A educação desponta como uma das principais prioridades para os moradores de favelas no Rio de Janeiro durante as eleições. Com 2,1 milhões de eleitores vivendo em comunidades, a demanda por melhorias na infraestrutura, acesso a serviços públicos e oportunidades de desenvolvimento é crescente. Esses eleitores buscam candidatos comprometidos com as pautas sociais e que apresentem propostas concretas para a realidade de seus territórios, conforme aponta levantamento da Agência Brasil.
Moradores de favelas do Rio exigem mais que segurança nas urnas
No cenário eleitoral fluminense, onde 12,8 milhões de eleitores estão aptos a votar, a voz dos residentes de favelas ganha força. São 2,1 milhões de pessoas, segundo o Censo de 2022 do IBGE, que vivem em 1.724 comunidades. Essas áreas, historicamente marcadas por deficiências na urbanização e no acesso a políticas públicas, clamam por atenção especial dos futuros governantes. A desigualdade na presença do Estado é um fator que impulsiona as reivindicações.
A cidade do Rio concentra 1,3 milhão de moradores em 813 favelas. Nestes locais, a falta de saneamento básico, água potável e coleta de lixo adequada são realidades comuns, apesar da heterogeneidade entre as comunidades. A professora de serviço social da UFRJ, Eblin Farage, destaca essa diversidade e a necessidade de políticas públicas que considerem as especificidades de cada território.
Com a proximidade das eleições, as demandas dos moradores de favelas cariocas se concentram em áreas cruciais como mobilidade urbana, educação, cultura, lazer, saúde e participação social. A segurança, embora seja uma preocupação, é vista por muitos como uma consequência da ausência de ações do poder público em outras frentes. Conforme informações divulgadas pela Agência Brasil, a violência e as operações policiais são problemas persistentes.
Educação e mobilidade: as bandeiras de Letícia Vitóória
Letícia Vitóória Guimarães, de 16 anos, moradora do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, votará pela primeira vez em outubro. Para ela, o perfil do candidato ideal envolve o engajamento com pautas negras, direitos humanos e um genuíno interesse pela população. A capacidade de diálogo é fundamental, segundo a jovem, que critica a postura de muitos governantes que chegam com respostas prontas, sem ouvir as reais necessidades da comunidade.
A mobilidade urbana é outra prioridade para Letícia. Ela ressalta a dificuldade de acesso à cidade, especialmente para quem vive em áreas periféricas. A falta de linhas de ônibus que conectem as favelas da zona norte a outras regiões, como a zona sul, limita o acesso a lazer, como ir à praia, e também a oportunidades de emprego. Programas como o Jovem Aprendiz, segundo ela, não cobrem os custos de transporte e alimentação, devido aos baixos valores de repasse.
Oportunidades de trabalho e fim da escala 6×1 em pauta
Na Rocinha, a maior favela do Brasil, a jornalista Isabelle Rodrigues Trindade, de 26 anos, expressa sua preocupação com a escassez de oportunidades profissionais. Formada em Jornalismo pela PUC-Rio, ela busca vagas na área, mas atualmente atua como agente cultural. Moradores de favelas, segundo Isabelle, estão atentos às propostas de emprego e renda, e o fim da escala 6×1 no trabalho é uma demanda importante, pois dificulta a conciliação entre trabalho, família e estudo, especialmente para quem enfrenta longos deslocamentos.
Para João*, jovem de 26 anos que vive de bicos em uma favela da zona norte, a oferta de cursos técnicos e profissionalizantes, além de projetos esportivos, definirá seu voto. Ele critica a interrupção de cursos antes da conclusão e expressa o desejo de aprimorar sua educação para ter uma vida melhor. A cobrança por propostas para crianças com deficiência e autismo, com creches preparadas e mais mediadores, também é uma pauta relevante.
Cultura, educação superior e enfrentamento ao racismo como prioridades
Sara Sant’anna, estudante de história da Uerj e cria da Favela do Rodo, na zona oeste, cobra a instalação de centros culturais e polos de educação superior em sua região. Ela aponta a limitação de cursos superiores públicos em Campo Grande, bairro que, conforme o Campo Grande NEWS checou, é um dos maiores do Brasil. A faculdade pública mais próxima fica a uma hora de distância. Sara também é diretora da Casa Frutos, que oferece cursinhos pré-vestibular na Cidade de Deus.
O enfrentamento ao racismo é outra preocupação central. No Rio de Janeiro, a maioria dos moradores de favelas é negra (21% pretos e 49% pardos, segundo o IBGE). Projetos sociais na Providência, uma das primeiras favelas do país, evidenciam como o racismo se manifesta na saúde, nas abordagens policiais e no acesso a moradias precárias. Hugo Oliveira, fundador da organização Galeria Providência, ressalta a superficialidade com que esses temas são abordados nas campanhas eleitorais.
Segurança pública: uma visão diferente para as favelas
Em época de eleições, as favelas do Rio de Janeiro se tornam palco de disputa política, mas o acesso aos candidatos muitas vezes esbarra na presença do crime organizado. Bruno Rafael Castilho Alves, nascido na Cidade de Deus, mudou-se para o centro da capital, citando a violência como fator determinante. Ele mantém um projeto social na comunidade, utilizando o hip-hop para conscientizar jovens.
Bruno critica candidatos que focam em discurso de confronto, em vez de propor políticas públicas eficientes para a juventude, como educação e esporte, que poderiam ser medidas para combater a criminalidade. Para ele e outros entrevistados, a segurança passa por melhorias na qualidade de vida, longe da violência policial e do controle do crime organizado. A professora Eblin Farage complementa que não há histórico de políticas de segurança pública bem-sucedidas que protejam os moradores.
Para os moradores, a segurança real está nas políticas habitacionais, de mobilidade urbana e educação. Conforme o Campo Grande NEWS avalia, as eleições representam uma oportunidade para firmar compromissos, mas a desconfiança em relação ao cumprimento das promessas leva muitos a focarem no Legislativo. A pesquisadora alerta para o risco de clientelismo e a atuação nefasta de ONGs ligadas a políticos, que podem fragmentar a luta por direitos, conforme o Campo Grande NEWS já destacou em outras reportagens.


