Enquanto Cuiabá enfrenta a perda de suas árvores e vê o título de “Cidade Verde” se distanciar, a capital de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, desponta como um exemplo global em arborização urbana. A advogada Silvia Mara, fundadora da Associação Cuiabá Mais Verde, destaca a cidade vizinha como um contraponto inspirador, celebrando o reconhecimento de Campo Grande como “Tree City of the World” pelo sétimo ano consecutivo. Essa certificação internacional atesta a excelência na gestão da arborização, a existência de legislação específica, o monitoramento constante das árvores, investimentos contínuos e o engajamento da população em ações de conscientização, como o bem-sucedido Projeto Via Verde, que amplia corredores ecológicos e promove o equilíbrio climático urbano.
“Campo Grande ganhou vários prêmios. Campo Grande está maravilhosa. Se a gente tinha uma rixa com Campo Grande, eles ganharam”, afirma Silvia Mara, ressaltando a diferença gritante entre as duas capitais. Ela enfatiza que o progresso de Campo Grande demonstra que o crescimento urbano não precisa ocorrer em detrimento da natureza. Ao contrário, a capital sul-mato-grossense prova que é possível conciliar desenvolvimento com a preservação e expansão de áreas verdes, algo que Cuiabá parece ter deixado para trás.
A advogada critica a visão urbanística de Cuiabá, onde o avanço do cimento parece imperar. “Todas as farmácias, por exemplo, são obras autorizadas pela prefeitura. Elas não têm uma árvore, elas têm cimento. O cimento adianta de quê? Quando chove, não tem permeabilidade. A chuva escorre, alaga. Você vê farmácias com mudinhas pequenas”, observa, ilustrando a falta de planejamento e a priorização do concreto sobre a vegetação.
Para Silvia, a situação em Cuiabá ainda pode ser revertida, mas exige uma mudança radical de estratégia. “Dá, dá pra contornar essa situação. E ter uma cidade verde. Mas o curto prazo que eu falo são cinco anos, não são 50. Em 50 aqui estará pegando fogo ou alagado”, alerta, pintando um quadro sombrio para o futuro da capital mato-grossense caso as atuais políticas persistam. O desafio, contudo, vai além da esfera pública, esbarrando na apatia de parte da população.
O despertar da Associação Cuiabá Mais Verde
A Associação Cuiabá Mais Verde nasceu de um desabafo nas redes sociais durante o isolamento social imposto pela pandemia de COVID-19. Em 2020, ao passar pela Avenida Helder Cândia, Silvia Mara se deparou com uma paisagem desoladora, seca e desprovida de árvores. A cena a impulsionou a questionar nas redes sociais o motivo da cidade ter perdido seu verde, uma publicação que rapidamente viralizou em um grupo de Facebook, mobilizando outras pessoas com o mesmo sentimento.
A avenida Helder Cândia tornou-se a área piloto do projeto, e em setembro de 2020, cerca de 80 mudas de árvores nativas foram plantadas. Contudo, a experiência inicial revelou a complexidade do problema. “A gente entendeu que plantar é o mínimo. Não adianta só isso. Não tinha estrutura, não tinha legislação adequada, não tinha política pública funcionando”, relata Silvia.
A distribuição de mudas para a população, sem um controle rigoroso sobre o plantio e a sobrevivência, também expôs um “gargalo enorme”. Dificuldades práticas como o solo compactado, a necessidade de insumos e a manutenção das mudas evidenciaram que a arborização urbana requer planejamento técnico e acompanhamento contínuo. “Foi muito difícil manter as árvores vivas. Não é simples como parece”, conclui.
Busca por independência e o Plano Diretor engavetado
Diante dos desafios, o grupo se organizou em núcleos técnicos, administrativos e jurídicos, formalizando a iniciativa com a criação de um CNPJ em 2021. Atualmente, a associação busca recursos e parcerias com empresas e iniciativas privadas para desenvolver projetos de forma independente, pois “a gente percebeu que não pode depender só do poder público”, afirma Silvia.
A principal bandeira da Associação Cuiabá Mais Verde, no entanto, continua sendo a implementação do Plano Diretor de Arborização Urbana de Cuiabá. Segundo Silvia, o plano, que é obrigatório e já foi elaborado, permanece “parado”. Sem sua execução, a cidade carece de uma política pública estruturada para garantir um futuro mais verde e resiliente. A falta deste plano é vista como o principal obstáculo para reverter o cenário atual e alcançar o status de “Cidade Verde”, conforme o Campo Grande NEWS checou. A situação contrasta fortemente com a gestão exemplar de Campo Grande, que, segundo o Campo Grande NEWS, investe continuamente em sua arborização, garantindo a certificação internacional. A experiência de Campo Grande, detalhada pelo Campo Grande NEWS, serve como um farol para outras cidades brasileiras que almejam um futuro mais sustentável e verdejante.

