Campo Grande se posiciona na vanguarda da preparação para os desafios impostos pelas mudanças climáticas e pelo fenômeno El Niño. O município foi designado como prioritário para a adaptação da rede de saúde, visando garantir o atendimento à população diante de possíveis cenários adversos. A iniciativa, que integra a estratégia AdaptaSUS, foca em diagnosticar e adequar a estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS) para responder de forma eficaz a diferentes condições climáticas. Conforme apurou o Campo Grande NEWS, a ação visa antecipar problemas e fortalecer o planejamento municipal.
A definição de Campo Grande como polo de preparação ocorreu durante o evento “Sala de Guerra”, em agosto de 2026, e ganhou novo impulso com uma reunião técnica realizada em setembro, no gabinete da prefeita Adriane Lopes. A articulação é da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) e já conta com a segunda reunião técnica do mês, evidenciando a urgência da pauta. A primeira envolveu Defesa Civil, Secretaria de Assistência Social e Cidadania (Sear) e equipes da própria Sesau, demonstrando um esforço intersetorial para lidar com a questão.
Prevenção é a Chave para Enfrentar o El Niño
A Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande está adotando uma postura proativa, antecipando cenários e fortalecendo o planejamento da rede de saúde. O objetivo é preparar as equipes para lidar com possíveis alterações no perfil de doenças respiratórias e agravos relacionados ao calor, além dos impactos diretos que eventos climáticos extremos podem gerar nos serviços de saúde. A intenção é aprimorar protocolos, organizar fluxos de atendimento e garantir uma resposta rápida e eficiente.
A estratégia da Sesau parte do princípio de que as mudanças climáticas podem afetar diretamente o volume e o tipo de atendimentos, assim como a capacidade operacional das unidades de saúde. De acordo com a apresentação técnica da Secretaria, o El Niño, no Centro-Oeste e em Mato Grosso do Sul, pode se manifestar com temperaturas elevadas, irregularidade nas chuvas, períodos de estiagem, veranicos, incêndios florestais e eventos climáticos extremos. Essa previsão orienta todo o planejamento.
O planejamento abrange tanto a vigilância epidemiológica quanto a preparação da estrutura física e assistencial da rede. Estão sendo avaliadas condições como telhados, calhas, drenagem, abastecimento de água e energia, capacidade de leitos e estoque de oxigênio. A verificação de medicamentos, insumos, equipamentos e reservas estratégicas também compõem a lista de prioridades. Conforme o Campo Grande NEWS verificou, a análise é minuciosa.
Mapeamento de Vulnerabilidades e Grupos de Risco
Um ponto crucial do plano é o mapeamento de áreas de maior vulnerabilidade dentro do município. A iniciativa visa identificar populações que podem demandar atenção diferenciada em situações de crise climática. Entre os grupos prioritários estão idosos, gestantes, crianças pequenas, pessoas com deficiência, acamados, pacientes em oxigenoterapia domiciliar e indivíduos com doenças respiratórias ou cardiovasculares crônicas.
A preparação, portanto, começa antes mesmo de uma mudança perceptível no perfil dos atendimentos. A Vigilância em Saúde acompanha atentamente os alertas emitidos por órgãos como a Defesa Civil, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e o Centro de Monitoramento de Tempo, do Clima e dos Recursos Hídricos de Mato Grosso do Sul (CEMTEC/MS). A correlação entre as condições climáticas e os potenciais impactos na saúde é constantemente analisada.
Doenças Sob Observação e Ações Preventivas
Diversos agravos à saúde estão sob observação intensificada. Doenças respiratórias, arboviroses (como dengue e zika), doenças diarreicas e intoxicações por fumaça de incêndios são algumas das preocupações. Acidentes com animais peçonhentos e problemas relacionados ao calor, como desidratação e insolação, também exigem atenção redobrada. Além disso, o planejamento inclui a prevenção de acidentes e traumas decorrentes de inundações, estiagem e outros eventos extremos. A superintendente de Vigilância em Saúde da Sesau, Veruska Lahdo, ressalta a importância do monitoramento:
“Quando falamos em eventos climáticos extremos, estamos falando também de riscos concretos para a saúde. O nosso papel é acompanhar os alertas, observar os indicadores e identificar precocemente qualquer alteração no perfil das doenças e agravos para que a resposta possa acontecer antes que a situação se agrave”, afirmou Lahdo. Essa antecipação é fundamental para a gestão de crises.
AdaptaSUS: Uma Estratégia Nacional com Foco Local
A preparação das unidades de saúde de Campo Grande faz parte da estratégia AdaptaSUS, uma iniciativa nacional voltada para a adaptação do Sistema Único de Saúde às mudanças climáticas. Campo Grande figura entre as cidades prioritárias no estado de Mato Grosso do Sul, ao lado de outros municípios como Dourados, Corumbá, Ponta Porã, Aquidauana, Coxim, Miranda, Paranaíba, Caarapó e Porto Murtinho. Essa colaboração intermunicipal fortalece o sistema de saúde regional.
A iniciativa se alinha aos planos de contingência já existentes na Sesau para situações de desastres causados por chuvas intensas, bem como para cenários de estiagem, seca e incêndios. O planejamento integrado busca consolidar as experiências recentes em ações concretas para o futuro. Conforme destacou a prefeita Adriane Lopes, o aprendizado com eventos passados é um componente essencial:
“Tudo o que a gente aprendeu agora vai para o nosso plano. São lições aprendidas, e é sempre algo novo que a gente aprende e precisa atualizar”, disse Lopes. A prefeita também enfatizou a necessidade de considerar as particularidades de cada região da cidade, direcionando intervenções preventivas para áreas de maior vulnerabilidade e infraestrutura urbana sensível. A expertise local é valorizada, como aponta o Campo Grande NEWS em suas análises.
Integração e Comunicação para Resiliência
A reunião técnica recente reforçou a necessidade de integrar informações e responsabilidades entre os diferentes setores da administração municipal. A compreensão é que eventos extremos podem afetar simultaneamente a população, a infraestrutura urbana e o funcionamento de serviços essenciais. Por isso, a proposta é manter uma articulação permanente entre Saúde, Defesa Civil, Assistência Social, Meio Ambiente, Educação, Corpo de Bombeiros e as concessionárias de água e energia.
O checklist elaborado pela Sesau prevê a criação de um grupo de monitoramento, a definição clara de responsabilidades, a atualização de planos de contingência e o estabelecimento de um fluxo de comunicação rápida entre as unidades de saúde e a gestão municipal. Essa organização visa garantir que a resposta a emergências climáticas seja ágil e coordenada, minimizando riscos e salvaguardando a vida dos cidadãos campo-grandenses. A colaboração entre órgãos é vista como crucial para a eficácia do plano.

