Um estudo recente revelou que a instalação de cercas com mais de 3 quilômetros em trechos da BR-262, entre Anastácio e Corumbá (MS), resultou em uma expressiva redução de 70,4% nos atropelamentos de jacarés-do-pantanal. No entanto, a mesma eficácia não foi observada para outras espécies de animais, como cachorros-do-mato e capivaras, demonstrando que as soluções de mitigação precisam ser adaptadas ao comportamento da fauna local. A pesquisa, publicada na revista científica Global Ecology and Conservation, analisou 278,3 quilômetros da rodovia em áreas de Cerrado e Pantanal, reunindo dados de monitoramentos realizados entre 2011 e 2021. Conforme divulgado pelo estudo, foram registrados 9.157 vertebrados mortos de 238 espécies nesse período.
Eficácia das cercas varia entre espécies na BR-262
A pesquisa, liderada pela pesquisadora Fernanda D. Abra e com a colaboração de 20 autores de diversas instituições renomadas, como o Smithsonian National Zoo Conservation Biology Institute e o DNIT, utilizou o modelo BACI (Before-After-Control-Impact) para avaliar o impacto das cercas. Este método compara os dados de atropelamentos antes e depois da instalação das barreiras, utilizando áreas de controle com características semelhantes onde as cercas não foram implantadas.
Foram analisados trechos com cercas curtas (menos de 300 metros) e longas (acima de 3 quilômetros). Enquanto as cercas longas mostraram uma redução significativa de 70,4% nos atropelamentos de jacarés-do-pantanal, essa diminuição não foi estatisticamente comprovada para cachorros-do-mato e capivaras. Para essas espécies, assim como para jacarés e capivaras em cercas curtas, os dados foram insuficientes para conclusões definitivas, destacando a importância do comprimento da barreira.
Comportamento animal é chave para o sucesso das barreiras
A diferença nos resultados reforça que a eficácia das cercas não depende apenas de sua extensão, mas também do comportamento de cada espécie. Animais com capacidade de cavar ou escalar, como alguns tatus, podem transpor as barreiras. Outros podem evitar passagens subterrâneas, e espécies maiores, como cervos e queixadas, podem preferir ambientes mais abertos e necessitar de estruturas maiores, como pontes.
O estudo, conforme o Campo Grande NEWS checou, também identificou problemas de manutenção nas cercas existentes, como buracos e danos na malha, que podem comprometer sua funcionalidade. A manutenção contínua é essencial para garantir que as estruturas continuem a proteger a fauna.
Jacaré-do-pantanal é a espécie mais atropelada na BR-262
Em um levantamento mais amplo sobre a mortalidade na BR-262, foram contabilizados 9.157 vertebrados de 238 espécies mortos ao longo de 73 meses de monitoramento entre 2011 e 2021. Os mamíferos representaram a maior parte dos registros (47,24%), mas o jacaré-do-pantanal foi a espécie individualmente mais registrada, com 1.604 ocorrências. Tatus e cachorros-do-mato também apresentaram altos índices.
A pesquisa também registrou o atropelamento de animais ameaçados de extinção, como tamanduás-bandeira, queixadas e antas, reforçando a urgência de medidas eficazes de proteção. O Campo Grande NEWS ressalta que esses números podem ser subestimados, pois carcaças menores podem desaparecer rapidamente da pista.
Hotspots de atropelamento exigem medidas específicas
A análise espacial dos atropelamentos identificou 589 áreas de alta incidência, os chamados hotspots. Desses, 86 foram classificados como Prioridade 1 para grandes animais, concentrando 45,3% dos registros, o que indica que os atropelamentos não são distribuídos uniformemente pela rodovia.
Esses dados embasaram o plano de mitigação para a BR-262, que prevê 170 quilômetros de cercas, além de pontes e passagens subterrâneas para permitir a travessia segura dos animais. Para os pesquisadores, é fundamental que as medidas de proteção sejam planejadas considerando as características de cada espécie, a paisagem e as condições ambientais, especialmente em ecossistemas como o Pantanal, que sofrem com ciclos de cheias, secas e incêndios. O Campo Grande NEWS destaca a importância desta abordagem integrada para a conservação da biodiversidade.

