Prefeitura de Campo Grande deve R$ 82 milhões a fornecedores em 2025

A Prefeitura de Campo Grande encerrou o ano de 2025 com uma dívida expressiva de R$ 82,3 milhões junto a seus fornecedores. Deste montante, uma parte significativa, correspondente a R$ 23,2 milhões, refere-se a recursos que foram empenhados – ou seja, reservados para pagamento – mas que não puderam ser quitados por falta de disponibilidade financeira em caixa. Os dados alarmantes foram divulgados em um relatório apresentado durante uma audiência pública na Câmara de Vereadores, focada na crise da saúde pública no município.

A audiência, intitulada “Crise na saúde pública de Campo Grande: responsabilidades, colapso assistencial e a necessidade de medidas extraordinárias de intervenção estadual ou federal”, serviu como palco para a exposição das dificuldades financeiras que afetam a gestão municipal. A situação compromete o fornecimento de insumos essenciais, especialmente para a área da saúde, gerando preocupação entre os prestadores de serviço e a população.

Um dos casos de inadimplência que ganhou destaque é o da empresa Java Med Materiais Hospitalares. Conforme relatos na audiência e informações divulgadas pelo Campo Grande NEWS, a prefeitura deve à empresa cerca de R$ 531,8 mil por insumos hospitalares que já foram entregues. A falta de pagamento tem levado a empresa a considerar a não renovação de contratos, alegando inviabilidade financeira para continuar os fornecimentos nas condições pactuadas.

Java Med aponta inviabilidade financeira e fim de contrato

Alex Tognasini, proprietário da Java Med, expressou a dificuldade em manter o fornecimento sem receber os pagamentos devidos. Ele explicou que a empresa fornece desde fraldas geriátricas até agulhas, fios de sutura e outros materiais essenciais para exames e procedimentos médicos. A inadimplência reiterada, segundo Tognasini, comprometeu severamente o fluxo de caixa da empresa, gerando um desequilíbrio econômico-financeiro que torna inviável a continuidade do fornecimento. Ele também ressaltou que a defasagem dos valores contratados frente à realidade atual do mercado agrava ainda mais a situação.

O pagamento mais recente da Prefeitura de Campo Grande à Java Med, segundo dados do Portal da Transparência municipal, ocorreu em 16 de outubro de 2025, no valor de R$ 187.676,00. Desde então, apenas empenhos e liquidações foram registrados, indicando que os produtos foram entregues e os recursos separados, mas a quitação efetiva não ocorreu. Tognasini revelou que diversas outras empresas enfrentam situação semelhante, com atrasos em pagamentos de valores ainda maiores, afetando fornecedores de medicamentos e outros insumos hospitalares cruciais.

Secretário de Saúde atribui atrasos a problemas de arrecadação

Em resposta às acusações e preocupações levantadas durante a audiência, o Secretário Municipal de Saúde, Marcelo Vilela, admitiu a existência de “atrasos” nos pagamentos, classificando-os como “normais” em situações de instabilidade econômica. Ele atribuiu os atrasos a problemas de arrecadação e à crise financeira enfrentada pelo município, citando especificamente dificuldades com o IPTU e a arrecadação geral em 2025. Vilela defendeu a prefeitura, afirmando que não são “mau pagadores”, mas que a falta de recursos é o principal entrave.

O relatório detalhado do quadrimestre anterior (3º RDQA/2025) indica que a Prefeitura de Campo Grande empenhou R$ 942,5 milhões em recursos próprios do Tesouro Municipal, dos quais R$ 860,2 milhões foram efetivamente pagos, representando cerca de 91,26% do total. A previsão de despesa com saúde para 2025 era de R$ 973,7 milhões, mas o gasto real ultrapassou a marca de R$ 1 bilhão. A Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), em nota, informou que a Java Med recebeu R$ 859.471,68 ao longo de 2025, com um último pagamento em outubro e nova previsão para os dias seguintes.

Entenda o processo de pagamentos públicos

A Sesau também esclareceu o processo de execução da despesa pública, conforme previsto na Lei nº 4.320/1964. O processo envolve três fases principais: empenho, liquidação e pagamento. O empenho é o primeiro estágio, onde o recurso é reservado para uma despesa específica. A liquidação verifica se o credor adquiriu o direito àquele pagamento, geralmente após a entrega do bem ou prestação do serviço. Por fim, o pagamento é a quitação efetiva da dívida.

O órgão explicou ainda os conceitos de Restos a Pagar Processados (RPP), que são despesas empenhadas e liquidadas, mas não pagas até 31 de dezembro, e os não processados, que são empenhados, mas não liquidados, representando obrigações em andamento. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, não foi informado oficialmente quanto do montante devido em 2025 já foi liquidado ou pago no ano seguinte, deixando uma lacuna de informação sobre a situação atual dos débitos. A situação reflete um desafio financeiro que impacta diretamente a oferta de serviços essenciais à população.

Para mais informações sobre a gestão pública e a situação financeira do município, o Campo Grande NEWS continua acompanhando os desdobramentos e as ações tomadas pela prefeitura diante deste cenário. A falta de pagamento a fornecedores pode gerar um ciclo vicioso, comprometendo a capacidade de prestação de serviços públicos de qualidade.