Uma adolescente de 14 anos se passou por “melhor amiga” virtual de Livia, garota de 13 anos que tirou a própria vida em julho, para ganhar sua confiança. Segundo a Polícia Civil, a jovem ouviu as confidências de Livia e as repassou a um grupo investigado por induzir a menina à morte. As informações foram utilizadas para chantagear a vítima e aumentar o controle sobre ela na internet.
A investigada, que está entre os seis adolescentes apreendidos na segunda fase da Operação Livia, não conhecia Livia pessoalmente. O contato inicial ocorreu em redes sociais abertas, como TikTok e Instagram. Após estabelecer uma relação de confiança, a adolescente teria convencido Livia a ingressar em grupos fechados no Discord, plataforma que se tornou palco de investigações sobre casos de indução ao suicídio.
As apurações foram divulgadas pelo jornal O Globo, que ouviu a delegada Anne Karine Sanches Trevizan, da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DEPCA) de Mato Grosso do Sul. A delegada afirmou que a jovem manipulava Livia para que ela praticasse atos que servissem de entretenimento para o grupo, chegando a ser agressiva com a vítima durante a live em que ela morreu.
A adolescente apontada como aliciadora mantinha contato virtual com outro jovem, considerado uma das lideranças do grupo, que foi apreendido no Rio de Janeiro. A investigação indica que os integrantes dividiam tarefas, com alguns se aproximando das vítimas, outros organizando transmissões, dando ordens e ampliando as ameaças. A Polícia Civil sustenta que todos os adolescentes apreendidos tiveram participação efetiva nos eventos que levaram à morte de Livia.
Como todos são menores de 18 anos, responderão por atos infracionais análogos aos crimes de homicídio e organização criminosa. Na primeira fase da operação, um adolescente de 14 anos, morador de Aquidauana, já havia sido apreendido, apontado como líder de uma das “panelas”, termo usado pelos investigados para definir os grupos virtuais. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a primeira etapa da força-tarefa ocorreu em agosto e resultou na apreensão de cinco adolescentes e na prisão de um jovem de 18 anos em cinco estados. A análise de celulares e computadores apreendidos levou à identificação dos novos alvos.
Escravidão digital: A tática de manipulação e chantagem
A investigação descreve o método dos criminosos como “escravidão digital”. Eles se aproximavam de crianças e adolescentes nas redes sociais, criavam vínculos e obtinham informações pessoais sobre família, escola e rotina. Em seguida, as vítimas eram levadas para ambientes virtuais fechados e pressionadas a cumprir ordens.
Informações pessoais eram ameaçadas de exposição ou usadas em chantagens contra os familiares caso houvesse resistência. Perfis falsos eram utilizados para se passar por pessoas próximas à faixa etária das vítimas, facilitando a conquista de confiança e a transferência da conversa para espaços controlados pelo grupo. O Campo Grande NEWS já havia noticiado que criminosos usavam perfis falsos com fotografias, idades e gêneros diferentes dos verdadeiros.
A busca por “hype” e a violência como entretenimento
Nas comunidades virtuais investigadas, as ações violentas eram tratadas como “eventos”. Quanto mais grave a violência promovida por uma “panela”, maior era o “hype”, expressão usada para medir o prestígio dentro da rede. No caso de Livia, a pressão mais intensa durou cerca de duas horas, durante as quais os participantes teriam planejado e determinado as ações exigidas da menina. Parte dos integrantes acompanhou a transmissão em tempo real.
A apuração também identificou outras possíveis vítimas, incluindo uma adolescente de 17 anos que teria sido instigada a se ferir durante a mesma transmissão, e uma criança de 7 anos que também pode ter sido alvo do grupo. A Polícia Civil estima que o número de vítimas submetidas à violência e manipulação possa chegar a 10.
Discord sob pressão após morte de Livia
A morte de Livia intensificou a pressão sobre o Discord. Em agosto, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a suspensão das transmissões ao vivo e do compartilhamento de vídeos na plataforma no Brasil. Apesar do recurso da empresa, a medida foi mantida. Em nota divulgada anteriormente, o Discord afirmou ter desativado o servidor usado pelo grupo antes da morte da adolescente e alegou que as atividades investigadas ocorreram em outras plataformas.
A empresa declarou ainda manter equipes dedicadas a desarticular grupos, remover conteúdos que violem suas regras e adotar medidas contra usuários envolvidos em práticas criminosas. O trabalho de investigação continua, com o objetivo de individualizar a função de cada adolescente apreendido e localizar outras possíveis vítimas. O Campo Grande NEWS ressalta a importância da investigação contínua para prevenir futuras tragédias.

