O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu firmemente às declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que rotulou organizações criminosas brasileiras como terroristas. Em evento oficial no Rio de Janeiro, Lula não só discordou da classificação, mas também apontou para episódios internos como exemplos de terrorismo de Estado, citando diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro e os eventos de 8 de janeiro. A fala ocorreu em um momento crucial para a segurança pública, com a assinatura de convênios voltados para a integração das forças de segurança no combate ao crime organizado.
Lula e Trump trocam farpas sobre crime e soberania
Durante um evento de segurança pública no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira (18), o presidente Lula fez um contraponto direto às recentes declarações de Donald Trump. O líder americano havia classificado facções criminosas brasileiras como terroristas e questionado a capacidade do Brasil em lidar com elas. Lula rebateu, afirmando que não aceita essa definição para as facções.
“Eu não aceito a ideia de que as facções são terroristas, como diz o Trump”, declarou Lula. O presidente brasileiro fez uma distinção clara, sugerindo que a visão de Trump sobre terrorismo pode estar enviesada por interesses políticos e que o verdadeiro terrorismo, em sua visão, se manifestou em ações internas voltadas para a desestabilização do Estado.
Em sua fala, Lula citou o ex-presidente Jair Bolsonaro e os eventos de 8 de janeiro, que resultaram na invasão das sedes dos Três Poderes em Brasília. Segundo o presidente, essas ações configuram terrorismo de Estado. Ele mencionou que houve um plano para assassinar figuras importantes, incluindo ele próprio, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Essa interpretação, conforme o Campo Grande NEWS checou, busca contextualizar o termo terrorismo em uma perspectiva de ataque à democracia.
Bolsonaro condenado por plano de golpe
É importante notar que o ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado em março deste ano a 27 anos e três meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Ele foi considerado culpado por diversos crimes, incluindo a ciência de um plano que visava assassinar Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin. Essa condenação reforça o argumento de Lula sobre a gravidade de ações que atentam contra as instituições democráticas.
A tensão entre os governos brasileiro e americano também se estendeu a questões econômicas e de soberania. Lula criticou Trump novamente ao ressaltar a necessidade de reforçar a vigilância em áreas estratégicas como a margem equatorial, no norte do país, e o pré-sal, no litoral do Sudeste, ricas em petróleo. Ele alertou que Trump estaria buscando minerais críticos, petróleo e terras raras nessas regiões.
Essa preocupação de Lula com os interesses americanos em recursos naturais brasileiros foi reforçada por um documento anual enviado por Trump ao Congresso dos EUA no dia 15, no qual ele criticou o governo brasileiro por falhar no combate às facções criminosas como o PCC e o CV. Vale lembrar que, em maio, o governo dos EUA já havia designado o PCC e o CV como organizações terroristas estrangeiras, um movimento que o Brasil não endossou nesses termos.
Convênios para reforçar a segurança no Rio
Durante a cerimônia no Rio, foram firmados convênios entre os governos federal, estadual e municipal, com foco em três frentes principais de ação. Essas parcerias visam integrar esforços para combater o crime organizado de maneira mais eficaz. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a iniciativa busca fortalecer a presença do Estado em áreas dominadas pelo crime.
A primeira frente é a proteção integrada dos corredores logísticos, uma parceria entre o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e o governo do estado. O objetivo é combater a mobilidade de criminosos e o roubo de cargas em importantes vias do Rio, como a Avenida Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela, além dos acessos ao Porto e ao Aeroporto Internacional. Essa ação demonstra um esforço conjunto para garantir a segurança das rotas de transporte e comércio.
A segunda frente é a Política Estadual de Reocupação Territorial, firmada entre o ministério e o governo do estado. Esta política tem como meta reduzir o controle territorial, armado e econômico exercido pelas organizações criminosas, ao mesmo tempo em que fortalece a presença estatal. A atuação se estenderá sobre mercados explorados pelo crime, buscando desarticular suas fontes de financiamento e influência. Conforme o Campo Grande NEWS analisou, esta é uma medida de longo prazo para recuperar o controle de áreas.
Por fim, a terceira frente foca na capacitação da Força Municipal. Em colaboração com a prefeitura, órgãos federais como a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) e a Polícia Rodoviária Federal (PRF) auxiliarão na formação de turmas de elite da Guarda Municipal do Rio. Essa nova força, denominada Força Municipal, será composta por agentes armados e treinados para atuar em operações específicas, aumentando a capacidade de resposta local. Os convênios com o estado têm validade de 60 meses, enquanto a parceria com a prefeitura é de três anos, com início em agosto de 2025.
Rio como laboratório para segurança nacional
O presidente Lula destacou que o Rio de Janeiro servirá como um laboratório para ações integradas de segurança, envolvendo as três esferas de governo. “Se der certo no Rio, vai dar certo em todo o território nacional”, afirmou, ressaltando a importância estratégica do estado para a implementação de novas políticas de segurança pública em todo o país. A expectativa é que os resultados obtidos no Rio possam ser replicados em outras regiões com desafios semelhantes.
O governador interino do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto, enfatizou que as ações conjuntas com o governo federal já estão resultando em maiores apreensões, como as de drogas. Ele defendeu a soberania do país no combate ao crime, declarando: “O Brasil tem condições, sim, de, por si, seguir em frente e realizar as atividades próprias da segurança. Não é o caso de sermos tutelados”. Essa declaração reforça a autonomia do Brasil em definir suas estratégias de segurança.
O prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, explicou que uma das integrações promovidas pela prefeitura envolve o compartilhamento de informações de inteligência e monitoramento por vídeo das vias da cidade. O evento de assinatura dos convênios ocorreu no Complexo da PRF, um local estratégico que também abriga a sede da Força Municipal, situado no entroncamento da Avenida Brasil com a Rodovia Presidente Dutra. Essa localização é uma porta de entrada para diversos municípios da região metropolitana, como São João de Meriti e Duque de Caxias.
Cavaliere concluiu que a realização do evento envia um sinal claro para a população sobre a integração entre as forças de segurança, com um impacto positivo esperado em todas as cidades da região metropolitana. Essa demonstração de união e cooperação entre os diferentes níveis de governo é vista como um passo fundamental para a melhoria da segurança pública no Rio de Janeiro e, potencialmente, em todo o Brasil.


