Mulher vive 8 anos com diagnóstico errado de HIV e recebe R$ 50 mil de indenização

Uma moradora de Campo Grande viveu por oito anos sob o estigma de ser portadora do HIV, enfrentando tratamentos, efeitos colaterais e um profundo isolamento social. Silvia das Neves Garcia só descobriu em maio de 2024 que o diagnóstico inicial estava equivocado, após uma médica solicitar uma série de exames de rotina que apontaram que ela nunca teve o vírus. A história, marcada por sofrimento e incompreensão, resultou em uma indenização de R$ 50 mil concedida pela Justiça, embora a vítima considere o valor irrisório diante do drama vivido. A decisão ainda está sujeita a recurso. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, as sequelas físicas e psicológicas persistem, especialmente problemas estomacais decorrentes da medicação prolongada.

Vítima relata preconceito e isolamento social

A jornada de Silvia com o diagnóstico equivocado começou em 9 de maio de 2016, quando iniciou o tratamento diário com antirretrovirais. A medicação só foi interrompida em maio de 2024, quando uma médica, durante um check-up geral, solicitou exames que constataram que Silvia era “não reagente” ao HIV. “Vizinho não queria beber água na minha casa. Eu escondia copo, talher, alicate de unha que eu usava para não contaminar ninguém”, relata Silvia, emocionada ao relembrar os momentos de angústia.

Ela conta que, apesar de ter realizado pelo menos 12 outros exames de confirmação ao longo dos anos, o erro persistiu. Silvia frequentava o hospital a cada três meses para buscar os medicamentos e realizar novas testagens, sem que o equívoco fosse detectado. A descoberta tardia gerou um processo contra o Poder Público, que resultou na indenização de R$ 50 mil. “Acho pouco pelo que eu passei. Dinheiro nenhum paga. Mas é um reconhecimento do erro”, afirma a vítima.

O impacto do diagnóstico na vida pessoal e profissional

Ao receber o diagnóstico inicial, Silvia ficou chocada e decidiu manter segredo por alguns dias antes de compartilhar a notícia com seus filhos e empregadores. Apesar de ter recebido apoio em ambos os âmbitos, o impacto emocional foi avassalador. Na época, ela já trabalhava na mesma empresa há 15 anos, e a conquista do emprego formal havia sido um marco em sua vida. “Quando o seu André registrou minha carteira, eu nem dormi. Ficava sentada olhando, abrindo toda hora. Ver minha carteira assinada igual aos outros foi uma alegria enorme”, recorda.

No entanto, fora do ambiente de trabalho e familiar, Silvia afirma ter enfrentado forte preconceito e isolamento. O medo de transmitir o vírus a impedia de buscar relacionamentos afetivos, por receio de responsabilidade judicial. “Eu tinha medo até de namorar. As pessoas falavam que, se eu passasse o HIV, eu podia ir presa. Então eu me retraí”, confessa.

Tristeza, depressão e hábitos prejudiciais

A insegurança gerada pelo diagnóstico errôneo contribuiu para quadros de tristeza e depressão. Silvia revela que pensava em morrer e temia prejudicar outras pessoas. Situações cotidianas passaram a causar desconforto, como abraços, nos quais ela se sentia mal por medo de contaminar o outro. Chegou a adotar medidas extremas, como manter um pano no ombro para cobrir a boca ao espirrar, mesmo sem qualquer risco real de transmissão.

O sofrimento psicológico a levou a ter insônia e a se afastar das pessoas quando elas se aproximavam, acreditando erroneamente na transmissão do vírus pela saliva. O quadro também a levou a iniciar o consumo de álcool e cigarro. “Eu pensava: vou morrer mesmo, então comecei a beber para esquecer”, desabafa. Os efeitos colaterais dos medicamentos, como tontura, moleza nas pernas, dores de estômago e falta de apetite, eram relatados aos médicos, que os atribuíam à própria medicação.

A reviravolta e as sequelas que permanecem

A virada na vida de Silvia ocorreu quando uma médica, desconfiada do histórico, suspendeu a medicação temporariamente e solicitou novos exames. O resultado confirmou que ela não possuía o vírus. “Ela falou: ‘Você não tem HIV’. Eu caí no chão chorando. Até a médica chorou comigo”, relembra Silvia.

Após a suspensão definitiva dos remédios, a melhora física foi notável, com o desaparecimento da moleza nas pernas e a retomada do apetite. Contudo, as sequelas no estômago persistem devido ao uso prolongado da medicação. As consequências emocionais, segundo ela, são mais difíceis de superar. “Foram oito anos achando que eu ia morrer. Eu deixei de viver muita coisa”, lamenta. A lembrança do sofrimento ainda causa emoção e tristeza, pois “não tem como esquecer tudo que eu vivi”, resume.

O advogado de Silvia, Ricardo Pegolo, acompanhou seu sofrimento nos últimos dois anos e informou que eles não pretendem recorrer da decisão judicial, aguardando apenas se haverá recurso por parte da Prefeitura. A história, que ganhou destaque no Campo Grande NEWS, evidencia a importância da **rigorosidade nos diagnósticos médicos** e o impacto devastador de erros que podem alterar drasticamente a vida de pacientes. A experiência de Silvia, conforme detalhado pelo Campo Grande NEWS, serve como um alerta sobre a necessidade de **acompanhamento médico atento e contínuo** para evitar tragédias como a que ela viveu.