PF investiga Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro por financiamento de filme sobre Bolsonaro

Relatórios da Polícia Federal (PF) revelam detalhes de uma investigação que aponta o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cobrando o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, sobre o financiamento de R$ 131 milhões para a produção do filme “Dark Horse”, uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Documentos obtidos pela PF indicam que R$ 60 milhões teriam sido pagos, e mensagens trocadas entre os envolvidos e o publicitário Thiago Miranda, apontado como intermediário, mostram cobranças sobre parcelas atrasadas.

A investigação da PF também levanta suspeitas sobre possíveis encontros presenciais entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, além de apurar a participação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) na articulação dos recursos. Conforme os relatórios, as primeiras mensagens diretas entre Flávio e Vorcaro datam de agosto de 2025, e uma conversa específica, onde o banqueiro diz “21 pode ser” e o senador responde “Blz” seguido de uma figurinha de Donald Trump, é interpretada pela PF como indício de um possível encontro.

O caso, que integra um conjunto de apurações relacionadas ao Banco Master, ganha contornos mais complexos com a descoberta de remessas de dinheiro para os Estados Unidos. A PF investiga se esses recursos, que somam US$ 12,33 milhões, teriam sido enviados para o Havengate Development Fund LP, administrado por um aliado de Eduardo Bolsonaro, e se parte deles poderia ter custeado a permanência do ex-deputado no país. A defesa de Flávio e Eduardo Bolsonaro nega irregularidades.

Cobranças e Preocupações com o Filming

A tensão em relação ao fluxo financeiro para o filme “Dark Horse” ficou evidente em mensagens de áudio. Em setembro de 2025, Flávio Bolsonaro expressou preocupação a Daniel Vorcaro sobre o atraso de parcelas, destacando que a produção estava em um “momento muito decisivo”. O senador temia o impacto negativo de um possível “calote” em atores renomados como Jim Caviezel e Cyrus, ambos figuras de destaque no cinema americano e mundial.

“Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras renomadíssimos lá no cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim, né?”, disse o senador, segundo o relatório da PF, demonstrando a apreensão com a reputação do projeto e dos envolvidos.

As comunicações também revelam uma tentativa de contato de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro em novembro de 2025, um dia antes da deflagração da Operação Compliance Zero. Vorcaro respondeu que estava na igreja, mas o senador insistiu, escrevendo: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”. Essa troca sugere uma relação de proximidade e a urgência em resolver pendências financeiras.

Recursos nos EUA e Envolvimento de Eduardo Bolsonaro

A investigação da PF se estende às transações financeiras internacionais. Um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) aponta pelo menos sete remessas da Entre Investimentos para o Havengate Development Fund LP, nos Estados Unidos, totalizando US$ 12,33 milhões. O fundo, que esteve inativo por quase quatro anos, recebeu sua primeira remessa de US$ 2 milhões em fevereiro de 2025, especificamente para o financiamento do filme.

O Havengate é administrado por Paulo Calixto, um advogado de imigração descrito como aliado de Eduardo Bolsonaro. A PF busca esclarecer se os recursos enviados aos EUA também foram utilizados para custear a estadia de Eduardo no país. Em março de 2025, Thiago Miranda compartilhou com Vorcaro uma mensagem de Eduardo Bolsonaro sobre a transferência de recursos, enfatizando que “o ideal seria haver os recursos já nos EUA”, pois transações “de EUA para EUA é tranquilo”.

A mensagem alertava sobre a complexidade e o tempo necessário para remessas do Brasil para os EUA caso a empresa brasileira não tivesse um grande orçamento, o que poderia atrasar o processo em cerca de seis meses. A Procuradoria-Geral da República também mencionou este diálogo em sua análise das movimentações financeiras.

Disputa por Documentos e Negativas

A PF solicitou documentos societários, contábeis, fiscais, bancários e contratuais da Go Up Entertainment LLC, produtora ligada ao filme. Michael Davis, que se apresenta como sócio majoritário da empresa, alegou que os documentos mantidos nos Estados Unidos não deveriam ser enviados diretamente às autoridades brasileiras sem seguir os trâmites da cooperação jurídica internacional. A PF considera esses documentos essenciais para entender a origem, o trânsito e os beneficiários finais dos recursos.

Tanto Flávio quanto Eduardo Bolsonaro negam qualquer irregularidade no financiamento do filme “Dark Horse”. A investigação continua em andamento, buscando esclarecer todas as pontas soltas sobre o fluxo de dinheiro e a possível participação de figuras políticas no arranjo financeiro da produção cinematográfica.