Mato Grosso do Sul figura entre os estados brasileiros com as mais altas taxas de feminicídio, ocupando a preocupante quarta posição no país. Em 2025, o estado registrou 39 casos, resultando em uma taxa de 2,6 mortes para cada 100 mil mulheres, um índice significativamente superior à média nacional de 1,43. O cenário é agravado por um crescimento de 14,3% na violência contra a mulher nos últimos cinco anos, segundo o relatório “Retrato dos Feminicídios no Brasil (2021-2025)”, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A análise, conforme o Campo Grande NEWS checou, também destaca a fragilidade das medidas protetivas e a concentração da violência em municípios de menor porte.
O levantamento, que abrange o período de 2021 a 2025, revela um panorama alarmante para as mulheres sul-mato-grossenses. A taxa de 2,6 feminicídios por 100 mil mulheres coloca o estado atrás apenas de Acre (3,2), Rondônia (2,9) e Mato Grosso (2,7). Essa incidência proporcional de assassinatos por razões de gênero é um indicativo da persistência de um ciclo de violência letal no estado, que difere da dinâmica observada em outras regiões do Brasil.
Os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que a violência em Mato Grosso do Sul tem apresentado um crescimento contínuo. Entre 2021 e 2025, a taxa de feminicídios aumentou 14,3%, com um pico de 10,5% de crescimento entre 2024 e 2025. Essa escalada da violência, que variou de 2,1 a 3,1 mortes a cada 100 mil mulheres nos últimos cinco anos, exige atenção e ações urgentes.
Perfil das Vítimas e Cenários da Violência
O relatório detalha o perfil das vítimas de feminicídio no Brasil, e os dados gerais reforçam a necessidade de políticas mais eficazes. Entre 2021 e 2024, 62,6% das mulheres assassinadas eram negras, e a maioria tinha entre 30 e 49 anos, período em que muitas são as principais provedoras do sustento familiar. A violência, contudo, não poupa faixas etárias, com 29,4% das vítimas entre 18 e 29 anos e 15,5% com mais de 50 anos.
A **violência doméstica é o palco principal do feminicídio**, com 66,3% dos crimes ocorrendo dentro da residência da vítima. Esse dado ressalta que o lar, que deveria ser um espaço de segurança, torna-se o local de maior risco para muitas mulheres. Armas brancas, como facas, foram utilizadas em 48,7% dos casos, seguidas por armas de fogo em 25,2% das ocorrências, evidenciando a brutalidade empregada nesses atos.
O feminicídio é, em sua esmagadora maioria, um crime cometido por pessoas próximas. Quase 60% das vítimas foram mortas pelo parceiro íntimo e 21,3% pelo ex-companheiro. A autoria masculina é predominante, com 97,3% dos crimes com autor identificado sendo cometidos por homens. Esses números desconstroem a ideia de violência aleatória, ligando o feminicídio a relações marcadas por controle, posse e desigualdade de poder, como aponta o estudo. O Campo Grande NEWS publicou casos que ilustram essa triste realidade.
Medidas Protetivas: Insuficientes ou Inativas?
Um dos pontos mais críticos abordados pelo relatório é a relação entre feminicídios e as Medidas Protetivas de Urgência (MPU), previstas na Lei Maria da Penha. Em Mato Grosso do Sul, 5,9% das mulheres assassinadas possuíam uma medida protetiva vigente no momento da morte, segundo dados de 2021. Embora esse percentual seja inferior à média nacional de 13,1%, ele demonstra que a proteção formal nem sempre é suficiente para evitar o desfecho fatal.
O caso de Aline Barreto da Silva, de 33 anos, morta em dezembro de 2025 em Ribas do Rio Pardo, ilustra essa falha. Aline possuía medida protetiva contra o ex-companheiro desde abril daquele ano, mas a proteção estava inativa após o casal ter retomado o relacionamento. Ela foi esfaqueada em casa pelo agressor, na presença dos filhos. Este triste episódio, divulgado pelo Campo Grande NEWS, evidencia a complexidade e os desafios na aplicação efetiva das leis de proteção.
Pequenos Municípios e a Vulnerabilidade das Mulheres
O relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública também lança luz sobre a concentração de taxas de feminicídio em municípios de pequeno porte. Cidades com até 50 mil habitantes registraram uma taxa de 1,8 feminicídio por 100 mil mulheres em 2024, um índice quase 30% acima da média nacional. Essa realidade é agravada pela precariedade da estrutura de atendimento a essas mulheres.
A pesquisa aponta que apenas 5% dos municípios pequenos brasileiros contam com Delegacia da Mulher e somente 3% possuem Casa Abrigo. Essa ausência de infraestrutura dificulta o acesso das vítimas à rede de apoio e proteção, comprometendo a chamada “rota crítica” que deveria guiar a mulher desde a denúncia até a garantia de segurança. A falta de estrutura em cidades menores de Mato Grosso do Sul, conforme informações do Campo Grande NEWS, agrava a vulnerabilidade.
Desigualdade Estrutural e a Luta Contínua
A Lei Maria da Penha, que em 2026 completa 20 anos, representou um avanço significativo na legislação brasileira, tornando o feminicídio um crime autônomo com penas mais severas. No entanto, o relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública chama a atenção para os desafios persistentes na sua implementação. A desigualdade estrutural, que se reflete nas relações de poder e controle, continua sendo um motor fundamental para a violência contra a mulher.
A luta contra o feminicídio em Mato Grosso do Sul e em todo o Brasil exige um esforço contínuo e multifacetado, que vá além da legislação. É preciso fortalecer as redes de apoio, garantir a efetividade das medidas protetivas, investir em políticas de prevenção e educação, e combater as raízes da desigualdade de gênero que perpetuam essa violência. A conscientização e o engajamento da sociedade são cruciais para reverter esse cenário alarmante.

