Um áudio interceptado pela Operação Antidotum, que investiga desvios de recursos na Santa Casa de Campo Grande, levanta sérias suspeitas sobre a contratação do Instituto Nóbrega. A instituição, fundada pela médica nutróloga Renata Domingues de Nóbrega, esposa do humorista Carlos Alberto de Nóbrega, firmou um contrato de até R$ 650 mil mensais para serviços de neurocirurgia. No entanto, o acordo foi encerrado nove meses antes do previsto, gerando questionamentos entre médicos que atuam no hospital.
A investigação aponta um prejuízo inicial de R$ 4,9 milhões, com seis pessoas presas, incluindo a presidente da Santa Casa. O caso ganha contornos ainda mais complexos com a menção em conversas interceptadas sobre as críticas de profissionais à contratação do instituto, como revela uma declaração atribuída ao então gerente administrativo do hospital, Alessandro Dias Junqueira, em um áudio enviado por WhatsApp: “Mais meteram a boca, falaram da mulher do Carlos Alberto de Nóbrega, falaram disso, falaram daquilo”.
Embora o Instituto Nóbrega não seja diretamente apontado como núcleo empresarial do esquema investigado pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul, esta não é a primeira vez que suspeitas cercam a contratação. Em 2025, uma declaração anônima já havia levantado questionamentos sobre o aumento de custos, a qualificação dos profissionais trazidos de outros estados e as consequências da troca da equipe médica.
Contrato de Milhões e Encerramento Prematuro
O Instituto Nóbrega iniciou suas atividades na Santa Casa em 16 de setembro de 2024, assumindo o serviço de Neurocirurgia. O contrato original previa uma duração de 24 meses, mas foi rescindido em 6 de junho de 2025, após aproximadamente nove meses de execução. A remuneração máxima estabelecida era de R$ 650 mil por mês, atrelada ao cumprimento de indicadores de desempenho.
Caso o contrato tivesse sido mantido integralmente pelos dois anos, o valor total poderia ter alcançado R$ 15,6 milhões. Além dos pagamentos mensais, o acordo incluía um repasse antecipado de R$ 520 mil, classificado como caução para a implantação da equipe. Procedimentos determinados judicialmente também poderiam ser cobrados separadamente, de acordo com sua complexidade.
O contrato estipulava que o instituto deveria garantir a presença de neurocirurgiões no hospital 24 horas por dia, responsáveis por consultas, cirurgias eletivas, atendimentos de urgência e emergência, acompanhamento de pacientes internados e avaliações. O serviço abrangia pacientes do SUS, convênios, atendimentos particulares e casos decorrentes de decisões judiciais.
Renata Domingues de Nóbrega aparece entre os signatários eletrônicos do documento, enquanto Maria Edvânia Pinheiro Domingues, a presidente do Instituto Nóbrega, é a representante legal. O médico Ramon Silva Junqueira foi designado como responsável técnico pela execução dos serviços. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o contrato foi assinado em um período de investigações sobre a gestão do hospital.
Denúncias e Mudanças na Equipe Médica
Uma declaração anônima datada de 5 de agosto de 2025, enviada ao NAES (Núcleo de Apoio Especial à Saúde), apontou que Renata Domingues de Nóbrega, mesmo residindo em São Paulo, ocupava a função de diretora-técnica do plano Santa Casa Saúde. Essa situação gerou estranheza entre os médicos, dado seu duplo papel como dirigente do convênio e proprietária da empresa prestadora de serviços recém-contratada pelo hospital.
As reclamações sobre a substituição da equipe médica local pela contratada começaram a surgir dois meses após o início do contrato. Em dezembro de 2024, o neurocirurgião Fabiano Santos relatou ao Campo Grande News atrasos em cirurgias, redução de procedimentos noturnos e desfalques nas escalas, prejudicando o atendimento aos pacientes. Ele informou que os nove neurocirurgiões locais foram substituídos por 16 profissionais ligados ao Instituto Nóbrega.
Santos também mencionou que, em determinado período, apenas uma neurocirurgiã estava de plantão, quando o esperado eram quatro profissionais. Na época, a Santa Casa negou a desassistência, atribuindo a situação a um “desajuste temporário” durante uma troca de plantão. O então diretor técnico, William Leite Lemos, defendeu a qualificação da nova equipe, destacando formações especializadas em cirurgias de tumores cerebrais, aneurismas, coluna e neurocirurgia pediátrica, inclusive com aperfeiçoamento no exterior.
Em março de 2025, o Instituto Nóbrega publicou um anúncio no site do Simesp (Sindicato dos Médicos de São Paulo) buscando contratar três neurocirurgiões para a Santa Casa de Campo Grande, oferecendo R$ 3.200 por plantão de 12 horas, além de hospedagem e carro para deslocamento.
Distrato e Pagamentos Pendentes
O contrato, que deveria se estender até setembro de 2026, foi encerrado por acordo mútuo em 6 de junho de 2025, dispensando o aviso prévio. O distrato declarou que o Instituto Nóbrega executou os serviços dentro dos padrões técnicos, éticos e legais, e que as notificações expedidas em maio foram respondidas e solucionadas. Contudo, o documento não detalha o motivo da interrupção antecipada.
Na ocasião do distrato, a Santa Casa comprometeu-se a reverter um pagamento cancelado em abril de 2025, totalizando R$ 325 mil, e a pagar R$ 650 mil referentes aos serviços de maio. Os valores somaram R$ 975 mil. O acordo também permitiu que a Santa Casa contratasse diretamente os médicos que atuavam pelo Instituto Nóbrega, sem caracterizar aliciamento.
Operação Antidotum e Suspeitas de Fraude
A Operação Antidotum, deflagrada em 11 de setembro, apura um suposto esquema de desvio de recursos que teria causado um prejuízo inicial de pelo menos R$ 4,9 milhões. Seis pessoas foram presas preventivamente, incluindo a presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima. A investigação aponta duas frentes principais de atuação fraudulenta.
A primeira envolve um contrato com a Redvalue Tecnologia para digitalização de prontuários, no qual a empresa teria recebido aproximadamente R$ 2,1 milhões, executando apenas 9% do volume contratado. O Ministério Público alega que a contratação foi feita sem estudo técnico ou análise de viabilidade, com cotações de empresas vinculadas ao mesmo núcleo econômico.
A segunda frente se concentra na operadora Santa Casa Saúde, onde empresas ligadas a um advogado teriam recebido R$ 9,6 milhões em 2025, algumas sem funcionários registrados e compartilhando endereços. Investigações também identificaram retiradas bancárias sucessivas de valores inferiores a R$ 50 mil, possivelmente para evitar a comunicação ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).
A reportagem do Campo Grande NEWS também revelou que o Conselho Fiscal enfrentou resistência para acessar documentos, mesmo após ordem judicial. O juiz Eduardo Lacerda Trevizan chegou a registrar “espanto” com a recusa da Santa Casa em apresentar as contas. Até o fechamento desta matéria, o Instituto Nóbrega não retornou os contatos para comentar o caso.

