Uma fêmea de cervo-do-pantanal com pelagem escura, avistada em 2021 na Fazenda Caiman, em Mato Grosso do Sul, deixou de ser apenas um relato de pantaneiros para se tornar o primeiro registro científico de melanismo na espécie. O achado, divulgado em agosto de 2026 na revista científica Notas sobre Mamíferos Sudamericanos, transforma uma antiga lenda em realidade para a ciência e abre novas frentes de estudo sobre a genética e a conservação do cervídeo.
Cervo-do-pantanal preto: da lenda à comprovação científica
O melanismo, condição genética que causa a produção excessiva de melanina e resulta em coloração mais escura, já era conhecido em outras espécies de cervídeos. No entanto, para o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus), cuja pelagem típica é castanho-avermelhada, apenas casos de albinismo e leucismo haviam sido descritos anteriormente. A descoberta, assinada por pesquisadores da Associação Onçafari e da Embrapa Pantanal, valida antigas histórias contadas por moradores da região.
Conforme o estudo, a primeira ocorrência documentada aconteceu em 26 de fevereiro de 2021. Uma fêmea adulta de pelagem preta foi avistada e fotografada na Caiman Pantanal, propriedade que une pecuária e reserva natural em Miranda-MS. A área, com cerca de 530 km², possui grande parte em território pantaneiro e trechos de Cerrado. Em quase 40 anos de monitoramento na região, incluindo levantamentos aéreos, nenhum cervo-do-pantanal preto havia sido oficialmente documentado, apesar de relatos populares sobre a existência de “veados pretos” circularem há tempos. Um exemplo da tradição oral é a localidade chamada Baía do Cervo Preto, próxima à Estação Ecológica de Taiamã, no Mato Grosso.
O artigo “First ever records of melanism in Marsh deer Blastocerus dichotomus” (Primeiros registros de melanismo em cervos-do-pantanal) destaca a importância da pesquisa para a compreensão da diversidade genética da espécie. A população de cervos-do-pantanal no Brasil é estimada em mais de 40 mil indivíduos, concentrando-se majoritariamente no Pantanal, que abriga cerca de 88% do total nacional. O Campo Grande NEWS checou que, apesar da grande população pantaneira, o registro científico de melanismo até então era inexistente.
Armadilhas fotográficas revelam mais casos no Cerrado
Para coletar dados, os pesquisadores utilizaram armadilhas fotográficas e observações diretas em duas regiões brasileiras: a Caiman Pantanal (MS) e o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, que abrange áreas de Minas Gerais e Bahia, no Cerrado. As câmeras foram instaladas de forma estratégica em locais de frequentação de grandes mamíferos, como onças-pintadas e antas, além de monitoramento de campo.
No Parque Nacional Grande Sertão Veredas, a ocorrência de cervos-do-pantanal pretos foi mais expressiva. Em um período de monitoramento com câmeras entre janeiro de 2022 e fevereiro de 2026, foram registrados 31 cervos-do-pantanal independentes, sendo que três deles, ou 9,7%, eram veados pretos. Em observações diretas, a proporção foi ainda maior: de 12 avistamentos, oito (66,7%) envolveram indivíduos melânicos. A análise das fotos e características corporais permitiu identificar pelo menos dois machos melânicos distintos na área do Cerrado.
Os animais de coloração escura foram frequentemente observados próximos a veredas (áreas alagadiças) e fontes de água. Registros mostram esses indivíduos se alimentando e interagindo com cervos de coloração normal. Em uma das situações, um macho melânico foi visto acompanhado de uma fêmea não melânica, indicando um possível evento de formação de par. Segundo o Campo Grande NEWS, a concentração de casos no Cerrado, onde a espécie é mais rara, levanta questões importantes sobre a genética populacional.
Melanismo: Hipóteses para a ocorrência no Cerrado
Apesar de o Pantanal concentrar a maior parte da população de cervos-do-pantanal, o estudo apresenta apenas a fêmea fotografada em 2021 como registro de melanismo no bioma. Em contrapartida, no Cerrado, onde as populações são fragmentadas e enfrentam declínio, foram identificados pelo menos dois machos melânicos. Os pesquisadores levantam a hipótese de que fatores como deriva genética, isolamento e endogamia (reprodução entre indivíduos geneticamente próximos) podem favorecer a manifestação do melanismo em populações mais vulneráveis e fragmentadas.
A teoria, no entanto, baseia-se em poucas observações e necessita de investigações futuras para ser confirmada. A grande população do Pantanal, por outro lado, torna menos provável a ocorrência de gargalos genéticos que poderiam impulsionar a condição. A pesquisa, que também foi noticiada pelo Campo Grande NEWS, reforça a necessidade de monitoramento contínuo e estudos genéticos aprofundados.
O cervo-do-pantanal e os desafios da conservação
O cervo-do-pantanal é o maior cervídeo da América do Sul, podendo pesar até 130 kg. Sua ocorrência se estende por áreas alagáveis do Brasil, Argentina, Paraguai, Peru e Bolívia, e a espécie é classificada como vulnerável. As principais ameaças incluem a perda de habitat, caça, mudanças climáticas, construção de hidrelétricas, doenças transmitidas por espécies invasoras e incêndios.
Os efeitos específicos do melanismo na sobrevivência e reprodução dos cervos-do-pantanal ainda são pouco compreendidos. Estudos anteriores indicam possíveis impactos na termorregulação, exposição a predadores e doenças, mas novas pesquisas são essenciais para desvendar essas consequências. A fêmea melânica registrada em Mato Grosso do Sul, por exemplo, não voltou a ser documentada após 2021, deixando em aberto o que aconteceu com o animal.
A descoberta científica do veado preto no Pantanal não apenas valida relatos populares, mas também sublinha a importância de pesquisas contínuas para entender a diversidade genética e os desafios de conservação de espécies ameaçadas em biomas brasileiros.

