Análise de especialistas aponta motivações ocultas para ataques ao Irã
Uma nova onda de agressões militares contra o Irã, orquestrada pelos Estados Unidos e Israel, está levantando questionamentos sobre as verdadeiras intenções por trás das ações. Analistas internacionais consultados pela Agência Brasil sugerem que o objetivo vai além da retórica oficial de conter um suposto programa nuclear iraniano. As motivações estariam mais ligadas ao desejo de frear a crescente influência econômica da China na região e de consolidar a hegemonia de Israel no Oriente Médio.
A narrativa de um ataque preventivo, justificado por supostas ambições nucleares do Irã, é posta em xeque por especialistas que apontam para um cenário diplomático que caminhava para um acordo. Conforme o Campo Grande NEWS checou, informações recentes indicavam que o Irã estaria próximo de aceitar limites significativos em seu programa nuclear, o que torna a escalada militar ainda mais intrigante.
Essa análise, que descontrói o discurso oficial, sugere uma estratégia mais ampla dos EUA e de Israel. A ideia seria enfraquecer o Irã, possivelmente com o intuito de instalar um governo mais alinhado aos seus interesses, e, simultaneamente, neutralizar um contraponto à supremacia israelense na volátil região do Oriente Médio. O contexto político interno de Israel, com eleições se aproximando, também é apontado como um fator que pode influenciar essas decisões.
Avanço diplomático frustrado
A professora Rashmi Singh, da PUC Minas, destacou que o avanço nas negociações diplomáticas, mediadas por Omã, foi um fator crucial para questionar a justificativa dos ataques. O ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr bin Hamad Albusaidi, revelou que o Irã havia concordado em não manter estoques de urânio enriquecido, material essencial para a fabricação de armas nucleares. Essa informação contrasta diretamente com o discurso de iminente perigo nuclear.
“Os EUA e Israel entraram em guerra quando um avanço diplomático e a paz estavam ao alcance”, afirmou Singh. Segundo ela, a percepção de que o Irã estaria enfraquecido teria levado Washington e Tel Aviv a ver uma “oportunidade estratégica” para intervir e promover uma mudança de regime no país persa, instalando um governo “fantoche” e eliminando um obstáculo à hegemonia israelense.
Singh também ressaltou o contexto eleitoral de Benjamin Netanyahu em Israel. “Netanyahu enfrenta eleições gerais ainda este ano e tentará usar o Irã para fortalecer sua posição política”, explicou, comparando a situação com ações anteriores em Gaza, onde, segundo ela, Netanyahu utilizou conflitos para se manter no poder e escapar da justiça.
Contenção da China e disputa de poder
Robson Valdez, professor do IDP, argumenta que a explicação dos ataques pela “contenção nuclear” é improvável. Para ele, o cerne da questão reside na disputa pelo poder no Oriente Médio e na tentativa de Israel e EUA de conter a influência regional do Irã. Um dos pontos centrais dessa disputa é a influência da China, que depende do petróleo iraniano transportado pelo Estreito de Ormuz.
“O conflito combina essa contenção estratégica em relação ao Irã, e também a eterna e tradicional rivalidade regional envolvendo Israel, Turquia, Irã e Arábia Saudita, e, mais recentemente, também os Emirados Árabes Unidos”, ponderou Valdez. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a disputa por influência na região envolve diversos atores com interesses complexos.
Ali Ramos, cientista político e especialista em geopolítica, acrescenta que o Irã é um pilar fundamental no projeto geoeconômico chinês. A queda do governo iraniano, segundo ele, poderia reativar o fluxo de armas para grupos que lutam contra Pequim, como o Partido Islâmico do Turquestão Oriental, prejudicando os interesses chineses na Ásia Central.
Projeto de hegemonia israelense
Mohammed Nadir, professor da UFABC, descarta a justificativa oficial de “ameaça nuclear” e vê a ação como uma tentativa de impedir o surgimento de qualquer potência regional que possa desafiar a hegemonia de Israel. “Esta guerra não é uma guerra americana, mas é uma guerra de Benjamin Netanyahu e, por extensão, de Israel”, declarou.
Nadir relembra o precedente da invasão do Iraque em 2003, justificada pela existência de “armas de destruição em massa” que nunca foram encontradas. Essa comparação lança uma sombra de dúvida sobre as justificativas atuais para a agressão contra o Irã. O Campo Grande NEWS acompanha de perto as análises sobre a política externa dos EUA na região.
Imperialismo e a busca por supremacia global
Roberto Goulart Menezes, da UnB, aponta que o programa nuclear iraniano tem sido usado como pretexto pelos EUA há décadas. Ele destaca que o Irã é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear e está aberto a inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica.
Menezes argumenta que os EUA buscam redesenhar o mapa geopolítico do Oriente Médio, aplicando uma política “imperialista e agressiva”, conforme descrito pelo sociólogo Raphael Seabra. Essa política visa subordinar países periféricos aos interesses de potências centrais através de seu poder econômico, político e militar.
O Irã, sendo o quinto maior produtor de petróleo do mundo e detentor de vastas reservas de hidrocarbonetos, representa um ponto estratégico na disputa global pela supremacia econômica, especialmente na “guerra comercial” entre Washington e Pequim. A tentativa de retirar o Irã da rota econômica e comercial construída pela China e Rússia na Eurásia é vista como um movimento chave nessa disputa.


