A presidente da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, e outras cinco pessoas foram detidas nesta sexta-feira (11) durante a Operação Antidotum. A ação policial visa investigar fraudes e desvios que somam pelo menos R$ 4,9 milhões em contratos firmados com o maior hospital de Mato Grosso do Sul. A ofensiva, conduzida pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), cumpriu um total de 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, além de Alir Terra Lima, foram presos Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa, Rinaldo Hakme Romano, Maurício Aparecido Benites, Alessandro Dias Junqueira e Monique Gregório de Oliveira. A investigação aponta para um esquema complexo de irregularidades financeiras que impactam diretamente a gestão da unidade de saúde.
Alta cúpula da Santa Casa é presa em operação
A presidente da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, que é advogada, foi encaminhada para uma cela especial no Presídio Militar. Paulo Guilherme Mariosa, outro dos presos, também foi levado para a mesma unidade. Os demais detidos, Rinaldo Hakme Romano, Maurício Aparecido Benites, Alessandro Dias Junqueira e Monique Gregório de Oliveira, foram levados para a Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac) do Cepol. A operação, batizada de Antidotum, que em latim significa antídoto, busca neutralizar as práticas ilícitas identificadas na gestão hospitalar. O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) lidera as investigações, com apoio do Batalhão de Choque da Polícia Militar.
Detalhamento dos presos e suas funções
Alir Terra Lima, presidente da Santa Casa pelo segundo mandato, foi eleita pela primeira vez em 2022 e reconduzida ao cargo em 2025. Entre os presos estão outros membros importantes da direção do hospital: Alessandro Junqueira, ex-diretor administrativo; Paulo Guilherme, chefe do setor administrativo; Rinaldo Romero, diretor financeiro; e Monique Gregório, coordenadora do Serviço de Arquivamento Médico e Estatística. Maurício Aparecido Benites, um empresário dono de uma prestadora de serviços de digitalização na Santa Casa, também foi detido. As investigações ainda buscam detalhar a participação exata de cada um no esquema criminoso. O processo está sob sigilo, impedindo a divulgação de acusações individualizadas e os fundamentos das prisões preventivas decretadas pela Justiça.
Contratos sob suspeita de fraude
Um dos focos da Operação Antidotum recai sobre um contrato firmado pela Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande (ABCG) para a digitalização de prontuários médicos. O acordo previa o pagamento de R$ 1,8 milhão anualmente, por três anos, totalizando R$ 5,4 milhões. Segundo o MPMS, foram realizados pagamentos vultosos sem a devida prestação dos serviços. Apenas no primeiro ano, o desvio estimado seria de R$ 1,4 milhão. Informações sobre a data de assinatura do contrato, a empresa contratada e o valor exato já pago ainda não foram divulgadas pelo Ministério Público.
A segunda frente de investigação da Antidotum apura contratos feitos pela Operadora Santa Casa Saúde, controlada pela associação que administra o hospital. O MPMS aponta que a operadora contratou diversas empresas do mesmo grupo econômico, cujos proprietários teriam ligações com a diretoria da Santa Casa. As empresas investigadas, registradas em um mesmo endereço que, segundo os investigadores, estava desocupado, receberam cerca de R$ 9,6 milhões somente em 2025. O prejuízo nesses contratos é estimado em, no mínimo, R$ 3,5 milhões. Há indícios de que contratos, pagamentos e prestações de contas eram omitidos deliberadamente dos órgãos de fiscalização, como o Conselho Fiscal da Santa Casa e a Controladoria-Geral do Estado.
Ação policial e apreensões
A operação teve início nas primeiras horas da manhã, com equipes policiais e promotores se dirigindo à Santa Casa para cumprir mandados de busca e apreensão. Diligências concentraram-se no setor financeiro, com malas contendo equipamentos para extração de dados sendo levadas para dentro do prédio. Funcionários foram temporariamente retirados da área para permitir o trabalho das equipes. Por volta das 13h, agentes do Gaeco e Gecoc deixaram a sede da Santa Casa com malotes e bolsas contendo materiais apreendidos. Empresas também foram alvos de buscas, incluindo o imóvel onde funcionam a Dr. Smart Saúde e a Santa Cruz Saúde. O Campo Grande NEWS detalhou as ações em tempo real.
Defesas se manifestam sobre as prisões
Leandro Gregório, advogado de Monique Gregório, informou que a defesa ainda não teve acesso à decisão que determinou a prisão preventiva de sua cliente. Ele relatou dificuldades em protocolar a procuração no sistema judicial. Gregório afirmou que nenhum objeto ilícito foi encontrado na residência de Monique, onde foram apreendidos um caderno e um tablet. A defesa de Maurício Aparecido Benites, representada por Fávio Leandro, também não teve acesso aos autos. Benites nega a execução ou cobrança irregular de serviços, e sua defesa aguarda o acesso às alegações do Ministério Público para comprovar sua inocência. Até o momento, as defesas dos demais presos não se pronunciaram individualmente. O Campo Grande NEWS segue acompanhando os desdobramentos.
Crise na Santa Casa e a Operação Antidotum
A deflagração da Operação Antidotum ocorre em um momento de graves dificuldades financeiras para a Santa Casa, que recentemente suspendeu cirurgias eletivas e atendimentos ambulatoriais por falta de insumos e problemas na composição das equipes médicas. Em novembro de 2025, o MPMS já havia ajuizado uma ação civil pública contra a Santa Casa, o Governo de Mato Grosso do Sul e a Prefeitura de Campo Grande, exigindo um plano conjunto para regularizar os serviços contratados pelo SUS. Na época, foram apontadas falhas na disponibilidade de medicamentos, materiais, problemas em setores como anestesiologia, superlotação do pronto-socorro e riscos aos atendimentos de média e alta complexidade. Reuniões emergenciais entre MPMS, Santa Casa e secretarias de Saúde foram realizadas para evitar a interrupção de serviços essenciais.
Posicionamento da Santa Casa
Em nota oficial, a Santa Casa de Campo Grande declarou que está colaborando com as autoridades e permanece à disposição para fornecer informações e esclarecimentos. A instituição aguarda acesso aos autos do processo para conhecer formalmente as acusações e, posteriormente, apresentar uma manifestação detalhada. A Santa Casa reforçou que os atendimentos à população continuam normalmente, sem prejuízos à assistência aos pacientes. O nome da operação, Antidotum, simboliza a busca por uma solução para os problemas que afetam a unidade de saúde.

