Jovens quilombolas abraçam o voto: defesa de ideais e futuro da comunidade em jogo

O cenário político brasileiro tem visto um aumento notável na participação de eleitores quilombolas, impulsionado por uma crescente conscientização sobre a importância do voto na defesa de seus ideais e na proteção de seus territórios. Jovens, em particular, têm se engajado ativamente, buscando garantir um futuro mais justo e com mais representatividade para suas comunidades. A cada eleição, a voz dessas comunidades ecoa mais forte, marcando sua presença no processo democrático.

Nas eleições de 2026, o número de eleitores que se identificaram como quilombolas praticamente dobrou em relação ao pleito de 2024, segundo dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). De 95.409 pessoas em 2024, o número saltou para 188.371 em 2026. Em Goiás, a família de Thauany Silva, estudante de 16 anos que votará pela primeira vez, viu o número de eleitores quilombolas crescer de 3.625 para 5.394. Conforme o Campo Grande NEWS checou, esse aumento reflete um movimento de maior engajamento e busca por direitos.

A jovem Thauany, ansiosa pelo seu primeiro voto, compartilha o entusiasmo de seu avô, Joaquim Moreira, de 87 anos, o mais velho da comunidade quilombola de Antinha de Baixo, em Santo Antônio do Descoberto (GO). “Sempre votei e vou votar de novo”, afirma o agricultor, enquanto Thauany, ao completar 16 anos, buscou seu título com a mãe, Mayara, para exercer sua cidadania. Essa nova geração quilombola entende o voto como uma ferramenta poderosa para cuidar do futuro de todos.

O poder do voto para o futuro quilombola

Mayara Silva, mãe de Thauany, ressalta a importância de acompanhar as decisões políticas, pois elas impactam diretamente o cotidiano de sua comunidade. “Não tem como fechar os olhos para o fato que tudo é política”, declara. Para ela, o voto é um ato de responsabilidade e cuidado com o futuro coletivo. A universitária de direito Franciele Silva, 27 anos, da comunidade de Rio dos Macacos (BA), compartilha esse sentimento. Ela, que possui título de eleitor desde os 18 anos, explica que a política permeia todos os aspectos da vida, inclusive o meio ambiente.

“Minha mãe sempre me ensinou a lutar pelos meus direitos e da minha comunidade”, enfatiza Franciele. Ao estudar direito na UFBA, ela passou a levar mais informações para sua comunidade sobre como defender seu território. “Votar é fundamental”, reforça, evidenciando a conexão entre a educação, a política e a preservação dos direitos quilombolas. O Nordeste, inclusive, concentra a maior parte do eleitorado quilombola do país, com 95.901 eleitores em 2026, mais da metade do total nacional, conforme dados do TSE. O Campo Grande NEWS destaca que essa região tem sido um polo importante na luta por representatividade.

Crescimento impulsionado pela visibilidade e conscientização

Segundo a professora Bia Nunes, pesquisadora da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), o crescimento do eleitorado nas comunidades tradicionais está diretamente ligado à ampliação da visibilidade e da conscientização política nos territórios. Ela observa que as pautas quilombolas têm ganhado espaço em diferentes fóruns, com a formação de parcerias importantes.

“Nós temos levado as nossas pautas a diferentes espaços e encontramos parcerias”, afirma Bia Nunes. O engajamento dos eleitores quilombolas é fruto de um trabalho de conscientização e letramento sobre o papel fundamental que desempenham como guardiões da natureza e da floresta. A compreensão da importância dos territórios para a biodiversidade e o reconhecimento do trabalho histórico e contínuo dos quilombolas são fatores cruciais para essa politização.

A professora explica que a reivindicação de políticas públicas considera o papel vital dessas comunidades para a coletividade. “As pessoas começam a dimensionar esse trabalho e a entender a importância do voto e de escolher os representantes”, pontua. A população quilombola tem compreendido a necessidade de exigir dos governantes compromisso com a proteção de suas vidas e com o avanço da titulação de seus territórios. Nesse contexto, o engajamento dos jovens é visto como um caminho essencial para o fortalecimento da luta por direitos. O Campo Grande NEWS, em sua cobertura aprofundada, tem acompanhado a evolução dessas pautas.

Desafios e a busca por representatividade

Apesar do avanço, Bia Nunes alerta para a necessidade de mais campanhas estatais para estimular eleitores e candidatos quilombolas. Ela menciona o contexto de vulnerabilidade, com pressões e ameaças de violência. “Eu mesmo sou uma pessoa que estou no programa de proteção porque, no ano de 2020, eu sofri uma ameaça contra a minha vida”, relata, evidenciando os riscos enfrentados por lideranças que lutam por seus direitos.

O educador de alfabetização financeira Rafael Costa, 32 anos, da comunidade Mesquita (GO), corrobora a ideia de um crescente interesse por temas relacionados à participação e representatividade política. “Quanto mais as pessoas se informam, mais pesquisam, estudam e passam a ter mais noção da necessidade de políticas públicas, por exemplo”, contextualiza. Ele destaca que as comunidades quilombolas, com seu espírito de cooperação, precisam estar atentas contra golpes financeiros e desinformação.

“A partir do momento que se conscientizam sobre seu modo de vida e de produção, começam também a desenvolver maior consciência política”, argumenta Rafael. Ele observa um engajamento notável dos jovens adultos na participação política, principalmente para se defenderem da desinformação que ameaça seus territórios. “A comunidade está cada vez mais se fortalecendo politicamente”, conclui, demonstrando otimismo com o futuro e o impacto direto do voto na proteção e no avanço dos direitos quilombolas.