A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de manter a taxa Selic em 15% ao ano, anunciada nesta quarta-feira (28), gerou forte repercussão negativa entre representantes da indústria, da construção civil e de entidades sindicais. As categorias apontam que o atual patamar dos juros impõe um custo elevado à economia, desconsidera a recente desaceleração da inflação e, consequentemente, impacta o crescimento econômico, o acesso ao crédito e o nível de emprego no país.
Indústria e construção civil criticam Selic em 15%
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) foi uma das primeiras a se manifestar, avaliando que a taxa Selic em 15% ao ano prejudica o ambiente de negócios. Para o presidente da entidade, Ricardo Alban, o Banco Central deveria ter iniciado um ciclo de flexibilização monetária, reduzindo os juros já na próxima reunião do Copom.
“Ao manter a Selic em nível insustentável, o Copom prejudica a economia e aprofunda a desaceleração do crescimento. É indispensável iniciar a redução dos juros já na próxima reunião”, afirmou Alban em nota oficial. A CNI ressalta que a inflação corrente e as expectativas inflacionárias estão convergindo para o centro da meta, com o IPCA fechando 2025 em 4,26%, abaixo do teto de 4,5%. Projeções indicam inflação de 4% em 2026, com gradual convergência para 3% nos anos seguintes.
Apesar desse cenário, a taxa real de juros no Brasil permanece elevada, em torno de 10,5% ao ano, significativamente acima da taxa neutra estimada pelo próprio Banco Central. Essa disparidade, segundo a CNI, cria um obstáculo ao investimento e à expansão produtiva.
O setor da construção civil também manifestou preocupação. O presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Renato Correia, destacou que os juros altos restringem o crédito imobiliário, diminuem a demanda por novos empreendimentos e dificultam a viabilização de projetos. “Uma política monetária contracionista desacelera a atividade e afeta toda a cadeia produtiva, com reflexos prolongados sobre emprego e renda”, alertou Correia.
Em um tom mais moderado, a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) atribuiu a decisão do Copom à cautela diante de incertezas fiscais e externas. O economista Ulisses Ruiz de Gamboa, da ACSP, ressaltou que, embora a atividade econômica esteja desacelerando, a inflação e suas expectativas ainda se mantêm acima da meta. Ele aguarda o comunicado oficial do Copom para verificar se há sinalização de início do ciclo de cortes de juros.
Centrais sindicais reagem com dureza
As centrais sindicais reagiram de forma ainda mais contundente à manutenção da Selic. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) criticou a decisão, afirmando que ela mantém o Brasil no topo do ranking mundial de juros reais e penaliza a população. “Juros altos encarecem o crédito, reduzem o consumo e resultam em menos empregos”, declarou Juvandia Moreira, presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT).
A CUT também apontou que cada ponto percentual de aumento na Selic adiciona cerca de R$ 50 bilhões aos gastos públicos com juros da dívida. Essa informação, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, evidencia o alto custo fiscal da política monetária restritiva.
A Força Sindical classificou a decisão como “irresponsabilidade social” e acusou o Banco Central de favorecer a especulação financeira em detrimento do setor produtivo. Miguel Torres, presidente da entidade, argumentou que a política monetária atual restringe o crédito, eleva o endividamento das famílias e trava o desenvolvimento econômico do país. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essas críticas refletem a insatisfação de setores que demandam um ambiente de crédito mais acessível para impulsionar a atividade econômica.
Apesar das críticas generalizadas, o Copom manteve a Selic em 15% ao ano pela quinta vez consecutiva. Essa taxa representa o maior nível desde 2006. A decisão estava em linha com a expectativa da maioria dos analistas de mercado, que consideram o cenário de inflação ainda acima da meta, incertezas fiscais e riscos externos como fatores que justificam a cautela do Banco Central. O Campo Grande NEWS continua acompanhando os desdobramentos dessa decisão para a economia brasileira.


