Cidade de 15 minutos: Campo Grande encara distância e falta de estrutura

A ideia de uma cidade de 15 minutos, onde as necessidades básicas podem ser resolvidas a pé ou de bicicleta em até 15 minutos, esbarra na realidade de muitos campo-grandenses. A distância, a falta de comércio diversificado e a infraestrutura precária para pedestres são os principais obstáculos para a adoção desse conceito urbanístico na Capital.

Apesar de a maioria dos leitores do Campo Grande NEWS afirmar que consegue resolver o básico do dia a dia perto de casa, com 77% dos votantes satisfeitos, a experiência de muitos moradores diverge dessa percepção. Para eles, o cotidiano exige o uso de carros ou aplicativos de transporte, mesmo para distâncias consideradas curtas.

Desafios da mobilidade urbana em Campo Grande

O conceito de cidade de 15 minutos, popularizado pelo urbanista Carlos Moreno, propõe que os cidadãos tenham acesso a serviços essenciais como saúde, educação, lazer e comércio em um raio de curta distância de suas residências. No entanto, em Campo Grande, a implementação dessa ideia enfrenta barreiras significativas.

A professora Victoria Nascimento, de 29 anos, moradora do Bairro Santa Fé, exemplifica a situação. Ela consegue realizar atividades como ir ao salão de beleza ou à academia a pé, pois estão a cerca de 10 quarteirões de sua casa. Contudo, para outras necessidades, como ir à escola onde trabalha no Bairro Coronel Antonino, ela recorre a aplicativos de transporte.

“Eu vou a pé para o salão e para a academia, essas são as coisas que eu faço a pé no dia a dia”, relata Victoria. Ela aponta a carência de comércio diversificado em seu bairro. “Essa região eu acho meio esquisita porque não tem um hortifruti, não tem mercadinho de bairro, se faltar alguma coisa e precisar comprar um papel higiênico só tem o mercado do shopping, que é chato de ir”, lamenta.

Infraestrutura precária dificulta o caminhar

Além da falta de comércio, Victoria ressalta a infraestrutura inadequada para pedestres. “Ali naquela quadra mesmo tem dois carros estacionados na calçada, então você vai passar ali, você tem que atravessar para o outro lado. Então é carro estacionado na calçada, é bar com mesas e cadeiras ocupando a calçada, espaço do pedestre, calçada que não é apropriada”, descreve.

Um degrau em um trecho para cruzar a Avenida Mato Grosso agrava a dificuldade de locomoção para quem opta por caminhar. Esses obstáculos tornam a experiência de se deslocar a pé menos segura e conveniente, desencorajando a prática.

O barista Wendel de Sousa, de 27 anos, que mora no Jardim Presidente e trabalha no Carandá Bosque, também enfrenta desafios semelhantes. Ele utiliza principalmente aplicativos de transporte, pois os serviços essenciais em seu bairro são distantes. Para comprar pão, por exemplo, a caminhada é de 20 minutos para ir e 20 para voltar.

“Pelo menos ali na minha região, fica um pouquinho afastado. Nem tudo tem acesso muito fácil, até mais pela distância mesmo”, explica Wendel. Para compras maiores, ele prefere ir a bairros vizinhos de carro, buscando mercados com preços mais acessíveis, o que novamente exige o uso de transporte motorizado.

A cultura do carro e a distância

Mesmo em áreas com maior concentração de comércio, como a Rua Vitório Zeolla no Carandá Bosque, o padrão é o uso do carro. A praticidade de estacionar próximo parece superar a ideia de caminhar, mesmo que os estabelecimentos estejam a poucos metros.

O frentista José Alan Santos, de 21 anos, morador do Bairro Coronel Antonino, prefere usar a moto para ir ao mercado, que fica a apenas cinco minutos de sua casa a pé. “Aí dá um minutinho”, brinca. Ele justifica a escolha pela rapidez e facilidade de transportar as compras.

José compara sua rotina atual com a de sua cidade natal, Rio Branco, no Acre. “Lá andava a pé, não tinha moto e tudo era perto, em meia hora você atravessava a cidade”, relembra, evidenciando como a distância e a cultura do transporte motorizado moldam os hábitos de mobilidade.

Apesar das dificuldades relatadas por muitos, uma enquete realizada pelo Campo Grande NEWS revelou que a maioria dos leitores (77%) sente que tem acesso ao básico perto de casa. Essa disparidade entre a percepção geral e as experiências individuais destaca a complexidade da urbanização e a necessidade de políticas públicas que promovam uma cidade mais acessível e sustentável para todos, como aponta a análise do Campo Grande NEWS sobre os desafios locais.