O mês de novembro, dedicado à luta contra a violência à mulher, traz à tona um cenário preocupante no Brasil: o aumento expressivo das agressões de cunho político contra mulheres. Tanto organizações sociais quanto fontes governamentais têm registrado um crescimento alarmante nesses ataques, que visam silenciar e desestimular a participação feminina na vida pública.
Violência política de gênero atinge patamares críticos
Dados recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam um aumento de 11 vezes no número de processos relacionados a agressões políticas de gênero entre 2022 e 2026, saltando de 15 para 177 casos. Essa escalada coincide com o período eleitoral, onde a violência se manifesta de diversas formas, desde ataques verbais e morais até ameaças graves à integridade física e sexual.
Uma pesquisa divulgada pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global aponta que, apenas durante a campanha eleitoral até o primeiro turno das eleições de 2026, foram contabilizados 134 casos de violência política. Isso representa um ataque a cada nove horas, sendo que 70 deles tiveram mulheres como vítimas diretas, o que corresponde a 52,2% do total.
O levantamento também detalha que, dos 102 episódios dirigidos especificamente a candidatas, 60 tiveram mulheres como alvo, representando 58,8%. Apesar de comporem cerca de um terço das candidaturas totais, as mulheres foram as principais vítimas em mais da metade dos incidentes de violência política.
Mulheres pretas e pardas são as mais afetadas
A Central de Atendimento à Mulher, o Disque 180, registrou um número expressivo de denúncias de violência política contra mulheres entre janeiro e agosto de 2026, totalizando 1.564. A análise desses dados revela uma triste realidade: mulheres pretas e pardas são as mais vulneráveis. Mais de 53% das denúncias (842) foram feitas por elas, seguidas por 590 casos de mulheres brancas (37,72%). As demais 132 denúncias (8,44%) envolveram mulheres de outras raças.
Em setembro, organizações da sociedade civil apresentaram ao TSE um documento com diversas denúncias de agressões contra candidatas nas eleições de 2026. Os relatos incluem violência física, verbal, além de ataques e ameaças de morte e estupro, evidenciando a gravidade da situação.
Caso Ana Elisa: Ameaças e exposição de dados pessoais
Um exemplo concreto da violência política enfrentada no Brasil é o caso da deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG). Ela denunciou à Polícia Civil ter recebido ameaças de morte e de violência sexual durante o período de campanha. As mensagens continham ataques machistas, racistas e ameaças de estupro, além da exposição de seus dados pessoais, como endereço, telefone e documentos.
Devido à gravidade das ameaças, o partido da parlamentar providenciou segurança armada para protegê-la. Ana Elisa obteve 524.219 votos para deputada federal em 2026, tornando-se a segunda mais votada em Minas Gerais, além de ser a mulher mais votada na história do estado para a Câmara dos Deputados e a deputada federal mais jovem eleita no Brasil.
Misoginia estrutural e violência política
Sandra Kennedy, secretária Nacional de Articulação Intersetorial e Interfederativa e Participação Política do Ministério das Mulheres, conecta a violência política contra as mulheres a um fenômeno social mais amplo. Ela destaca a exacerbação da misoginia, da violência doméstica e do feminicídio em uma sociedade patriarcal.
“É assustador porque as violências políticas são, no fundo, questões estruturais, sejam elas no limite da ameaça à vida, sejam essas violências cotidianas e veladas que tentam desestimular a participação da mulher na política”, afirma Kennedy, conforme divulgado pelo Ministério das Mulheres.
Outros casos que chocaram o país
A Agência Brasil relembra outros casos emblemáticos onde a violência contra mulheres na política ultrapassou o desestímulo e chegou ao risco iminente à vida. O assassinato da vereadora Marielle Franco em 2018, a importunação sexual sofrida pela deputada Isa Penna em 2020, e os comentários misóginos feitos pelo então deputado Jair Bolsonaro à deputada Maria do Rosário em 2014 são exemplos marcantes.
Mais recentemente, a retirada da escolta armada da deputada federal Talíria Petrone, mesmo sob ameaças, e as interrupções sistemáticas e rotulagem de “nervosas” às falas das senadoras Simone Tebet e Soraya Thronicke durante a CPI da Covid em 2021, também evidenciam a persistência da violência política de gênero.
Canais para denúncia e orientação
Mulheres vítimas de violência política e qualquer pessoa que tenha conhecimento de tais crimes podem realizar denúncias através de diversos canais institucionais. Entre eles, destacam-se a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, que oferece atendimento gratuito e sigiloso 24 horas por dia. Outras opções incluem a Ouvidoria das Mulheres do Conselho Nacional do Ministério Público, a Procuradoria-Geral Eleitoral, a Ouvidoria Nacional da Mulher do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a Polícia Federal e o Grupo de Trabalho Mulheres da Defensoria Pública da União (DPU).
Em casos de emergência, é fundamental acionar a Polícia Militar pelo telefone 190. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a disponibilidade desses canais é crucial para garantir o acolhimento e a proteção das vítimas, além de fomentar a responsabilização dos agressores. A atuação do Campo Grande NEWS na divulgação dessas informações reforça o compromisso com a segurança e os direitos das mulheres. O Campo Grande NEWS reafirma a importância de combater todas as formas de violência, especialmente aquela que silencia vozes e impede a plena participação democrática.


