Uma casa de alto padrão no Jardim dos Estados, em Campo Grande, tornou-se o centro de uma tragédia na tarde desta terça-feira (24/3). O ex-prefeito Alcides Bernal matou um homem a tiros após uma confusão envolvendo o imóvel, que já acumulava um histórico de dívidas, bloqueios e disputas judiciais. A vítima havia arrematado a residência em leilão judicial e estava no local com outras duas pessoas, incluindo um chaveiro, indicando a intenção de tomar posse do bem.
A morte, que ocorreu em poucos minutos, foi o ápice de uma longa saga judicial envolvendo a propriedade. Antes dos disparos e da chegada da polícia, o imóvel já era peça central em um complexo emaranhado de pendências financeiras e legais, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.
A saga judicial do imóvel de luxo
A residência, localizada na Rua Antônio Maria Coelho, uma das áreas mais nobres de Campo Grande, foi adquirida por Alcides Bernal em 16 de agosto de 2016, por R$ 1.669.422,87. Posteriormente, foi dada como garantia em um título de crédito junto à Caixa Econômica Federal, no valor de R$ 858 mil, com prazo de pagamento de 29 anos. A casa, com 678 metros quadrados de construção em um terreno de 1,4 mil metros quadrados, possuía três quartos, seis vagas de garagem e diversas salas, avaliada inicialmente em R$ 3,7 milhões.
No entanto, o que parecia ser um símbolo de prosperidade, com o tempo, transformou-se em palco de disputas judiciais. A propriedade começou a acumular restrições legais, tornando-se um bem em litígio. Em 17 de outubro de 2017, 50% do imóvel teve sua indisponibilidade registrada pela 1ª Vara de Direitos Difusos Coletivos e Individuais Homogêneos de Campo Grande, impedindo sua venda ou doação.
Essa restrição foi cancelada em 26 de janeiro de 2018, mas, poucos dias depois, em 8 de fevereiro, uma nova indisponibilidade de 50% foi registrada pela mesma vara, sendo cancelada em 27 de fevereiro de 2018. O histórico mostra uma propriedade com caminho conturbado, presa a decisões judiciais e pendências sucessivas.
Penhora, arresto e a retomada pela Caixa
A situação se complicou ainda mais em 3 de novembro de 2021, quando a mesma vara determinou a indisponibilidade da posse direta do imóvel. Em 3 de abril de 2024, o Ministério Público Estadual de Mato Grosso do Sul penhorou a casa no valor de R$ 2.946.981,62. Posteriormente, em 20 de junho de 2025, a Prefeitura de Campo Grande realizou o arresto do bem, visando garantir o pagamento de dívidas que somavam R$ 80.287,97, atualizados em 2023.
O último registro na matrícula do imóvel, datado de 25 de julho de 2025, indica que a Caixa Econômica Federal assumiu a propriedade da casa por falta de pagamento da dívida. A partir daí, o imóvel deveria ir a leilão público para tentar quitar o saldo devedor, um processo que culminaria na tragédia.
O leilão e o conflito fatal
Foi esse leilão que colocou a vítima, Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, no centro da história. Ele arrematou a casa em leilão judicial, e os trâmites finais estavam sendo realizados em cartório. Mazzini foi até o imóvel acompanhado de outras duas pessoas, incluindo um chaveiro, evidenciando a intenção de entrar na propriedade para tomar posse, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.
Na caminhonete da vítima, foi encontrada uma notificação extrajudicial para desocupação, demonstrando que a disputa pela posse já havia extrapolado o âmbito informal e entrado definitivamente no campo formal dos documentos. O imóvel estava em processo de mudança de controle, o que pode ter gerado o conflito.
A mansão, que tinha um valor inicial de R$ 3,7 milhões, foi colocada em leilão com um lance inicial de R$ 2,4 milhões, representando um desconto de 36%. As ofertas começaram em 25 de novembro de 2025. A tragédia, portanto, não surgiu de um evento isolado, mas foi o desfecho de uma longa e complexa cadeia de dívidas, bloqueios, penhoras, arrestos, retomada bancária e leilão, como detalhado pelo Campo Grande NEWS.
A cena da morte, vista isoladamente, pode parecer um conflito repentino. Contudo, a análise dos documentos e do histórico do imóvel revela que o desenrolar fatal daquela tarde foi o resultado de anos de pendências financeiras e embates jurídicos. A casa, que externamente representava luxo e status, internamente, nos corredores do cartório, era um problema em aberto, aguardando uma resolução que, infelizmente, chegou da forma mais trágica possível.

