Campo Grande: ‘Cidade Árvore’ esconde desigualdade e desafios nas periferias

Campo Grande ostenta o título de “Cidade Árvore do Mundo” pela sétima vez, um reconhecimento internacional que celebra sua extensa arborização urbana. No entanto, uma análise mais profunda revela um paradoxo: enquanto a capital sul-mato-grossense se destaca pela quantidade de árvores, os benefícios dessa vegetação não são distribuídos igualmente entre seus habitantes. As periferias, em particular, enfrentam um cenário de escassez, expondo desafios históricos de ocupação e desigualdade socioambiental, conforme aponta uma investigação detalhada do Jornal Midiamax.

A beleza e os benefícios do verde urbano em Campo Grande

A presença de milhares de árvores espalhadas pelas vias urbanas de Campo Grande é um dos principais atrativos da capital, encantando moradores e turistas. Essa extensa cobertura arbórea não só embeleza a paisagem, mas também desempenha um papel crucial na proteção da biodiversidade, servindo como refúgio para aves e animais de pequeno porte. A importância da arborização urbana é reforçada em datas como o Dia da Árvore, celebrado em 21 de setembro, evidenciando seus múltiplos benefícios.

Especialistas ouvidos pelo Jornal Midiamax concordam que a vegetação urbana é um poderoso indutor de qualidade ambiental e de vida. Suas funções ecológicas, estéticas e sociais contribuem para a redução das temperaturas, melhoria da qualidade do ar e criação de espaços mais agradáveis para circulação e lazer.

Um título internacional com ressalvas

Campo Grande possui aproximadamente 175 mil árvores em suas calçadas, além de quatro grandes parques. O título de “Cidade Árvore do Mundo” (Tree Cities of the World), concedido por uma iniciativa conjunta da FAO e da Arbor Day Foundation, avalia rigorosamente a gestão da arborização urbana. Para manter essa certificação, a cidade precisa atender a critérios internacionais que incluem estrutura de gestão, legislação específica, inventário e monitoramento das árvores, investimentos contínuos e programas de conscientização.

A auditora fiscal de Meio Ambiente da Semades, Silvia Rahe, explica que a iniciativa avalia a forma como os municípios gerenciam suas árvores. Projetos como o Via Verde, que planta novas árvores para compensar supressões necessárias para empreendimentos, são exemplos de ações que fortalecem a cultura ambiental na cidade. A diretriz internacional 3-30-300, que visa garantir que cada pessoa veja pelo menos três árvores de casa, viva em área com 30% de cobertura de copa e esteja a no máximo 300 metros de uma área verde, é uma meta para Campo Grande, buscando a distribuição igualitária dos benefícios da arborização.

Arborização e o uso dos espaços públicos: uma relação intrínseca

A presença de árvores em espaços públicos é fundamental para o conforto térmico e o bem-estar. Locais com boa cobertura arbórea oferecem sombra e temperaturas mais amenas, essenciais em cidades quentes como Campo Grande. O geógrafo Julio Botega, professor da UFMS, ilustra essa relação comparando a Orla Morena, com suas árvores de grande porte que proporcionam sombra, à Orla Ferroviária, onde o plantio de palmeiras, meramente estéticas, não oferece o mesmo benefício.

“Não adianta, numa cidade quente como Campo Grande, plantar palmeira, que é uma árvore meramente estética. Se eu não tenho sombra, se eu não tenho abrigo para animais, para aves, se eu não tenho essa árvore colaborando na drenagem, na proteção do solo, ela não é infraestrutura, ela é simplesmente estética”, pontua Botega. Um exemplo positivo citado é a revitalização da Rua 14 de Julho, que conciliou arborização com o uso comercial, planejando árvores de copa mais alta para permitir visibilidade das vitrines sem abrir mão de espécies nativas.

Desigualdade territorial: a sombra da falta de verde nas periferias

Apesar de Campo Grande ter mais de 91% das vias públicas arborizadas, conforme o IBGE, o acesso e a densidade dessas áreas verdes variam drasticamente entre os bairros. As regiões com maior poder aquisitivo concentram maior cobertura vegetal, árvores de maior porte e praças mais estruturadas. Em contraste, bairros mais afastados e de menor renda possuem significativamente menos áreas verdes e volume arbóreo, resultado de ocupações mais rápidas e menos integradas a planos de paisagismo.

A doutora em Geografia Eva Faustino, professora da UEMS, explica que as regiões mais ricas de Campo Grande se beneficiam de investimentos históricos mais robustos em infraestrutura verde. Já as periferias populares sofrem com a falta de planejamento adequado, vias mais estreitas que dificultam o plantio de árvores de grande porte e, em muitos casos, a própria arborização acaba sendo deixada de lado diante de necessidades básicas como asfalto e calçadas.

O conflito entre interesses imobiliários e a preservação ambiental também é um fator. O avanço do mercado imobiliário sobre áreas de nascentes e regiões de preservação, como apontado por Julio Botega, levanta questionamentos sobre a real aplicação do título de “Cidade Árvore”. “Para mim, a arborização virou muito um ativo para o mercado imobiliário, um ativo para ganhar esses títulos internacionais, mas, quando a gente olha para a cidade, para o cidadão, principalmente o de menor renda, esses direitos não chegam a essas pessoas”, lamenta Botega.

A arborização urbana é, sem dúvida, uma infraestrutura essencial para a qualidade de vida, a sustentabilidade e a justiça socioambiental. O acesso igualitário a esses benefícios é um desafio que Campo Grande precisa enfrentar para que o título de “Cidade Árvore” reflita uma realidade para todos os seus cidadãos.