A Advocacia-Geral da União (AGU) entrou com um pedido no Supremo Tribunal Federal (STF) para que dispositivos das leis que legalizaram as apostas de quota fixa, conhecidas como bets, sejam declarados inconstitucionais. O órgão argumenta que as leis 13.756 de 2018 e 14.790 de 2023 apresentam falhas significativas e não promovem a proteção adequada de direitos fundamentais. A manifestação atende a uma solicitação do ministro Luiz Fux, relator de uma ação movida pela Procuradoria-Geral da República (PGR) em 2024, que já apontava a desproteção dos apostadores.
AGU aponta falhas e malefícios das leis das bets
A AGU apresentou uma série de argumentos detalhados ao STF, destacando os diversos malefícios sociais e econômicos decorrentes da exploração das apostas esportivas e de jogos online. Entre os pontos levantados pelo órgão estão o crescente endividamento de famílias, a vulnerabilidade de crianças e adolescentes, impactos negativos na economia formal e um alarmante aumento nos atendimentos de saúde relacionados ao vício em jogos.
Conforme a manifestação da AGU, houve um **aumento de 140% nos atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS)** para pessoas com transtornos causados pela dependência em jogos. Este dado, segundo o órgão, evidencia a urgência em reavaliar o arcabouço legal que rege o setor.
O órgão defende que o regime normativo das leis em questão é **“extensamente falho”**, pois permitiu uma “liberalidade exploratória” que não é compatível com a proteção de direitos fundamentais de primeira importância. A AGU cita especificamente a dignidade humana, a saúde pública e o mínimo existencial como direitos que estariam sendo negligenciados.
Ação da PGR e a posição da AGU
A ação principal que motivou a manifestação da AGU foi protocolada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) neste ano. A PGR já havia apontado em sua ação que as leis aprovadas para regulamentar as apostas, incluindo a chamada Lei das Bets de 2023, não oferecem salvaguardas suficientes para os apostadores. A lei de 2018 foi a responsável por instituir a modalidade de apostas online no país, enquanto a norma de 2023 detalhou e regulamentou essa atividade.
A AGU, ao se manifestar no processo, reforça os argumentos da PGR e adiciona sua própria análise sobre os impactos negativos. A atuação conjunta dos órgãos demonstra uma preocupação crescente do governo federal com as consequências sociais e de saúde pública associadas ao mercado de apostas esportivas e jogos online.
Outras ações e o futuro das bets
Paralelamente à ação movida pela PGR e à manifestação da AGU, tramita no STF um outro processo relevante para o futuro das apostas. Neste caso, a própria indústria de apostas, representada pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), busca a **derrubada de uma medida provisória recente que proibiu a exploração e a publicidade de jogos online.**
Essa medida provisória estabeleceu um prazo, até o dia 5 de outubro, para que as plataformas paguem os saldos remanescentes aos apostadores. A partir do dia 6 de outubro, os sites e aplicativos de apostas deverão ser completamente bloqueados. A indústria de apostas contesta essa proibição, defendendo a retomada das suas operações e publicidade.
O desfecho dessas ações no STF terá um impacto significativo no futuro do mercado de apostas no Brasil, definindo se as leis atuais serão mantidas, alteradas ou declaradas inconstitucionais, e como a regulamentação e fiscalização desse setor serão conduzidas. A posição da AGU, reforçando a inconstitucionalidade das leis, adiciona um peso considerável ao debate no Supremo Tribunal Federal.
Em suma, a AGU busca, através de sua intervenção no STF, **garantir que a legislação sobre apostas de quota fixa esteja alinhada com os princípios constitucionais**, protegendo os cidadãos e a sociedade dos riscos associados ao jogo. A decisão da Corte será crucial para moldar o cenário regulatório e operacional das bets no país.


