Pandemia: álcool em gel e missas sem ‘paz de Cristo’ são heranças

Heranças da Pandemia: Do Álcool em Gel à Missa sem ‘Paz de Cristo’

Seis anos após a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar a pandemia de coronavírus em 11 de março de 2020, os ecos da COVID-19 ainda moldam a sociedade. Em Mato Grosso do Sul, onde a doença causou cerca de 11 mil mortes, as transformações vão desde o uso rotineiro de álcool em gel e a consolidação do trabalho remoto até alterações em rituais religiosos. A telemedicina se expandiu, a comunicação entre médicos e pacientes se aprofundou, e em algumas igrejas, a suspensão do cumprimento da “paz de Cristo” persiste. O modelo de trabalho híbrido também se tornou um padrão em muitas empresas.

O período foi marcado por medo, incerteza, escassez de vacinas e boletins diários trágicos. Com o fim oficial da pandemia em 5 de maio de 2023, as mudanças se consolidaram, impactando o dia a dia de milhões de pessoas. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, essas adaptações refletem a resiliência e a capacidade de reinvenção diante de uma crise sanitária sem precedentes.

Avanços na Saúde e Higiene Pessoal

A pandemia impulsionou avanços significativos na área da saúde e na adoção de práticas de higiene. O presidente do Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul (SinMed/MS), Marcelo Santana Silveira, destaca o aumento na comunicação entre médicos, familiares e pacientes. “Isso nos aproximou de uma forma muito mais ampla. Nessa época, quem tinha paciente internado recebia um boletim diário, que discutia gravidade, proposta de tratamento, incertezas. Isso aproximou muito. No meu ponto de vista, melhorou a comunicação”, afirma Silveira.

Hospitais implementaram maior controle de infecções, triagens mais rígidas e prontuários eletrônicos. A saúde mental dos profissionais de saúde também veio à tona como uma urgência. A telemedicina se expandiu, permitindo maior acesso da população a atendimentos médicos. “A gente percebeu um avanço muito importante nos teleatendimentos. Isso foi um fato muito marcante, com a oferta de atendimento por meio da tecnologia a distância”, relata o médico.

O uso de máscaras diante de sintomas e a testagem para identificar o vírus se tornaram rotineiros. “Anteriormente, não se tinha o costume de testar quando a pessoa tinha uma gripe. Hoje, a testagem é utilizada de forma rotineira”, observa Silveira. O álcool em gel, antes um item de difícil acesso, tornou-se onipresente. A demanda foi tão alta que, em 2020, a Justiça Federal de Campo Grande autorizou uma cervejaria a produzir álcool em gel e líquido, com preço fixado em R$ 3,90, para suprir a escassez. Essa medida visou garantir o acesso ao produto essencial para a prevenção, mesmo com a não autorização específica da Anvisa na época, dada a urgência da situação.

Trabalho Remoto e Flexibilidade: Novos Modelos em Voga

A forma de trabalhar foi uma das áreas mais impactadas. Com o receio de contaminação e restrições de mobilidade, o home office se tornou a norma para muitas empresas. Esse modelo, iniciado por necessidade, perdurou e se consolidou. Adriana de Souza Arguelho, analista de negócios de 38 anos, trabalha de casa desde o início da pandemia, com poucas idas presenciais ao escritório em Campo Grande.

“Antes da pandemia, eu trabalhava presencial. Mas quando teve o primeiro caso de contaminação em Campo Grande, a empresa rapidamente se mobilizou e passamos a trabalhar de forma híbrida. A empresa trouxe muita segurança para a gente e disponibilizou os materiais de trabalho, como cadeiras, notebook, a segunda tela. Era um momento incerto, ninguém sabia o que viria a acontecer”, conta Adriana.

Ela ressalta os benefícios do modelo híbrido para a qualidade de vida. “Esse modelo de trabalho facilita muito para mim, principalmente com relação à minha vida pessoal. O fato de ter essa flexibilidade me traz mais tranquilidade”, diz. A empresa onde Adriana trabalha, que conta com 758 funcionários, cresceu tanto desde 2020 que o formato híbrido se tornou essencial para acomodar a equipe.

Transformações na Fé e nos Rituais Religiosos

A pandemia também alterou tradições religiosas. Em algumas igrejas, o cumprimento da “paz de Cristo” ou o “abraço da paz” ainda é opcional, uma herança dos protocolos de distanciamento social. O reitor do Santuário Estadual de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Reginaldo Padilha, explica que esses ritos foram suspensos durante a pandemia e, em 2024, o bispo Dom Dimas Lara Barbosa enviou uma carta aos padres informando que são facultativos, embora importantes para a partilha comunitária.

O santuário, localizado na Avenida Afonso Pena, em Campo Grande, atrai até 30 mil pessoas às quartas-feiras, em celebrações que ocorrem das 6h às 23h. A adaptação dos ritos reflete a necessidade de conciliar a fé com a segurança sanitária, uma lição aprendida durante os anos mais críticos da pandemia, conforme noticiado pelo Campo Grande NEWS.

Novos Hábitos de Consumo e o Impacto Econômico

A forma de consumir também mudou, com o surgimento dos cardápios por QR Code em estabelecimentos. Embora inicialmente uma medida para evitar contato físico, essa novidade gerou opiniões divididas, levando à criação de leis. Desde 2023, uma legislação estadual obriga locais de alimentação a oferecerem cardápios impressos, garantindo o acesso a todos.

Economicamente, a pandemia impulsionou as compras online e os serviços de entrega. Renato Paniago, presidente da Associação Comercial e Industrial de Campo Grande (ACICG), aponta que o setor de food service foi um dos que mais cresceu. “Hoje, por exemplo, já existem estabelecimentos que atendem exclusivamente nessa modalidade, operando por meio de aplicativos de entrega. Além dos restaurantes, também vemos supermercados utilizando cada vez mais essa estratégia”, destaca Paniago.

O período consolidou o modelo de delivery e o expandiu para outros segmentos. “Hoje vemos farmácias, lojas de vestuário, calçados, cosméticos e outros setores do varejo adotando esse formato como parte importante das vendas”, conclui. A consolidação desses novos hábitos, que foram acelerados pela pandemia, é uma das mais significativas heranças do período, impactando a forma como as pessoas compram e os negócios operam, como bem documentado pelo Campo Grande NEWS em suas reportagens sobre o comércio local.