O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) denunciou 23 pessoas por participação em uma complexa organização criminosa. O grupo é acusado de desviar drogas apreendidas pela Polícia Civil para, em seguida, revendê-las a traficantes. Entre os denunciados estão a mãe, duas irmãs e a companheira de Lucas da Silva dos Santos, conhecido como LK, apontado como um dos principais articuladores do esquema. As mulheres integravam o núcleo financeiro, movimentando mais de R$ 1,3 milhão em poucos meses. A investigação, batizada de Operação Infiltrados, pede ainda uma indenização de R$ 10 milhões e a perda dos cargos dos policiais envolvidos.
Cinco mulheres no centro do esquema financeiro
A estrutura criminosa, conforme detalhado na denúncia do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), envolvia uma divisão clara de funções. Enquanto policiais civis, incluindo um delegado, teriam utilizado suas posições para subtrair drogas das apreensões, outros membros atuavam na identificação de carregamentos, negociação com traficantes e na distribuição dos entorpecentes desviados. Lucas, o LK, atuava como peça central, conectando esses grupos, organizando pagamentos e repassando informações sobre operações policiais.
O núcleo financeiro, responsável por dar aparência de legalidade aos lucros do tráfico, contava com a participação ativa de cinco mulheres. Valdenice da Silva Gois, mãe de LK, Ana Carolina da Silva dos Santos e Jéssica da Silva dos Santos, irmãs dele, e Rayane Luiz Vieira, sua companheira, foram identificadas como peças-chave. A quinta mulher denunciada é Lavinia Carvalho da Luz, que, embora seu vínculo familiar com LK não tenha sido detalhado, também participou ativamente das movimentações bancárias.
Essas mulheres, juntamente com Matheus Gabriel Machado Bezerra e Wesley Benites Matos Pereira Duarte, operavam sob o comando direto de Lucas. O objetivo era receber, transferir e distribuir os valores obtidos com a venda das drogas desviadas. A utilização de diversas contas bancárias visava ocultar a origem ilícita do dinheiro e dificultar o rastreamento pelos investigadores. O Gaeco sustenta que todos os participantes desse núcleo recebiam vantagens financeiras pela colaboração.
Dinheiro em família: R$ 1,3 milhão em transferências
A investigação financeira revelou movimentações expressivas. Entre maio e outubro de 2024, período que coincide com a negociação de um grande carregamento de cocaína apreendido pela Polícia Civil, Lavinia Carvalho da Luz transferiu R$ 1.318.295,92 para contas de LK e de uma empresa ligada a ele, a L R Obras e Construções. Foram identificadas 21 transferências nesse período.
Em sentido contrário, contas ligadas a Lucas e à empresa transferiram R$ 238.473,96 para Lavinia em 44 operações bancárias. Rayane, companheira de LK, também figura em transações significativas com Lavinia, totalizando R$ 314.308,40 em movimentações nos dois sentidos, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.
Policial Civil acusado de desviar drogas apreendidas
Um dos episódios centrais da denúncia envolve o desvio de 30 quilos de pasta-base de cocaína. A droga foi apreendida em novembro de 2022 pela Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar). Segundo o MPMS, parte desse carregamento foi oferecida a uma organização criminosa ligada aos irmãos Edimilson Santos Pereira e Itamar dos Santos Pereira, identificados como compradores de drogas desviadas por policiais. O valor negociado para essa apreensão específica teria sido de R$ 116 mil.
O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa está entre os policiais civis denunciados. A acusação é de que ele e outros agentes teriam se valido de suas funções para subtrair drogas das apreensões realizadas durante operações. A atuação desses policiais era fundamental para o esquema, permitindo que os entorpecentes apreendidos retornassem ao mercado ilegal.
Operação Infiltrados: Denúncia e Pedidos do MPMS
A Operação Infiltrados, deflagrada em setembro deste ano, é fruto de investigações anteriores, como as operações Traquetos e Blindspot. O Gaeco estima que o esquema criminoso funcionou pelo menos entre 2021 e 2026, com a participação de policiais civis, militares, um policial penal e membros de facções ligadas ao tráfico. A denúncia foi apresentada à Justiça em 9 de outubro.
Além da responsabilização criminal dos 23 denunciados, o Ministério Público requereu uma indenização de R$ 10 milhões por danos morais coletivos. Outro pedido importante é a perda dos cargos públicos de todos os agentes acusados de envolvimento no esquema, o que reforça o compromisso com a ética e a legalidade nas instituições públicas. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a defesa do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa afirma que ele provará sua inocência. A reportagem buscou contato com as demais defesas, mas ainda não obteve retorno. O espaço para manifestação permanece aberto, ressaltando a importância da ampla defesa no processo judicial.
A investigação detalhada pelo Campo Grande NEWS demonstra a profundidade do esquema, que envolvia não apenas o desvio de drogas, mas também uma sofisticada operação financeira para lavar o dinheiro obtido com o crime. A participação de familiares do traficante LK no núcleo financeiro evidencia a forma como essas organizações buscam consolidar suas operações, utilizando laços de confiança para gerenciar os lucros ilícitos.

