arte e natureza, consolidando-se como um patrimônio cultural de valor inestimável.