Saneamento: Apenas 20% dos candidatos a governos estaduais têm planos completos

Apenas 13 dos 62 principais candidatos a governos estaduais em todo o Brasil apresentaram planos de governo considerados abrangentes para a área de saneamento básico. A constatação é de um levantamento realizado pelo Instituto Trata Brasil, que analisou as propostas dos candidatos com maior probabilidade de serem eleitos ou disputarem o segundo turno. A pesquisa, divulgada entre 22 de agosto e 4 de setembro, aponta uma carência de compromissos claros e metas objetivas na maioria das candidaturas, o que pode comprometer o avanço da universalização dos serviços de água e esgoto no país.

O Instituto Trata Brasil, reconhecida organização dedicada à conscientização sobre a importância do saneamento, avaliou os planos de governo sob quatro eixos fundamentais: planejamento, regionalização e coordenação para a universalização; viabilização de investimentos e superação de gargalos; governança e regulação do saneamento básico; e metas tangíveis. Cada candidato recebeu uma classificação baseada no número de eixos abordados em suas propostas, variando de ‘ausente’ a ‘abrangente’.

A análise revelou que todos os 62 candidatos mencionaram o saneamento em seus planos, mas a profundidade e a abrangência variaram consideravelmente. Cinco propostas foram classificadas como superficiais, abordando apenas um eixo. Quarenta e quatro planos foram considerados transversais, divididos entre aqueles que desenvolveram dois eixos (15 propostas) e três eixos (29 propostas). Apenas 13 candidaturas se destacaram por incluir os quatro eixos analisados, demonstrando um compromisso mais estruturado com a pauta.

Metas ausentes em propostas de universalização

Apesar de 87% dos candidatos citarem a universalização do saneamento como tema em seus planos, a presença de metas claras e mensuráveis foi significativamente menor. Apenas 26% das propostas incluíram metas tangíveis, um dado preocupante, segundo Luana Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil. Essa discrepância levanta questionamentos sobre a efetiva intenção de cumprir os objetivos propostos.

“Oitenta e sete porcento dos candidatos falam de universalização, só que apenas 26% colocam metas. Então, eu falo de universalização, mas eu não me comprometo com meta. E isso é um problema”, avalia Luana Pretto. A falta de metas objetivas dificulta o acompanhamento do progresso e a responsabilização dos futuros gestores. Para o Instituto Trata Brasil, a menção ao saneamento não garante um compromisso estruturado.

A ausência de discussões sobre governança e regulação em muitos planos também foi apontada como uma falha. Luana Pretto destaca a importância de agências reguladoras técnicas, independentes e fortalecidas para fiscalizar a expansão e a eficiência dos serviços de saneamento. Sem esses mecanismos, a garantia de serviços de qualidade para a população fica comprometida.

Estados com piores indicadores ainda ignoram o saneamento

Um dos pontos mais alarmantes da pesquisa é que estados com indicadores de saneamento básico extremamente precários, como Acre, Maranhão e Amazonas, apresentaram candidatos que praticamente não mencionaram o tema em suas propostas. Essa omissão em regiões onde a necessidade é mais urgente é vista como um risco para o cumprimento das metas nacionais.

“O que seria o ideal é que, em estados onde a gente tem um indicador muito ruim de saneamento, a gente deveria ter os candidatos comprometidos com o tema, porque faltam sete anos para universalizar o saneamento e, se ele não se comprometer agora, coloca em risco o atingimento dessa meta”, completa Luana Pretto. A especialista reforça que o saneamento básico é fundamental para a saúde pública, o meio ambiente e o desenvolvimento socioeconômico.

O levantamento do Instituto Trata Brasil também detalhou a frequência com que outros temas relacionados ao saneamento apareceram nos planos. Drenagem foi mencionada por 76% dos candidatos, saneamento rural por 66%, investimentos por 58%, regionalização por 45%, atenção à população vulnerável por 35%, regulação por 32%, metas tangíveis por 26% e governança de dados por 24%. Conforme o Campo Grande NEWS checou, esses dados indicam que, embora alguns aspectos sejam mais abordados, a visão integrada e a definição de metas claras ainda são um desafio significativo.

O Campo Grande NEWS reforça a importância de acompanhar as propostas dos candidatos e cobrar o cumprimento de compromissos relacionados ao saneamento básico. Uma gestão comprometida com a universalização dos serviços de água e esgoto é essencial para garantir qualidade de vida e saúde para todos os cidadãos. A falta de planos abrangentes e metas claras, como aponta o Instituto Trata Brasil, pode atrasar o progresso e perpetuar desigualdades regionais no acesso a serviços essenciais. A temática, segundo o Campo Grande NEWS apurou, precisa ganhar mais espaço e profundidade no debate público.