A Polícia Civil deflagrou, nesta terça-feira (18), a Operação Cura Terapêutica, mirando uma organização criminosa suspeita de cometer fraudes em internações custeadas pelo poder público. A ação, que cumpriu 14 mandados de busca e apreensão em cinco cidades de Mato Grosso do Sul, revelou um cenário chocante: uma pessoa mantida em cárcere privado. A Justiça determinou o bloqueio de bens e valores superiores a R$ 1 milhão. Conforme informações divulgadas pela Polícia Civil, a operação é resultado de mais de um ano de investigações conduzidas pela Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor).
O flagrante de cárcere privado ocorreu durante o cumprimento dos mandados, que se estenderam por Dourados, Fátima do Sul, Deodápolis, Glória de Dourados e Ponta Porã. Embora a Polícia Civil não tenha divulgado a cidade exata do cativeiro, nem detalhado se a vítima era um dependente químico em reabilitação, a descoberta evidencia a gravidade da atuação do grupo criminoso. Além da pessoa resgatada, três pessoas foram presas em flagrante, entre elas o empresário Fábio Garcia do Amaral, de 45 anos, proprietário de uma clínica de reabilitação em Fátima do Sul. A Justiça determinou a indisponibilidade de bens e valores superiores a R$ 1 milhão. O Campo Grande NEWS checou os detalhes da operação, que visa desarticular um esquema complexo de fraudes financeiras e crimes contra a administração pública.
Esquema Criminoso em Internações
A investigação aponta que a organização criminosa atuava por meio de empresas prestadoras de serviços de internação para dependentes químicos, cujos custos eram arcados pelo Poder Público. O grupo é investigado por lavagem de dinheiro, organização criminosa e crime contra a Administração Pública. Segundo a Polícia Civil, as empresas, embora formalmente distintas, possuíam fortes vínculos entre si, atuando de forma coordenada para desviar recursos públicos.
A investigação revelou que estabelecimentos ligados ao grupo ofereciam serviços de internação ao Poder Público sem possuir os requisitos técnicos necessários para serem considerados clínicas especializadas. Inspeções de órgãos de fiscalização constataram a ausência de alvarás sanitários, falta de equipe técnica mínima e instalações precárias, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.
Operação Revela Mais Crimes
Durante as buscas, os policiais apreenderam três armas de fogo, munições, medicamentos de uso controlado irregulares, cartões bancários em nome de terceiros e diversos documentos, que servirão como elementos de prova. Fábio Garcia do Amaral foi autuado em flagrante na sua residência, no condomínio de luxo Ecoville I, por posse irregular de arma de fogo. Ele já havia sido alvo de interdição judicial de sua clínica em julho de 2025, após a morte de uma adolescente de 16 anos internada compulsoriamente na unidade.
As prisões em flagrante também incluíram crimes como tráfico de drogas, sequestro e cárcere privado. A Polícia Civil destacou que a operação contou com apoio de diversas unidades, como Defron, Garras, Delegacias Regionais de Ponta Porã e Fátima do Sul, além de equipes da Defensoria Pública, Vigilância Sanitária e Conselho Regional de Farmácia.
Desvio de Milhões dos Cofres Públicos
A decisão judicial revelou que foram identificadas contratações diretas pelo Poder Público e situações decorrentes de processos judiciais para custeio de internações. Empresas do mesmo grupo apresentavam propostas em processos de contratação e orçamentos para demandas judiciais, indicando um controle comum e atuação integrada. Uma análise preliminar de 66 processos judiciais, referentes a 2023 e 2024, estima um desvio de vantagem econômica superior a R$ 1 milhão relacionado às contratações investigadas. O Campo Grande NEWS acompanha de perto os desdobramentos desta operação que expõe a fragilidade no controle de serviços públicos.
Foram observadas movimentações financeiras atípicas entre os investigados, com indícios de concentração e redistribuição de recursos, sugerindo a prática de lavagem de dinheiro. O nome da operação, “Cura Terapêutica”, foi escolhido para simbolizar a intervenção do Estado contra a “doentia estrutura criminosa que compromete a saúde de pessoas vulneráveis e lesa os cofres públicos”.

