Eucalipto impulsiona etanol de milho em MS: entenda a nova dinâmica

A expansão do etanol de milho no Centro-Oeste brasileiro está redefinindo o cenário energético e abrindo novas frentes de negócio para o agronegócio. Em Mato Grosso do Sul, essa movimentação se apoia em uma cadeia florestal já robusta, impulsionada pela produção de eucalipto para a indústria de celulose. Essa sinergia cria um ciclo virtuoso onde a biomassa, proveniente do eucalipto, se torna um insumo crucial para as usinas de etanol de milho, que, diferentemente das de cana-de-açúcar, necessitam de fontes externas de energia para suas operações. O Campo Grande NEWS checou que essa nova demanda traz consigo desafios logísticos e de custo, que serão determinantes para a competitividade dos projetos.

Eucalipto e Etanol de Milho: Uma Parceria Estratégica

A crescente produção de etanol a partir do milho no Centro-Oeste brasileiro tem impulsionado a busca por fontes de biomassa para suprir a demanda energética das usinas. Ao contrário das usinas de cana-de-açúcar, que utilizam o bagaço da própria cana, as unidades de milho dependem de fontes externas. O eucalipto, em forma de cavacos e outros resíduos, surge como uma solução promissora, especialmente em Mato Grosso do Sul, estado que já possui uma vasta área plantada com essa madeira.

Essa interdependência coloca a biomassa como um fator econômico vital para a viabilidade das usinas. A simples disponibilidade de madeira não é suficiente; a localização das florestas, a produtividade, os contratos de fornecimento e, sobretudo, o custo do transporte tornam-se elementos cruciais para garantir que o insumo chegue à indústria de forma competitiva. Conforme aponta o analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes, é fundamental acompanhar de perto a oferta de biomassa por região.

“O crescimento da indústria de etanol de milho amplia a demanda por biomassa e cria uma nova variável econômica para o setor. Não basta olhar apenas para a quantidade de madeira disponível no Estado. É preciso avaliar onde essa madeira está, qual é o seu custo de produção e transporte e quanto desse estoque poderá efetivamente ser destinado à geração de energia”, explica Gimenes. Essa análise detalhada, conforme o Campo Grande NEWS checou, é essencial para o planejamento estratégico do setor.

Demanda por Biomassa em Expansão

Estudos projetam um crescimento expressivo na capacidade instalada de etanol de milho no Brasil. Uma estimativa da Consultoria Agro do Itaú BBA prevê que a produção nacional possa saltar de 10,9 bilhões de litros em 2025 para 25,3 bilhões de litros em 2030. Para Mato Grosso, um dos principais polos da atividade, a projeção é de um aumento de 6,9 bilhões para 11,9 bilhões de litros no mesmo período.

O levantamento indica que seriam necessários aproximadamente 383 mil hectares de eucalipto para atender à demanda energética projetada para Mato Grosso em 2030, considerando apenas essa fonte de biomassa. Atualmente, o estado possui cerca de 165 mil hectares de eucalipto, o que sugere um potencial de expansão de até 218 mil hectares, caso toda a demanda seja suprida por essa matéria-prima. Embora este cenário seja para Mato Grosso, ele serve como referência para dimensionar o impacto da expansão do etanol de milho no mercado de madeira.

Mato Grosso do Sul: Vantagem da Cadeia Florestal

Mato Grosso do Sul apresenta um cenário distinto, com uma cadeia florestal já consolidada há mais de uma década, focada principalmente no abastecimento da indústria de celulose. Dados da Aprosoja/MS indicam que, na safra 2025/2026, o estado deverá contar com cerca de 1,985 milhão de hectares de eucalipto. Essa área tem crescido consistentemente, acompanhando a expansão da indústria de base florestal.

A concentração de fábricas de celulose em regiões como Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo contribuiu para a formação de uma estrutura completa, que abrange desde a produção de mudas até o fornecimento da madeira. Essa infraestrutura representa uma vantagem inicial significativa para o suprimento das novas usinas de etanol de milho. No entanto, como o Campo Grande NEWS checou, a oferta não é uniforme em todo o território estadual.

“Mato Grosso do Sul possui uma estrutura florestal que reduz o desafio inicial de abastecimento, mas isso não significa que a oferta seja ilimitada. A expansão das usinas pode aumentar a competição pela biomassa e, principalmente, alterar o preço do insumo em determinadas regiões”, alerta Raphael Gimenes.

Logística e Custo: Fatores Determinantes

A localização das florestas em relação às usinas é um fator crítico na formação do custo da biomassa. O transporte, ou frete, representa uma parcela significativa do custo final do insumo, e quanto maior a distância entre a fonte de madeira e a indústria, maior será o impacto no preço. Por isso, a escolha da localização das novas usinas em relação aos polos florestais pode influenciar diretamente a competitividade dos projetos.

“Em biomassa, a localização é fundamental. Uma floresta pode estar disponível no Estado, mas, se estiver distante da usina, o custo do transporte pode reduzir ou até eliminar a vantagem econômica desse fornecimento”, explica o analista. A análise da Aprosoja/MS sugere que municípios próximos aos corredores florestais e industriais terão uma dinâmica de preços diferente de regiões mais afastadas, demandando uma análise micro-regionalizada do mercado de madeira.

Etanol de Milho Amplia o Mercado para o Grão

A instalação de novas usinas de etanol de milho não apenas impulsiona o mercado de biomassa, mas também modifica a dinâmica de comercialização do próprio milho. A proximidade de compradores e o aumento da capacidade de processamento do cereal dentro do Estado criam novas oportunidades para os produtores.

Em Mato Grosso do Sul, empresas como a Inpasa já operam unidades em Dourados e Sidrolândia, com a planta de Sidrolândia alcançando uma capacidade anual de 800 milhões de litros de etanol após uma expansão. Além do etanol, essas usinas produzem coprodutos valiosos, como DDGS (grãos secos por destilaria com solúveis), óleo de milho e energia elétrica renovável, que podem ser destinados a outras cadeias produtivas, como a pecuária e a fabricação de rações.

“A transformação do milho dentro do próprio Estado agrega novas possibilidades de comercialização e cria demanda por serviços, logística, energia e outros insumos. Para o produtor, o efeito precisa ser analisado considerando toda a cadeia, e não somente o preço pago pelo grão”, pontua Raphael Gimenes.

Investimentos e Integração de Complexos Agroindustriais

O setor de etanol de milho em Mato Grosso do Sul continua a atrair investimentos significativos. A Atvos, por exemplo, iniciou a construção de sua primeira planta de etanol de milho no estado, integrada à unidade Santa Luzia em Nova Alvorada do Sul. O projeto prevê o processamento de 642 mil toneladas de milho por ano, com capacidade para produzir 273 milhões de litros de etanol, além de DDG e óleo de milho. Este empreendimento representa um investimento superior a R$ 1 bilhão.

A nova estrutura será integrada às operações existentes de cana-de-açúcar, bioeletricidade e biometano da Atvos. Essa integração demonstra como os complexos agroindustriais estão ampliando o aproveitamento de matérias-primas e resíduos de diferentes processos produtivos, otimizando recursos e gerando valor agregado.

Acompanhamento é Essencial para o Futuro

Apesar da robusta base florestal e da consolidada cadeia produtiva, Mato Grosso do Sul ainda não possui um estudo público detalhado que dimensione especificamente um eventual déficit ou superávit de biomassa energética frente à expansão projetada do etanol de milho. Portanto, a relação entre oferta e demanda deverá ser monitorada de perto à medida que novos projetos entrem em operação.

Para a Aprosoja/MS, três fatores serão cruciais nos próximos ciclos: a velocidade de implantação das novas usinas, o comportamento regional dos preços da biomassa e a distância entre as áreas florestais e os centros consumidores. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a informação antecipada é vital para que os produtores tomem decisões estratégicas baseadas na realidade econômica de cada região, considerando os múltiplos impactos da expansão do etanol de milho em diversos mercados, desde o milho e a madeira até terras, arrendamentos e logística.