Dono de pizzaria em Campo Grande prevê demissões com fim da escala 6×1

A proposta de fim da escala 6×1 e redução da jornada semanal para 40 horas, em discussão no Congresso Nacional, acende um alerta em pequenos empreendedores do setor de alimentação fora do lar. Donos de estabelecimentos como pizzarias e lanchonetes temem o impacto direto nos custos operacionais e nos preços finais para o consumidor. Em Campo Grande, Lucas Amstalden, sócio da pizzaria Pizza67, detalha como a mudança afetaria seu negócio, que emprega cinco funcionários.

Fim da escala 6×1: o dilema dos pequenos negócios

A proposta em debate no Congresso Nacional visa reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas e extinguir a escala de trabalho 6×1. Para muitos setores, essa mudança pode representar um ganho em qualidade de vida para os trabalhadores. No entanto, para pequenos empresários, o cenário é de apreensão e cálculos que podem inviabilizar a operação.

Lucas Amstalden, sócio da Pizza67, em Campo Grande (MS), avalia que a principal dificuldade não reside na redução das horas semanais, mas sim na perda de um dia de trabalho. Essa perda, segundo ele, exigirá novas contratações para manter o mesmo nível de produção e atendimento.

Conforme apurou o Campo Grande NEWS, a preocupação de Amstalden é compartilhada por outros empreendedores do ramo. A reportagem publicada em 4 de maio de 2026, assinada por Lucas Machado, destaca que a inviabilidade da escala 6×1 pode forçar um repasse significativo nos preços dos produtos, afetando diretamente o bolso do consumidor.

Aumento de custos e a necessidade de novas contratações

Atualmente, a pizzaria Pizza67 conta com cinco funcionários e uma folha de pagamento mensal de aproximadamente R$ 15 mil. Com o fim da escala 6×1, Lucas Amstalden estima que seria necessário contratar mais dois funcionários para suprir a demanda e cobrir o dia a menos de trabalho. Essa nova contratação elevaria a folha de pagamento para, no mínimo, R$ 25 mil.

“Meu custo vai sair de R$15 mil para, pelo menos, R$25 mil”, afirma Amstalden. Ele calcula que, para cobrir esse aumento de R$ 10 mil nos custos mensais, seria preciso vender entre R$ 35 mil e R$ 40 mil a mais por mês. Um desafio considerável em um cenário econômico já desafiador.

Repasse de preços: um caminho inevitável?

Diante do expressivo aumento nos custos operacionais, a projeção da Pizza67 é de um reajuste de 15% a 20% nos preços das pizzas. Amstalden ressalta que a absorção desses novos gastos sem repassar ao consumidor final seria praticamente impossível, especialmente considerando a impossibilidade de aumentar o volume de vendas de um dia para o outro.

Edilson da Silva, proprietário da Lanchonete do Dênis, em Viçosa (MG), compartilha da mesma opinião. Ele argumenta que, se o custo operacional aumenta e a operação se dificulta, o repasse para o consumidor se torna uma necessidade. “Se aumenta o meu custo, se dificulta a minha operação, eu vou ter que repassar”, declarou Silva.

A situação é ainda mais delicada quando se considera o cenário econômico atual, marcado por inflação elevada e endividamento crescente entre os consumidores. Em um momento de demanda mais fraca, a capacidade de repassar custos se torna um fator crítico para a sobrevivência dos negócios.

Concorrência informal e o risco da irregularidade

Outro ponto levantado na reportagem, e que o Campo Grande NEWS investigou, é o risco de aumento da informalidade no setor. Lucas Amstalden relata que a concorrência com negócios que operam fora da formalidade já é um desafio significativo. Ele exemplifica a situação ao redor de sua pizzaria, onde outras quatro pizzarias operam, mas apenas a sua possui CNPJ, registra funcionários, emite nota fiscal e paga impostos.

“As outras 3, os caras trabalham em casa, estão com a família, então como eu vou concorrer em termos de preço com esse cara?”, questiona Amstalden. A dificuldade em competir com preços mais baixos de concorrentes informais pode ser agravada pelas novas exigências legais.

Edilson da Silva complementa que a falta de um debate aprofundado sobre a proposta pode empurrar ainda mais os negócios para a irregularidade. “O maior problema é quando a legislação vem engessada, ela acaba te jogando para trabalhar de forma irregular”, alerta. Conforme checado pelo Campo Grande NEWS, a adaptação a novas regras sem considerar as particularidades dos pequenos negócios pode gerar um efeito contrário ao desejado.

A discussão sobre a escala 6×1 e a jornada de trabalho continua em pauta, e para empreendedores como Lucas Amstalden, a conta é clara: vender mais para cobrir os custos ou repassar o aumento para os clientes. A sustentabilidade de pequenos negócios como a Pizza67, em Campo Grande, dependerá de como essas novas regras serão implementadas e se haverá espaço para adaptações específicas para o porte de cada empresa.