Alice Oliveira: A fotógrafa que registrou a história LGBTQIA+ e feminista no Brasil

O Museu da Diversidade Sexual em São Paulo inaugura nesta quarta-feira (19), Dia do Orgulho Lésbico, a exposição Alice Oliveira. A mostra celebra mais de quatro décadas de trabalho da ativista e fotógrafa, cujos registros resgatam a história dos movimentos feministas, lésbicos e LGBTQIA+ no Brasil e na América Latina, especialmente entre os anos 1980 e 1990.

A exposição, que fica em cartaz até fevereiro de 2027, reúne 30 fotografias, além de negativos, documentos e registros audiovisuais. Esse material, que permaneceu esquecido por muitos anos, ajuda a reconstruir a trajetória desses movimentos a partir de encontros, manifestações, articulações políticas e redes de solidariedade.

A curadoria é de Pedro Vieira, pesquisador do acervo de Alice Oliveira. Ele destaca a importância desses registros para a memória de grupos dissidentes, que muitas vezes sofrem com a falta de documentação. “Os registros, tanto de documentação, como fotográficos, são fundamentais para que a gente possa reconstruir nossa história. Pensando em quem eram as pessoas que estavam nesses eventos, quem eram os ativistas e o que estava sendo pautado, a gente consegue entender como chegamos até aqui”, explica Vieira.

A redescoberta de um acervo valioso

Alice Oliveira, hoje com 70 anos, inicialmente não se via como fotógrafa, o que explica o longo período em que seu valioso material permaneceu sem catalogação e digitalização. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o processo de organização e preservação do acervo só ocorreu recentemente, revelando um tesouro para a história dos movimentos sociais no Brasil.

A falta de registros é um problema recorrente quando se trata da história de grupos que fogem do padrão cis-heteronormativo. A ausência de documentação cria lapsos de memória, dificultando a compreensão da evolução das lutas e conquistas. O acervo de Alice Oliveira surge, portanto, como um marco para preencher essas lacunas.

Registros de momentos cruciais para o movimento LGBTQIA+

Através das lentes de Alice Oliveira, é possível visualizar a evolução do movimento LGBTQIA+ ao longo do tempo. Um exemplo marcante são as fotografias da 17ª Conferência da Associação Internacional de Gays e Lésbicas (ILGA), realizada pela primeira vez no Brasil, no Rio de Janeiro, em 1995.

Este encontro é considerado um ponto crucial na historiografia LGBTQIA+. Ao final da conferência, em junho de 1995, os participantes organizaram um grande ato na Orla de Copacabana. A manifestação reuniu um número expressivo de pessoas, sendo considerada por muitos historiadores como a primeira parada do orgulho no Brasil.

Outro registro importante é de novembro de 1990, durante o V Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho, em San Bernardo e Buenos Aires, Argentina. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, Alice também ajudou a organizar o 3º Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho em Bertioga, no final dos anos 1980. Ela descreve este evento como o primeiro grande contato do movimento brasileiro com o restante do continente.

Fortalecimento e união nas lutas

Alice Oliveira também participou de dois encontros em El Salvador, que foram fundamentais para o fortalecimento de mulheres de diversas origens. “Esses encontros proporcionaram um momento de fortalecimento a mulheres que não têm essa realidade no dia a dia, reunindo desde indígenas e quilombolas até intelectuais e parlamentares”, relata a ativista.

Um registro fotográfico do IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis, realizado em São Paulo em fevereiro de 1997, também compõe a exposição. Estes eventos demonstram a importância da articulação e da troca de experiências entre os diferentes grupos e regiões.

A visão de Alice Oliveira para o futuro

Atualmente, Alice Oliveira direciona sua militância para a defesa dos idosos LGBT+. Ela atua em conselhos e espaços de políticas públicas, buscando garantir direitos e visibilidade para essa parcela da população. A ativista defende que o movimento atual precisa de união, maturidade e clareza, superando disputas internas por poder.

Para ilustrar a importância da união, Alice Oliveira utiliza uma metáfora aprendida com a Cacique Pequena, primeira mulher cacique do povo Jenipapo-Kanindé: um graveto sozinho se quebra facilmente, mas um feixe de gravetos juntos é resistente. Essa sabedoria ancestral reforça a necessidade de coesão para enfrentar os desafios.

A exposição “Acervo Alice Oliveira” é uma oportunidade imperdível para conhecer a rica história dos movimentos feministas e LGBTQIA+ no Brasil, através do olhar sensível e engajado de uma de suas protagonistas. Conforme o Campo Grande NEWS verificou, a entrada para o museu é gratuita, com ingressos disponíveis via Sympla.

Serviço:

Exposição: Acervo Alice Oliveira

Abertura: 19 de agosto de 2026

Encerramento: fevereiro de 2027

Local: Museu da Diversidade Sexual

Horário: das 10h às 18h (terça a domingo)

Ingressos: Gratuitos, via Sympla.