Duplicação da BR-163 ameaça sustento de 43 famílias em Anhanduí

A iminente duplicação da BR-163, planejada pela concessionária Motiva Pantanal, lança uma sombra de incerteza sobre os 43 comerciantes de Anhanduí, distrito de Campo Grande. Com quase quatro décadas de tradição, as barracas às margens da rodovia representam a principal fonte de sustento para dezenas de famílias, que temem a perda de seu ganha-pão.

Comerciantes buscam proteção contra despejo

A preocupação tomou conta dos moradores e trabalhadores de Anhanduí após a retomada do projeto de duplicação da BR-163. As 43 barracas, que vendem desde pimentas e doces artesanais até salames e queijos, são um ponto de parada tradicional para caminhoneiros e turistas. A possibilidade de serem removidos do local gerou apreensão, levando à discussão de um projeto de lei que propõe o tombamento das estruturas como patrimônio cultural do município.

A audiência pública, realizada na Escola Municipal Isauro Bento Nogueira, reuniu cerca de 150 pessoas, entre barraqueiros, familiares e fornecedores. O encontro foi convocado para debater a proposta do vereador André Salineiro (PL), que visa garantir a permanência da atividade econômica no local, impedindo a retirada sem a apresentação de alternativas viáveis.

A iniciativa de buscar o tombamento surge como uma resposta direta ao temor de que a duplicação da rodovia, um projeto antigo que já foi discutido em 2015 pela então CCR MSVia, agora Motiva Pantanal, possa significar o fim da linha para o negócio local. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, a questão já havia chegado à Câmara Municipal no passado, mas não avançou.

Ameaça antiga retorna com força

O receio dos comerciantes se intensificou com a confirmação da continuidade das obras. Jezreel Lescano, filho de um antigo barraqueiro e idealizador da audiência pública, relatou que representantes da Motiva Pantanal estiveram no distrito em dezembro do ano passado. Eles realizaram um levantamento detalhado sobre a quantidade de barracas, o número de trabalhadores, funcionários e os tipos de produtos comercializados.

Durante essa reunião, foram coletadas informações sobre o tempo de atuação dos comerciantes, o funcionamento do trabalho, a existência de renda alternativa e a possível adaptação caso fossem realocados para uma rua lateral. Segundo os relatos, foi informado que ainda não há uma decisão oficial sobre a retirada das barracas, seja ela temporária ou definitiva.

Rosimeire da Silva, 48 anos, que trabalha há mais de 20 anos vendendo doces, pimentas e embutidos, expressou a angústia de uma incerteza que se arrasta há décadas. “Há mais de 30 anos existe essa ameaça, mas nunca chegaram para nós e disseram oficialmente que vão nos tirar. Se fizerem isso, vão tirar o nosso pão de cada dia, porque aqui não tem indústria, não tem nada onde a gente possa trabalhar”, desabafou.

Tombamento como única saída?

Claudete Soares da Silva, 56 anos, considera que um modelo de realocação como o de camelódromos não se aplicaria a Anhanduí. Ela argumenta que os clientes principais são os motoristas de caminhão e turistas, que não se deslocariam para uma rua lateral. “O ideal é continuar na estrada. Não aceitamos sair, porque não somos feirantes. Vendemos para quem está viajando, de passagem pela estrada”, afirmou.

Pesquisando casos semelhantes pelo país, Claudete constatou que, em muitas situações, comerciantes retirados de margens de rodovias acabaram falindo. Ela ressalta que 100% dos barraqueiros de Anhanduí dependem exclusivamente dessas vendas para o sustento de suas famílias e que o tombamento é visto como a única forma de proteção.

Sebastião Gomes de Souza, 74 anos, professor aposentado e produtor rural local, que fornece produtos como amendoim, feijão de corda e pimenta para os barraqueiros, defende a proposta de tombamento desde o início da atividade. Ele considera que a falta de geração de emprego e infraestrutura no distrito torna a atividade das barracas essencial. “Tem dias em que eles [barraqueiros] fazem R$ 2 mil. Essa lei já era para ter sido feita há 40 anos, quando começaram a ocupar aqui”, declarou.

Motiva Pantanal afirma estar em fase inicial de análise

Em nota oficial, a Motiva Pantanal informou que o tema está em fase inicial de análise interna. A concessionária declarou que está realizando levantamentos e um diagnóstico técnico preliminar, sem que haja qualquer definição ou deliberação até o momento. A empresa ressaltou que não há nenhum processo de realocação em andamento e que o trabalho atual se limita a um estudo para compreender a realidade local.

A concessionária também afirmou que a discussão será conduzida de forma institucional, em conjunto com o Governo do Estado e a Prefeitura de Campo Grande. A Motiva Pantanal reafirmou seu compromisso com a transparência, a segurança viária, o cumprimento do contrato e o respeito à dinâmica da comunidade, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.

A situação dos barraqueiros de Anhanduí reflete a tensão entre o desenvolvimento de infraestrutura e a preservação de atividades econômicas tradicionais. A comunidade espera que o processo de tombamento avance e garanta a continuidade de seu trabalho, como já noticiado pelo Campo Grande NEWS.