Enchente em Campo Grande: casas devastadas e drama de família

Rastro de lama e prejuízos marcam retomada pós-enchente em Campo Grande

Horas após a enxurrada que transformou ruas em rios no Conjunto Residencial Otávio Pécora, em Campo Grande, moradores começaram a limpar casas tomadas por lama e prejuízos. O alagamento, ocorrido no início da tarde de terça-feira (24), voltou a expor a vulnerabilidade da região durante chuvas intensas, causando destruição e deixando famílias ilhadas. Uma mulher e um bebê precisaram ser resgatados pelo Corpo de Bombeiros. O problema é recorrente na área, com nove episódios graves registrados desde 1993. A Secretaria de Infraestrutura reconhece que o sistema de drenagem é antigo e insuficiente. Conforme o Campo Grande NEWS checou, um projeto de R$ 80 milhões para solucionar o problema está em fase de captação de recursos.

Família perde cachorro e bens em meio à devastação

A força da água desceu das ruas mais altas, rompendo muros, forçando portões e deixando moradores em situação de desespero. Marilene de Oliveira, moradora da Rua Jaburu, relatou ter ouvido um forte estrondo pouco antes das 14h. Quando saiu para verificar, a água já invadia a via com um nível superior a um metro, transformando a área em um verdadeiro rio.

“Veio descendo das outras ruas. Empurrou portão, estourou muro do fundo e veio tudo para cá. Aqui ficou um rio dentro da minha casa”, disse Marilene, visivelmente abalada. Durante o pico do alagamento, ela ouviu a vizinha pedir socorro, mas a força da correnteza impedia qualquer ajuda.

O Corpo de Bombeiros foi acionado e realizou o resgate de uma mulher e um bebê que ficaram ilhados. “Eu estava entrando em desespero. Não tinha como abrir o portão”, relatou a vizinha. Segundo ela, a família resgatada perdeu praticamente tudo, incluindo o muro do fundo que já havia cedido em um episódio anterior.

Um novo lar em ruínas: o drama do casal Laura e Onivar

A poucos metros dali, a diarista Laura Auxiliadora de Sousa Leite Caviglione, de 57 anos, encontrou sua casa destruída ao retornar do trabalho. Ela e o marido, Onivar Caviglione, 58, haviam se mudado para o imóvel há apenas três meses.

“Eu estava trabalhando. A vizinha me ligou e avisou do perigo. Quando cheguei, já tinha acabado a enchente e encontrei essa bagunça toda”, contou Laura. O marido, que chegou antes, enfrentou dificuldades para se aproximar da residência devido ao volume de água.

O casal havia investido na casa, arrumando o portão e construindo barreiras, acreditando que o problema de alagamento não voltaria a ocorrer. “Mesmo assim, não teve jeito. Houve essa tragédia”, lamentou Laura.

Perda irreparável: o yorkshire Pirulito e os bens materiais

Além dos danos estruturais, a família de Laura e Onivar sofreu a perda do seu cachorro de estimação, o yorkshire Pirulito, de aproximadamente seis anos. O animal foi arrastado pela correnteza.

“Ele era meu filhinho de quatro patas”, disse Laura, emocionada. O marido encontrou o animal já sem vida após a água ter atravessado terrenos vizinhos e o levado até um bueiro em outra rua.

Os prejuízos materiais também foram significativos. A água e a lama atingiram geladeira, fogão, televisão, máquina de lavar, sofá, cama e outros móveis. “Os poucos bens que a gente tem foram praticamente destruídos”, afirmou Laura.

Sem condições de permanecer no imóvel alugado, o casal buscou abrigo na casa da sogra e agora procura um novo lugar para recomeçar. “Estamos procurando outra casa para começar tudo de novo”, disse Laura.

Um problema antigo e a esperança de solução

Vizinhos relatam que o problema de alagamento é antigo no Otávio Pécora, afetando diferentes ruas a cada chuva forte. A água que desce das partes mais altas se concentra na região mais baixa do bairro.

“A gente não tem o que fazer, nem para onde correr. Tem que conviver com isso”, afirmou uma moradora, que também lamentou o impacto na valorização dos imóveis. “Até para alugar é difícil. Para vender casa aqui, então, é muita sorte. Todo mundo já conhece a fama do alagamento”, completou.

Moradores cobram uma solução definitiva para a drenagem da região, temendo que novos temporais repitam a cena de destruição. O problema, que já causou nove episódios de alagamentos severos desde 1993, arrasta-se há mais de três décadas.

Em busca de soluções, moradores se reuniram com vereadores e representantes da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep). Foram apresentadas propostas de curto prazo, como a construção de barreiras, e medidas definitivas, incluindo o redimensionamento da rede de águas pluviais.

A resposta da prefeitura e o projeto de R$ 80 milhões

Em nota, a Sisep informou que o sistema de drenagem da região é antigo e não comporta o volume de água das chuvas concentradas. A secretaria reconhece que os alagamentos ocorrem durante chuvas intensas, e que, por ser uma área antiga da cidade, o sistema de drenagem não consegue absorver toda a água com rapidez suficiente.

Entre as medidas apontadas pelo município está o projeto de drenagem e pavimentação da Rua Corguinho, além da construção de barragens para retenção de água. Conforme a prefeitura, o projeto está orçado em R$ 80 milhões e encontra-se em fase de captação de recursos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a Sisep vem atuando na manutenção do sistema, com limpeza de bocas de lobo, serviço que deverá ser executado novamente.

A situação no Conjunto Residencial Otávio Pécora evidencia a necessidade urgente de investimentos em infraestrutura para garantir a segurança e o bem-estar dos moradores, que há décadas convivem com os transtornos causados pelas fortes chuvas. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando o desenvolvimento das ações para solucionar este grave problema.