Mosca-da-fruta: Pesquisa na UFMS desvenda segredos genéticos do autismo

Um estudo inovador conduzido pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) está lançando luz sobre as complexas bases genéticas do autismo. Utilizando a mosca-da-fruta, a cientista Ana Luiza Bossolani Martins e sua equipe reproduziram mutações genéticas encontradas em pacientes brasileiros com transtorno do espectro autista (TEA). A pesquisa, que tem gerado resultados promissores, busca desvendar a função de genes ainda pouco explorados e suas conexões com alterações comportamentais, de sono e até mesmo com outras condições neurológicas como epilepsia, esquizofrenia e TDAH.

Mosca-da-fruta: Um modelo eficaz para o estudo do autismo

A escolha da drosophila melanogaster, popularmente conhecida como mosca-da-fruta, não foi aleatória. Segundo a doutora Ana Luiza, a semelhança genética entre as moscas e os humanos, que chega a cerca de 65% a 70%, a torna uma ferramenta poderosa para a investigação de condições complexas. Essa alta similaridade permite que alterações genéticas observadas em humanos possam ser simuladas e estudadas em um organismo com ciclo de vida curto, muitos descendentes e baixo custo de manutenção, agilizando a compreensão de processos biológicos.

A pesquisa, iniciada a partir de uma colaboração internacional em 2023, foca na análise funcional de genes alterados em um paciente brasileiro com diagnóstico de autismo. O objetivo principal é entender o que acontece quando esses genes perdem sua função normal no organismo. “Uma avaliação funcional é quando falta a função do gene naquele organismo e eu quero entender o que acontece para aquele organismo”, explica a pesquisadora.

Reproduzindo mutações e observando comportamentos

Para alcançar seus objetivos, os pesquisadores da UFMS reproduziram na mosca as mesmas alterações genéticas identificadas no paciente. Em seguida, realizaram uma série de análises comportamentais para verificar se os insetos apresentariam características análogas às observadas no autismo. Foram avaliados aspectos como a interação social, a ocorrência de estereotipias (comportamentos repetitivos), padrões de sono e impulsividade.

Os resultados foram significativos. As moscas com as mutações genéticas apresentaram déficit na interação social e alterações em seus comportamentos repetitivos. Além disso, foram observadas mudanças nos padrões de sono e um aumento na impulsividade, características que ressoam com os desafios enfrentados por indivíduos com TEA.

A complexidade de múltiplos genes afetados

O estudo não se limitou a analisar a perda de um único gene. A equipe também simulou uma condição mais complexa, onde dois genes foram afetados por uma translocação cromossômica no paciente. Ao simular a perda de uma cópia de cada um desses genes nas moscas, os pesquisadores notaram um agravamento nos efeitos observados. “Para certos comportamentos houve uma piora comparada à perda de uma cópia só, principalmente para estereotipias”, relatou Ana Luiza.

Um exemplo claro dessa piora foi o padrão de limpeza das moscas, que se tornou mais restrito e repetitivo, um comportamento análogo às estereotipias compulsivas vistas no autismo. A pesquisa também investigou a expressão de um dos genes ao longo do desenvolvimento da mosca, descobrindo sua importância para as fases iniciais do desenvolvimento.

Novas frentes de pesquisa e o potencial da mosca-da-fruta

Os achados iniciais já permitiram aos cientistas esclarecer “um pouco da função de um dos genes e propor esse gene como participante da etiologia do autismo”, conforme afirma Ana Luiza. A expectativa é que, após a análise final dos dados, um artigo científico seja publicado para divulgar os resultados detalhados. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a UFMS tem se destacado em pesquisas científicas de relevância nacional.

Além do estudo sobre autismo, o grupo já iniciou novas investigações. Uma delas busca compreender a relação entre alterações genéticas e a ocorrência de epilepsia em pacientes com autismo. Há também indícios de que os genes estudados possam estar associados a quadros de esquizofrenia e TDAH. A pesquisa em neurociência com modelos como a drosophila é fundamental para avançar na compreensão de diversas condições neurológicas, como Parkinson, Alzheimer e ELA, conforme relatado pelo próprio Campo Grande NEWS.

A capacidade de mapear as conexões neurais da mosca, entendendo quais neurônios se conectam a quais funções, é outro avanço crucial. Essa linha de pesquisa abre portas para uma compreensão mais profunda do funcionamento cerebral, incluindo aspectos como memória, aprendizado e atenção. A expertise do Campo Grande NEWS em cobrir descobertas científicas reforça a importância dessas pesquisas para a sociedade.

Em suma, o uso estratégico da mosca-da-fruta pela UFMS está proporcionando descobertas inéditas sobre os genes ligados ao autismo, abrindo novos caminhos para futuras terapias e diagnósticos mais precisos. A pesquisa exemplifica como modelos animais podem ser essenciais para desvendar as complexidades da biologia humana.