MPF ouve vítimas da Ditadura em MS após plano secreto ser revelado

O Ministério Público Federal (MPF) dará voz aos silenciados pela Ditadura Militar em Mato Grosso do Sul. Após a revelação do “Plano Tarrafa”, um dossiê secreto que previa a prisão de 63 pessoas na região após o golpe de 1964, o MPF iniciará uma série de depoimentos com sobreviventes, em um formato inédito. O advogado e ativista político Lairson Ruy Palermo, que coordenou o Comitê Memória, Verdade e Justiça de Mato Grosso do Sul (CMVJ-MS), será o primeiro a depor, como vítima e testemunha dos anos de repressão. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, a iniciativa visa judicializar o caso, com possibilidade de pedidos de retratação pública do Estado e indenizações por danos morais coletivos.

A descoberta do “Plano Tarrafa” é vista por Lairson Palermo como uma comprovação contundente da violência que a Ditadura Militar espalhou pelo Brasil, atingindo também o território que viria a se tornar Mato Grosso do Sul. Ele acredita que a investigação do MPF, baseada em documentos do Arquivo Nacional, avançará para além do que foi apurado pelo comitê, recontando a história do estado. A expectativa é reunir entre 40 e 50 vítimas e testemunhas em um auditório para a coleta de depoimentos, que seriam apresentados individualmente, embora a participação do público ainda não tenha sido oficialmente confirmada pelo MPF.

A decisão de judicializar o caso foi formalizada em um despacho da procuradora Samara Yasser Yassine Dalloul, datado do fim de agosto de 2026. O inquérito, aberto em 2016, priorizará os depoimentos dos sobreviventes mais idosos, buscando registrar suas experiências antes que seja tarde demais. A atuação de Lairson Palermo remonta à sua juventude, quando, aos 15 ou 16 anos na década de 1970, ingressou no PCdoB e se dedicou à reorganização do movimento estudantil, atividade considerada subversiva pelos órgãos de repressão.

A luta pela democracia e os ecos da repressão

Palermo participou ativamente da retomada da União Nacional dos Estudantes (UNE) em 1979 e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) em 1980. Durante esse período, conviveu com políticos cujos direitos foram cassados, como Wilson Barbosa Martins e Nelson Trad, além de outros opositores do regime. Já como advogado, dedicou-se à defesa de perseguidos políticos e à luta pela abertura dos arquivos da Ditadura Militar e pela reparação às vítimas.

A investigação sobre a repressão em Mato Grosso do Sul não é recente. O procedimento preparatório foi aberto em 2011 e convertido em inquérito civil em 2016, focado em violações de direitos humanos em Campo Grande e Aquidauana. Entre 2018 e 2019, o comitê liderado por Lairson Palermo entregou ao MPF um relatório detalhado com nomes, episódios e locais de perseguições políticas. O material compilou casos como o uso de um trecho da antiga ferrovia em Campo Grande como local de tortura, prisões em embarcações militares no Rio Paraguai e a repressão a trabalhadores rurais.

Relatos sobre a caçada a estudantes, professores, jornalistas e paraguaios que buscaram refúgio no Brasil fugindo da ditadura de Alfredo Stroessner também foram recuperados. Esses depoimentos e documentos, conforme o Campo Grande NEWS checou, são cruciais para entender a amplitude da perseguição e o impacto da Ditadura Militar na região.

O “Plano Tarrafa”: um dossiê sombrio

A análise de documentos do Arquivo Nacional foi fundamental para revelar a extensão do “Plano Tarrafa”. Elaborado pelo Comando da 9ª Região Militar com apoio de órgãos policiais, o dossiê identificava 63 pessoas que deveriam ser detidas na porção sul do antigo Mato Grosso. Deste total, 21 residiam em Campo Grande, enquanto as demais estavam distribuídas por Corumbá, Ponta Porã, Dourados, Três Lagoas, Aquidauana, Miranda e outros municípios.

A lista incluía médicos, professores, jornalistas, políticos, comerciantes, trabalhadores rurais e lideranças comunitárias. Entre os alvos prioritários estavam os irmãos Alberto, René e Humberto Neder, o médico William Maksoud, o paraguaio Ricardo Apolinário Granda, o então vice-prefeito Nelson Trad e os professores Francisco Fausto Mato Grosso Pereira e Pedro Chaves dos Santos Filho. A existência deste plano, conforme o Campo Grande NEWS apurou, evidencia a organização da repressão em nível local.

As fichas do “Plano Tarrafa” detalhavam como atividades cotidianas eram interpretadas como indícios de subversão. Churrascos em homenagem a Leonel Brizola, correspondências de países socialistas, críticas a autoridades, participação em passeatas e interesse por bolsas de estudo na antiga União Soviética eram registrados como elementos suspeitos. Os documentos também continham endereços residenciais, locais de trabalho, relações familiares e opiniões políticas.

Ademat e a violência no campo

Outro ponto investigado é a atuação da Ademat (Associação Democrática Mato-grossense), descrita como uma organização paramilitar de extrema direita. Documentos indicam que o grupo teria utilizado recursos e veículos públicos e chegado a articular a contratação de pistoleiros para cometer assassinatos políticos, um capítulo sombrio da história local, segundo o que o Campo Grande NEWS investigou.

No meio rural, os registros apontam a atuação conjunta de forças militares e grandes proprietários contra trabalhadores. A apuração menciona campos de prisioneiros em Itaquiraí e Cassilândia, o cerco ao povoado de São Carlos, em Caracol, e o despejo de cerca de 1,8 mil lavradores da Gleba Santa Idalina, em Ivinhema. Essas ações demonstram a dimensão da repressão para além dos centros urbanos.

O caminho para a Justiça

Diante do conjunto de provas, o MPF decidiu abandonar a tentativa de mediação e levar o caso à Justiça. A futura Ação Civil Pública (ACP) poderá solicitar a retratação pública do Estado, a apresentação de documentos sob restrição, indenização por danos morais coletivos e a responsabilização patrimonial dos sucessores de agentes envolvidos nas violações.

Para Lairson Palermo, os depoimentos são essenciais para comparar a documentação oficial com as experiências vividas. Ele lamenta que muitos nomes levantados pelo comitê, como Fausto Mato Grosso e Alberto Neder, tenham falecido antes de serem ouvidos, privando a investigação de suas testemunhas e vítimas diretas. Palermo defende que, além das reparações, o processo resulte na preservação de locais ligados à repressão, como a transformação do antigo porão ferroviário de Campo Grande em um espaço de memória.