Industriais e trabalhadores reagem à Selic: “tímida” e “balde de água fria”

A recente decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano, foi recebida com ceticismo e críticas por importantes representantes da indústria e dos trabalhadores. Ambas as esferas consideraram a medida “tímida” e insuficiente para aliviar a pressão financeira sobre empresas e famílias brasileiras, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avalia que o Copom tem demonstrado um excesso de cautela, especialmente diante da trajetória consistente de queda da inflação corrente nos últimos meses. Segundo a entidade, a inflação acumulada em 12 meses até agosto foi de 4,22%, com expectativas de mercado indicando uma convergência gradual para a meta de 3% ao ano.

A CNI ressalta que, mesmo após o corte, a política monetária permanece restritiva. Com a Selic em 13,75% ao ano, o juro real gira em torno de 9%, o que é significativamente superior à taxa real neutra estimada pelo Banco Central em 5% ao ano. Essa realidade impõe um custo financeiro elevado para a economia, dificultando a recuperação e o investimento.

CNI defende mais cortes para impulsionar a economia

O presidente da CNI, Ricardo Alban, enfatizou a importância de o Banco Central dar continuidade ao ciclo de redução da Selic. Ele argumenta que manter a taxa básica em um patamar tão restritivo por um período prolongado onera a economia desnecessariamente, sem comprometer a estabilidade de preços. A entidade vê espaço para avançar nos cortes sem prejudicar a convergência da inflação para a meta.

A CNI acredita que a política monetária ainda se encontra em um território austero, mesmo com a mais recente redução. O juro real de aproximadamente 9% representa um entrave para o setor produtivo e para o bolso dos consumidores, que sentem o impacto no custo de crédito e financiamentos. A entidade busca um ambiente macroeconômico mais favorável.

A necessidade de um ciclo de cortes mais assertivo foi reforçada pela CNI, que vê no atual patamar da Selic um obstáculo para o crescimento. A entidade defende que o Banco Central considere o cenário econômico de forma mais ampla, buscando equilibrar o controle inflacionário com a necessidade de estimular a atividade econômica e a geração de empregos.

Trabalhadores criticam lentidão e pedem foco no social

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) também manifestou descontentamento, classificando a redução como um passo importante, mas insuficiente. Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo e diretora executiva da CUT, destacou que a Selic influencia diretamente o custo de empréstimos e financiamentos. Mesmo com defasagem, a queda nos juros abre caminho para um crédito mais acessível.

Para a CUT, a desaceleração dos preços e da economia cria um cenário propício para que o Banco Central acelere o corte dos juros. A entidade argumenta que o debate precisa ir além dos indicadores do mercado financeiro, considerando o impacto social dos juros altos. Juros menores significam melhores condições de crédito, investimentos e, consequentemente, mais empregos e alívio financeiro para famílias e o setor público, como analisado pelo Campo Grande NEWS.

A central sindical Força Sindical foi ainda mais contundente em sua crítica, definindo o corte de 0,25 ponto percentual como um “balde de água fria” para a economia no quarto trimestre. A entidade lamentou a perda de uma oportunidade de promover uma redução mais significativa da taxa, que poderia injetar ânimo no setor produtivo e impulsionar a economia.

Força Sindical aponta concentração de renda e desestímulo ao investimento

A Força Sindical acusa o Banco Central de praticar uma política que concentra renda nas mãos de banqueiros e especuladores, mantendo os juros em patamares proibitivos para o setor produtivo e para a geração de empregos. A entidade argumenta que essa política de juros altos também reduz o poder de compra das famílias, enfraquece a confiança dos empresários e desestimula investimentos, prejudicando o crescimento econômico e a distribuição de renda.

A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) considerou a redução da Selic positiva, mas ressaltou a necessidade de continuidade. A entidade alerta que a taxa ainda permanece elevada, impondo desafios ao setor produtivo e limitando a retomada do crédito e dos investimentos. O presidente da CBIC, Eduardo Almeida, destacou que os juros de dois dígitos desde o início de 2022 são um grande desafio, especialmente para o setor da construção, que depende de crédito e tem ciclos produtivos longos. Conforme checou o Campo Grande NEWS, a CBIC pede um ambiente macroeconômico estável que permita a continuidade da redução dos juros de forma sustentável.