Cinelândia: Protesto no Rio contra “sequestro” de Maduro por EUA e acusações de Trump

Cinelândia se torna palco de protesto contra ação dos EUA na Venezuela; opiniões divididas marcam debate sobre futuro do país

A tradicional Praça da Cinelândia, no Rio de Janeiro, foi palco de um protesto nesta segunda-feira contra o que manifestantes descreveram como o “sequestro” do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores. A ação, articulada pela Frente de Esquerda Anti-imperialista em Solidariedade à Venezuela, reuniu centenas de pessoas em repúdio à intervenção militar dos Estados Unidos na capital Caracas.

A manifestação surge após o anúncio do presidente norte-americano Donald Trump, que acusou Maduro de narcoterrorismo e anunciou sua detenção. Maduro, em audiência em Nova York, declarou-se inocente e prisioneiro de guerra, enquanto Trump afirmou que sua intenção é trazer as “grandes empresas petrolíferas dos Estados Unidos” para a Venezuela.

O evento na Cinelândia trouxe à tona diferentes perspectivas sobre a crise venezuelana, inclusive entre a comunidade de imigrantes no Brasil. A Agência Brasil esteve presente e ouviu relatos que refletem a complexidade da situação política e social em ambos os países, conforme divulgado pela Agência Brasil.

Venezuelanos no Brasil expressam indignação e esperança

O estudante de mestrado Ali Alvarez, 31 anos, que reside no Brasil há oito anos, demonstrou surpresa e indignação com a ação dos Estados Unidos. Ele considera a iniciativa uma “violência ao povo venezuelano e à nossa Constituição Bolivariana”, ressaltando que não esperava que tal evento ocorresse.

O músico Alexis Graterol, 49 anos, há duas décadas no Brasil, compartilha da angústia de Alvarez e refuta as acusações contra Maduro, afirmando que o objetivo de Trump é, na verdade, “se apoderar de recursos naturais da Venezuela”.

Divisão de opiniões sobre a intervenção americana

Em contrapartida, o psicólogo venezuelano Marco Mendoza, 38 anos, que mora no Chile e estava de passagem pelo Rio, manifestou uma opinião divergente. Ele se declarou “de acordo” com a intervenção dos EUA, citando que a Venezuela já sofria “intervenções da China, Rússia, Cuba e até do Hezbollah”.

Mendoza expressou preferência por “25 anos pagando débito externo aos Estados Unidos do que ficar 25 mais anos com Maduro”, indicando um profundo descontentamento com o atual governo venezuelano.

Temores de colonização e apelo por soberania

O cineasta colombiano Raúl Vidales, 45 anos, presente no ato, expressou receio de que os Estados Unidos possam voltar sua atenção para seu país, que abriga diversas bases militares americanas. Ele clamou por uma “resistência cidadã forte por nossa soberania” diante do que chamou de “fascismo”.

Daniel Iliescu, presidente estadual do PCdoB, ecoou a preocupação com o enfraquecimento do multilateralismo e o exercício unilateral da força. Ele avalia que a atitude de Trump “confirma a decadência contra a qual os Estados Unidos lutam”, resultando em uma postura “mais beligerante e mais agressiva”.

Venezuelanos: o maior grupo de imigrantes no Brasil

De acordo com o IBGE, os venezuelanos representam o maior grupo de imigrantes no Brasil, com cerca de 200 mil cidadãos, de um total de 1 milhão de estrangeiros. O Subcomitê Federal para Acolhimento e Interiorização de Imigrantes informa que mais de 115 mil venezuelanos receberam apoio do Estado brasileiro para regularizar sua situação e fixar residência entre abril de 2018 e novembro de 2025.

Desse total, 3.290 venezuelanos se estabeleceram no Rio de Janeiro, demonstrando o impacto da imigração venezuelana no cenário social e econômico brasileiro.