Gaúchos no MS: A saga da costelada e do fandango em terras sul-mato-grossenses

A busca por novas oportunidades e pela “euforia da terra” impulsionou um dos maiores movimentos migratórios do Brasil: a chegada dos gaúchos ao Mato Grosso do Sul. Em 1976, Josceli Pereira, então com 14 anos, deixou o Rio Grande do Sul com a família rumo ao que viria a ser o estado sul-mato-grossense. Essa história se repete em milhares de famílias que trouxeram consigo não apenas a bagagem, mas um rico legado cultural, que hoje se manifesta em celebrações como a Semana Farroupilha e o Dia do Gaúcho, comemorado neste domingo, 20 de setembro.

A “euforia da terra” atraiu gaúchos para o MS

A migração gaúcha para o Mato Grosso do Sul na década de 1970 foi um fenômeno marcante, impulsionado pela promessa de terras férteis e acessíveis. Conforme informação divulgada pelo Campo Grande NEWS, a “gauchada” buscou no estado a oportunidade de prosperar na lavoura, fundando até mesmo cidades como São Gabriel do Oeste. A proximidade geográfica, a apenas 1.200 km da divisa com o Rio Grande do Sul, facilitou o deslocamento e o estabelecimento de novas comunidades.

Josceli Pereira, hoje com 63 anos e secretário do CTG Tropeiros da Querência em Campo Grande, relembra com carinho essa jornada. “Viemos naquela euforia da terra. Vim porque tinha 14 anos e foi uma decisão da família. Aqui, conheci uma gaúcha, casei e os meus dois filhos nasceram em MS, com muito orgulho. Sou sul-mato-grossense documentado, recebi o título de cidadão e ninguém mais me tira daqui. Adoro Mato Grosso do Sul, aqui encontrei a terra certa”, afirma Josceli.

A adaptação e a integração foram marcadas pela forte preservação da identidade cultural. O chimarrão, o churrasco e, especialmente, a costela de fogo de chão, tornaram-se símbolos dessa conexão. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a culinária gaúcha se tornou um ponto de união entre os migrantes e os sul-mato-grossenses, com o preparo da costela em fogo de chão sendo um ritual que demanda horas de dedicação.

A costela de fogo de chão: um elo cultural

A costela de fogo de chão é mais do que um prato, é um símbolo da hospitalidade e da tradição gaúcha. O processo de preparo, que envolve horas de fogo em volta da carne, resulta em um sabor e uma maciez incomparáveis. Essa iguaria, trazida pelos migrantes, foi rapidamente incorporada à cultura local, fortalecendo os laços entre os povos.

“A costela é o principal ponto de ligação dos gaúchos com os sul-mato-grossenses. O gaúcho tem hábito de assar a costela no fogo de chão. São três, quatro horas fazendo o fogo em volta da costela, deixando saborosa e macia”, explica Josceli Pereira.

Semana Farroupilha: um resgate histórico e cultural

A celebração da Semana Farroupilha, que ocorre anualmente em setembro, é um momento de profunda reflexão sobre a história e a identidade gaúcha. A data remete à Guerra dos Farrapos, ou Revolução Farroupilha, ocorrida entre 1835 e 1845, um conflito que marcou a insatisfação do Rio Grande do Sul com a tributação do charque e levou o estado a se separar do Império do Brasil, tornando-se a República Rio-Grandense. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a guerra terminou após quase dez anos com um tratado de paz, reintegrando o Rio Grande do Sul ao Brasil.

“O Rio Grande do Sul voltou a ter paz, foi incorporado novamente ao Brasil e cessou a guerra. Todo esse acontecimento acabou sendo transformado nisso que nós comemoramos como a Semana Farroupilha. Os gaúchos cultivam essa data como um marco histórico. Onde tem CTG, seja no Japão ou em Campo Grande, é comemorado. Acende a Chama Crioula e durante toda a semana faz a comemoração”, relata Josceli.

Fandango e tradição: a cultura gaúcha pulsa no MS

A programação festiva da Semana Farroupilha e do Dia do Gaúcho é marcada pelo fandango, um estilo musical que evoca os bailes de galpão, e pelo churrasco. Em Campo Grande, a cultura gaúcha é mantida viva em dois Centros de Tradição Gaúcha (CTGs): o CTG Farroupilha, fundado em 1962, e o CTG Tropeiros da Querência, inaugurado em 1990. Esses espaços são fundamentais para a preservação das tradições, reunindo gerações em torno da música, dança e culinária típicas.

A migração gaúcha para o Mato Grosso do Sul não apenas contribuiu para o desenvolvimento econômico e social do estado, mas também enriqueceu sua diversidade cultural. A força das tradições, expressa na costelada, no chimarrão e no fandango, demonstra a resiliência e o orgulho de um povo que, mesmo longe de sua terra natal, mantém suas raízes vivas e vibrantes.