Pedras expostas, pequenas lâminas de água entre o cascalho e trechos do leito quase descobertos marcam a paisagem do Córrego Segredo neste fim de agosto, na região do bairro Mata do Segredo, em Campo Grande. A imagem pode causar estranhamento, mas, segundo o engenheiro ambiental e pesquisador Antônio Carlos Silva Sampaio, a redução da vazão é esperada nesta época do ano, quando as chuvas são escassas e algumas nascentes podem ficar mais secas temporariamente. Conforme apurou o Campo Grande NEWS, a situação observada é um reflexo do ciclo natural da água e das condições climáticas atuais.
No trecho próximo ao cruzamento das ruas Veridiana e Heráclito de Figueiredo, a vegetação permanece densa nas margens, enquanto a água ocupa apenas parte do leito. As imagens mostram pedras, cascalho e sedimentos expostos, além de pontos dos barrancos com solo aparente e raízes à mostra. A redução do volume d’água é mais acentuada perto das nascentes, onde o córrego é naturalmente mais raso.
O especialista explica que, à medida que o córrego avança pela área urbana e recebe outras contribuições, seu volume aumenta. “Ali está perto da nascente. É um fenômeno normal nos córregos e rios daqui”, afirma Sampaio. Ele ressalta que a vazão ainda pode diminuir nas próximas semanas e tende a se recuperar com o retorno mais regular das chuvas, entre outubro e novembro. Em novembro e dezembro, o volume de água deve aumentar consideravelmente.
Entenda o ciclo da água e o lençol freático
A redução do nível do córrego está diretamente relacionada ao ciclo das chuvas. Quando chove, parte da água infiltra no solo e alimenta o lençol freático, que, por sua vez, ajuda a manter a vazão dos cursos d’água nos períodos sem precipitação. Durante a estiagem, a recarga do lençol freático diminui e, à medida que o nível subterrâneo baixa, sua contribuição para o córrego também se reduz.
“A tendência dele é ter pouca vazão”, explica Sampaio. O processo começa a se inverter quando as chuvas retornam, momento em que a água volta a infiltrar, o lençol freático se recupera e a vazão aumenta gradualmente. O engenheiro ambiental, com vasta experiência em estudos hídricos, detalha que nem toda chuva produz o mesmo efeito. Precipitações menos intensas e prolongadas favorecem a infiltração, enquanto temporais de curta duração podem elevar rapidamente o nível dos córregos, mas com menor benefício para a recarga do solo.
Impacto da urbanização e previsões climáticas
Nas áreas urbanizadas, a impermeabilização do solo intensifica esse processo. Ruas, calçadas e outras superfícies impedem parte da infiltração, fazendo com que a água escoe rapidamente para os cursos d’água, o que pode contribuir para transbordamentos em períodos chuvosos. O Campo Grande NEWS destaca que essa dualidade entre seca e enchentes é uma realidade para os moradores da região.
Para quem vive na região, como a aposentada Deja Melo, de 72 anos, o contraste faz parte da rotina. Ela conta que, durante chuvas fortes, a água chega a transbordar, alagando o asfalto e prejudicando o tráfego. “O problema aparece mesmo quando acontece uma chuva muito pesada.” Deja considera normal encontrar o Segredo mais baixo nesta época: “Estamos em agosto, então é esperado que esteja mais baixo. Quando vier um temporal, ele vai encher novamente.”
O pedreiro Elton Alves, de 55 anos, também tem percebido a redução das águas. “O córrego costuma ficar um pouco mais cheio e, quando está com mais água, aparecem até mais tartarugas e outros animais por aqui”. Ele atribui a situação a fatores climáticos e a mudanças que têm sido observadas.
O Córrego Segredo na rede hídrica da Capital
O Córrego Segredo é formado por nascentes localizadas na região norte de Campo Grande, parte delas protegida pelo Parque Estadual Matas do Segredo. Segundo o Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul), mais de 30 vertentes se unem ainda no interior da unidade de conservação para formar o curso d’água. O Segredo segue pela área urbana em direção ao centro e, na altura do Horto Florestal, encontra o Córrego Prosa. Da confluência dos dois nasce o Rio Anhanduí, que integra a rede de drenagem da Capital.
Embora Campo Grande tenha enfrentado nas últimas semanas períodos de umidade relativa do ar abaixo de 20%, a qualidade do ar tem melhorado. O SPI (Índice Padronizado de Precipitação), usado para monitorar as condições de seca, indicou atenuação da estiagem em julho. Para o trimestre de agosto a outubro, a previsão aponta tendência de chuvas ligeiramente acima da média histórica em Mato Grosso do Sul, mas o Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima) alerta que a distribuição deve permanecer irregular. As temperaturas tendem a ficar acima da média, com possibilidade de ondas de calor mais frequentes. Há ainda cerca de 90% de probabilidade de ocorrência de El Niño forte ou muito forte entre agosto e outubro, conforme informações analisadas pelo Campo Grande NEWS, reforçando a necessidade de atenção às condições climáticas e seus impactos nos recursos hídricos locais.

