No Brasil, a mobilidade urbana se tornou um obstáculo significativo para a ascensão profissional e a participação social das mulheres. Uma pesquisa recente aponta que **quatro em cada dez mulheres (39%) já deixaram de aceitar uma vaga de emprego ou oportunidade profissional** devido a dificuldades de deslocamento. Os principais entraves identificados são a falta de segurança, os custos elevados com transporte, o tempo excessivo de viagem e a escassez de opções em determinadas regiões, conforme revela o estudo “O Direito de Ir, Vir e Viver”, realizado pela consultoria Indique em parceria com a organização feminista Think Eva e a 99.
Os dados são alarmantes e pintam um cenário onde a liberdade de ir e vir é diretamente comprometida pela infraestrutura e pela segurança pública. Essa realidade não afeta apenas as oportunidades de trabalho, mas também a participação em compromissos profissionais, capacitações e até mesmo a vida social e o bem-estar. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a pesquisa entrevistou 564 mulheres de diferentes idades, classes sociais e regiões do país, evidenciando a amplitude do problema.
A insegurança e a violência despontam como o principal impedimento, sendo citadas por 32% das entrevistadas. A falta de recursos financeiros para arcar com os custos de transporte aparece em segundo lugar (22%), seguida pela precariedade do transporte público (15%) e pela longa distância dos locais de destino (14%). Esses fatores criam um ciclo de restrições que limita o potencial e a qualidade de vida das mulheres brasileiras.
Insegurança limita a vida social e profissional
A sensação de insegurança é tão forte que **87% das mulheres evitam circular por determinados bairros ou regiões da cidade**, e 73% precisam planejar seus horários com extremo cuidado. Para se proteger, 63% já deixaram de usar certos meios de transporte, e 60% optaram por rotas alternativas, mesmo que mais longas, para chegar aos seus destinos. Essa constante necessidade de vigilância e adaptação gera um desgaste físico e emocional considerável.
Um exemplo chocante apresentado na pesquisa ilustra essa dura realidade: uma mulher aprovou em um curso superior na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas **desistiu da graduação por não conseguir chegar ao campus a tempo**. Ela relatou ter parado de usar ônibus após ter sido assaltada diversas vezes, o que a impediu de frequentar as aulas regularmente. Essa história, conforme o Campo Grande NEWS apurou, é apenas uma entre muitas que demonstram como a mobilidade precária e a violência urbana cerceiam os sonhos e as conquistas femininas.
Assédio sexual no transporte público é uma realidade alarmante
Outro dado preocupante é a **alta incidência de assédio sexual** vivenciado pelas mulheres durante seus deslocamentos. O levantamento aponta que 89% das entrevistadas relatam ter sido vítimas de alguma forma de assédio em pelo menos um tipo de veículo. Os ônibus lideram essa triste estatística, com 68,8% dos relatos, seguidos pelos deslocamentos a pé (60,8%) e pelo metrô ou trem (50,2%).
Mesmo opções como bicicletas e motos por aplicativo, que geram menor sensação de vulnerabilidade, não estão imunes, sendo citadas por 6,6% e 4,1% das participantes, respectivamente. Essa onipresença do assédio contribui para o medo e a restrição de movimento, forçando muitas mulheres a evitarem sair, especialmente à noite, onde 69% renunciam a atividades de lazer ou sociais.
Carros por aplicativo: uma solução cara para muitas
Diante desse cenário, **oito em cada dez mulheres (80%) optam por carros por aplicativo** como alternativa. No entanto, essa solução não é acessível para todas, visto que 67% das entrevistadas em periferias e áreas com carência de infraestrutura de transporte relatam que essa opção é mais cara. Essa dependência de serviços mais custosos evidencia a falta de alternativas viáveis e seguras para a maioria.
O estudo também destaca que 68% das entrevistadas não possuem veículo próprio e 52% gastam mais de uma hora por dia em deslocamento. Quase metade (45%) avalia as condições de mobilidade em seus bairros como piores em comparação com o centro da cidade, e 33% classificam o transporte público local como ruim ou péssimo. Esses números, conforme o Campo Grande NEWS verificou, reforçam a desigualdade territorial no acesso à mobilidade.
Renda e responsabilidades familiares moldam o trajeto feminino
A renda é um fator determinante no acesso a diferentes modais de transporte. Mulheres de baixa renda utilizam o ônibus regularmente (80,3%), enquanto entre as de alta renda esse percentual é de 52,1%. Em contrapartida, o carro próprio é usado regularmente por 40,6% das mulheres de alta renda, contra apenas 8,3% das de baixa renda. Essa disparidade reflete as diferentes realidades e possibilidades de escolha.
A pesquisa também aborda o papel das mulheres como cuidadoras, uma atribuição historicamente associada a elas. **54% das entrevistadas afirmam exercer o trabalho de cuidado sozinhas**, o que impacta diretamente suas rotinas de deslocamento. Muitas vezes, o trajeto não se resume a casa-trabalho, mas inclui paradas essenciais para buscar filhos na escola, ir a consultas médicas, farmácias ou fazer compras. Para 43% delas, a organização desses percursos é feita individualmente, e 44% escolhem o meio de transporte com base nessas responsabilidades.
Quando transportam dependentes, como filhos, idosos ou pessoas com deficiência, 53% das mulheres recorrem a carros por aplicativo, evidenciando a necessidade de soluções que ofereçam mais segurança e praticidade para essas tarefas. A pesquisa, realizada entre junho e julho de 2026, abrangeu diversas capitais e cidades brasileiras, coletando dados essenciais para a compreensão dos desafios da mobilidade feminina no país.


