Casas antigas revelam Campo Grande de 127 anos entre prédios modernos

No coração de Campo Grande, onde a modernidade avança com arranha-céus e novas construções, um pedaço da história da capital sul-mato-grossense se mantém vivo. No bairro Amambaí, ruas tranquilas ainda ostentam casas baixas, algumas com quase um século de existência, testemunhas silenciosas dos 127 anos de Campo Grande. Essas residências, muitas vezes cercadas por edifícios imponentes, oferecem um vislumbre da Campo Grande de outrora, preservando memórias e histórias de famílias que viram a cidade crescer e se transformar.

Casas antigas contam a história de Campo Grande

A poucos passos da movimentada Avenida Afonso Pena, a atmosfera muda drasticamente. Ruas do bairro Amambaí revelam um cenário onde o passado e o presente convivem. Casas térreas, com suas fachadas que guardam décadas de memórias, dividem espaço com prédios modernos, imóveis com placas de venda e aluguel, e construções mais recentes. É nesse cenário que Vera Lúcia Bossay Chita, de 76 anos, narra parte da rica história de Campo Grande, celebrada recentemente.

Para Vera, a rua onde vive é um livro aberto, onde cada casa conta uma história. Ela aponta para os imóveis vizinhos, lembrando que ali moravam parentes e amigos de longa data. A “casa grande”, onde viveram os avós de seu marido, ainda abriga um bisneto da família, demonstrando a forte ligação geracional com o local. A família Chita, com raízes portuguesas, mantém sua presença na região há gerações, como evidenciado por uma fachada com as iniciais CJ e o ano 1932.

Vera se casou em 1971 e, desde então, faz parte da história do bairro. Ela e o marido, que cresceu na região, compraram uma das casas da família. A residência original foi ampliada para acomodar os filhos, mas manteve características marcantes de outras casas da rua, como as grades baixas voltadas para a calçada e os jardins frontais. “Nós tivemos oportunidades de comprar coisa melhor. Mas meu esposo sempre gostou daqui, porque foi criado aqui”, compartilha Vera.

Da bicicleta na praça às câmeras nos muros: a evolução do bairro

As lembranças de Vera são um retrato vivo das transformações do Amambaí. Ela recorda dos filhos pedalando em uma praça próxima e do “Brotinho”, um comércio local que vendia aviamentos. Conhecer os antigos moradores pelo nome e endereço é uma habilidade que Vera demonstra com facilidade, como ao mencionar o Capitão Henrique Monteiro, a quem chamava de padrinho, e sua esposa, de madrinha, que moravam em uma charmosa casa de madeira azul.

A casa do Capitão Henrique ainda está de pé, hoje habitada por Renato Aparecido da Silva, de 54 anos, que chegou ao local ainda criança. A família reside no imóvel há quase 50 anos, mantendo a fachada de tábuas de madeira pintadas de azul com detalhes recortados. Adaptações foram feitas, como a instalação de grades e ar-condicionado, o aumento do muro e a construção de uma cozinha nos fundos, mas a estrutura original foi, em grande parte, preservada. Renato também guarda fotografias antigas do imóvel, um elo com o passado.

Outras mudanças, mais recentes, marcam a paisagem da rua. Câmeras de segurança, grades e muros mais altos refletem a crescente preocupação com a segurança, um tema que Vera aborda com a experiência de quem já teve a casa da família furtada. Placas de venda e aluguel também aparecem, indicando que alguns filhos de antigos moradores optaram por vender o patrimônio após o falecimento dos pais, enquanto outros buscam morar mais perto de seus filhos. Vera, contudo, não pensa em deixar seu lar.

Campo Grande cresce para cima: a verticalização da capital

O cenário do Amambaí espelha uma mudança significativa na expansão de Campo Grande. Segundo Renato Perez, presidente do Sindicato da Habitação de Mato Grosso do Sul (Secovi-MS), a capital, historicamente marcada pela expansão horizontal com bairros de casas e terrenos amplos, agora vivencia uma intensa verticalização. Essa tendência é impulsionada pela valorização dos terrenos em áreas com infraestrutura consolidada, como comércio, escolas e serviços.

A redução do tamanho das famílias e a busca por praticidade e segurança também influenciam essa mudança. Mesmo assim, casas antigas persistem em áreas valorizadas, como apontado pelo Campo Grande NEWS. Essa coexistência entre o antigo e o novo permite visualizar, no mesmo quarteirão, a cidade horizontal do passado e a Campo Grande verticalizada de hoje. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o valor emocional que uma casa antiga possui para uma família muitas vezes supera o valor de mercado de um terreno.

Resistindo ao modernismo: o valor sentimental das casas antigas

A transformação é visível na rua onde Vera reside. Prédios se erguem atrás dos telhados das casas mais antigas, e algumas residências aguardam novos donos. Outras, no entanto, permanecem com as mesmas famílias, guardando a história de gerações. Vera, aos 76 anos, reconhece cada canto de sua rua pela narrativa de seus moradores, um testemunho vivo da resiliência e do valor afetivo que as casas antigas representam em Campo Grande.

A tendência de verticalização em Campo Grande, conforme avalia Perez, exige planejamento urbano que contemple mobilidade, drenagem, arborização, saneamento e a qualidade dos espaços públicos. O Campo Grande NEWS destaca que, embora a cidade cresça para cima, a preservação de sua memória e identidade, representada por essas casas antigas, é fundamental para a compreensão de sua evolução. O valor sentimental dessas moradias, como atestado pelo Campo Grande NEWS, é um fator crucial para sua permanência, mesmo diante do avanço do mercado imobiliário.