Família clama por justiça pela morte de João Guilherme após o que chamam de saga em UPAs de Campo Grande

Familiares e amigos de João Guilherme Jorge Pires, de 9 anos, realizaram um protesto silencioso na manhã deste sábado (25) em Campo Grande, exigindo justiça pela morte do menino. Vestindo camisetas com o rosto de João e empunhando cartazes com frases como “Teve a vida interrompida por descaso” e “João Guilherme merece justiça, não esquecimento”, o grupo se reuniu em um cruzamento movimentado da cidade. A manifestação, que durou cerca de 20 pessoas, busca conscientizar a população e pressionar por respostas sobre a série de atendimentos médicos que o garoto recebeu antes de falecer.

O que dizem os familiares e o protesto

O silêncio dos manifestantes não reflete a dor e a indignação da família, que acredita que João Guilherme morreu por negligência após uma jornada frustrante por diferentes Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) em Campo Grande. Um dos cartazes expressava o sentimento geral: “Sem justiça não há paz”. A mãe de João, Regiani Jorge, declarou que, embora nada traga seu filho de volta, ela lutará incansavelmente por justiça. A mobilização visa garantir que o caso não caia no esquecimento e que os responsáveis sejam identificados e punidos.

Saga em UPAs e diagnóstico inicial

No dia 2 de abril, João Guilherme sofreu uma queda enquanto jogava futebol. Cinco dias depois, ele veio a falecer após dar entrada em sete unidades de saúde na Capital. Em uma das passagens por uma UPA, a médica teria diagnosticado a dor no peito do menino como “ansiedade” antes de liberá-lo. A certidão de óbito aponta como causas da morte insuficiência respiratória, infecção generalizada e artrite. Um laudo posterior indicou uma falha na entubação da criança, procedimento realizado na UPA Universitário.

O grupo de manifestantes, com semblante sério, abordava os motoristas nos semáforos vermelhos, mostrando seus cartazes e pedindo atenção para o caso. Assim que o sinal abria, eles se dispersavam, retomando a ação no próximo cruzamento. A estratégia visa maximizar a visibilidade da causa e alcançar o maior número de pessoas possível, reforçando o apelo por justiça.

Reunião com o Ministério Público e busca por prontuários

Na última quinta-feira (23), duas semanas após o falecimento de João Guilherme, a família do menino se reuniu com representantes do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS). Participaram do encontro a mãe, a tia e a irmã da criança, além do presidente da Avem-MS (Associação das Vítimas de Erros Médicos), Valdemar Moraes de Souza. O presidente da Avem-MS, que também esteve presente na manifestação, informou que nos próximos dias irá judicializar o pedido de prontuários médicos da criança junto à Santa Casa e à Secretaria Municipal de Saúde (Sesau).

A atuação da Avem-MS é fundamental para coletar todas as informações médicas e documentais que possam esclarecer as circunstâncias da morte de João Guilherme. A judicialização do pedido de prontuários é um passo crucial para subsidiar a investigação e garantir que a família tenha acesso a todos os registros de atendimento do menino, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.

A cronologia dos atendimentos e o desfecho trágico

De acordo com o boletim de ocorrência, a primeira ida à UPA ocorreu no dia 2 de abril, na unidade do bairro Tiradentes, onde João passou por consulta, fez um raio-x e foi liberado com prescrição de dipirona e ibuprofeno. No dia seguinte, preocupada com o estado de saúde do filho, a mãe o levou à UPA do bairro Universitário, onde ele foi novamente examinado e liberado com a mesma medicação.

No sábado, dia 4 de abril, a criança retornou à UPA Universitário. Após consulta e receber uma injeção, a mãe relatou que o menino sentia forte dor no peito. A médica, segundo o relato, atribuiu o sintoma à ansiedade e liberou a criança. No domingo, dia 5, a mãe retornou à UPA com João, que ficou em observação e realizou outro raio-x. O exame apontou uma lesão no joelho esquerdo, e o menino foi liberado com a indicação de colocar uma tala na Santa Casa na segunda-feira (6).

Na segunda-feira, após a colocação da tala na perna esquerda na Santa Casa e nova alta, João Guilherme passou mal, desmaiou e ficou com a pele arroxeada, principalmente nas pernas. A família o levou novamente à UPA Universitário, onde chegou desacordado. Funcionários teriam informado que não havia médico, mas iniciaram manobras de reanimação, administraram oxigênio e entubaram o menino antes de encaminhá-lo à Santa Casa. No hospital, após novas tentativas de reanimação, João não resistiu e seu óbito foi constatado na madrugada de terça-feira (7).

Investigação policial e posicionamento das instituições

A morte de João Guilherme Jorge Pires está sendo investigada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, por meio da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca). Detalhes da investigação inicial não foram divulgados, e a delegada responsável se manifestará apenas após a conclusão do inquérito. A família, representada pela tia Adriana Soares, já havia declarado anteriormente que o laudo da Santa Casa indicou uma “entubação errada”, caracterizando negligência médica e resultando na perda de uma vida jovem e saudável.

A Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) informou que o caso está sob investigação e que, em cumprimento à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) e ao sigilo das informações de saúde, não pode fornecer dados sobre atendimentos individuais. A pasta assegura que os prontuários e registros médicos estão sendo apurados e que medidas cabíveis serão adotadas caso sejam identificados desvios de conduta. A Santa Casa de Campo Grande também lamentou o ocorrido e se solidarizou com a família, mas, citando a LGPD e o sigilo médico, negou-se a divulgar informações específicas sobre o caso, conforme reportado pelo Campo Grande NEWS.

A comunidade e a família de João Guilherme aguardam ansiosamente por respostas e por justiça, na esperança de que este triste episódio sirva como um alerta para a melhoria dos serviços de saúde pública e para que outras famílias não passem pela mesma dor. A busca por responsabilização é um direito e um dever, e a família conta com o apoio das autoridades e da sociedade para que a verdade venha à tona. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando o desenrolar deste caso.