Projeto leva cultura a comunidades de Salvador

Um projeto inovador está aproximando comunidades de Salvador de importantes equipamentos culturais da cidade. Moradores do bairro de Águas Claras, por exemplo, tiveram a oportunidade de visitar o centro histórico e participar da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) pela primeira vez, ampliando seus horizontes e vivenciando a rica cultura baiana. Essa iniciativa visa combater a desigualdade no acesso à cultura, um desafio persistente no Brasil, conforme dados do IBGE.

Acesso à Cultura: Uma Ponte para o Conhecimento

A iniciativa, batizada de Circuito Cultural, é promovida pelo Instituto Motiva e tem como objetivo principal derrubar barreiras de acesso à cultura para estudantes da rede pública e membros de organizações sociais. O projeto organiza visitas gratuitas a instituições culturais em Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, reconhecendo a cultura como uma poderosa ferramenta de transformação social, educação e expansão de repertório.

Desvendando o Pelourinho e a Flipelô

Um dos grupos beneficiados pelo projeto foi formado por mulheres com mais de 60 anos, frequentadoras da Biblioteca Comunitária Condor Literário. Soraia Santos Pinto, 61 anos, moradora de Águas Claras, é um exemplo inspirador. Após passar por um período de depressão, ela encontrou na biblioteca um espaço de acolhimento e atividades, como aulas de boxe, capoeira e dança. A visita à Flipelô, à Fundação Casa de Jorge Amado e ao Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab) representou uma experiência inédita e transformadora para Soraia.

“A gente tem que fazer isso mais vezes. Isso abre o nosso entendimento. Isso é cultura e é bom para a gente. Eu amei. Tem pessoas que nunca tinham vindo no Pelourinho, nunca estiveram aqui. Eu acho que eles deviam fazer isso com a maioria da comunidade, levar a cultura ou trazer o povo até a cultura, já que a cultura não vai nas periferias”, relatou Soraia, ressaltando a importância de levar a cultura até as comunidades que, muitas vezes, ficam à margem.

Maian Oliveira, 36 anos, participou do passeio com seus três filhos. Ela também conheceu o Muncab pela primeira vez e enfatizou a relevância da cultura para a identidade. “Estou fazendo um passeio com minhas crianças. Eles fazem parte da capoeira Unira. Aí eu vim trazer eles para dar um passeio. Eu acho a cultura muito importante. Ela mostra quem nós somos, de onde nós viemos. E é muito importante a gente apresentar isso para nossas crianças, que estão chegando agora”, afirmou Maian.

Maian compartilhou que, no dia a dia, concilia a rotina e o transporte para levar seus filhos a passeios culturais no centro histórico de Salvador é um desafio considerável. “No dia a dia é mais difícil trazer as crianças. Quando se tem mais de duas crianças, se torna ainda mais difícil porque o transporte fica um pouco complicado”, explicou.

Águas Claras: Uma Comunidade em Transformação

Apesar de Salvador ser a capital baiana, muitos moradores de bairros como Águas Claras, localizado a cerca de 25 minutos do centro histórico, enfrentam dificuldades para acessar os equipamentos culturais. Aline Dias, articuladora territorial do bairro, descreve Águas Claras como uma comunidade autossuficiente, que se apoia em suas redes internas e possui aspectos tradicionais, em parte devido a um histórico de marginalização.

A chegada do metrô e a construção de uma rodoviária têm impulsionado mudanças positivas, ampliando as ações sociais e culturais na região. “Tenho visto uma certa mudança no comportamento da própria comunidade. Primeiro sobre a autoestima da comunidade em relação à cidade. Agora ela já começa a ter mais coragem e confiança para poder expor o que acontece de bom por lá”, comentou Aline.

Apesar das iniciativas locais, como a biblioteca comunitária, Aline defende a necessidade de políticas públicas que ampliem o acesso à cultura. “Precisamos pensar em iniciativas que valorizem ou que deem vazão ao que acontece na comunidade”, ressaltou. Ela também destacou o desejo dos moradores em reproduzir eventos culturais, como feiras literárias, em suas próprias comunidades, reconhecendo a literatura como um espaço vital para expressar suas vivências e cultura.

“Se houver investimento nas comunidades, a gente vai aumentar as esferas literárias. As comunidades têm muito a falar, tem muito a escrever”, concluiu Aline, reforçando o anseio da população em participar de ações culturais, tanto dentro quanto fora de seus territórios. “A Flipelô não era, até então, parte do repertório da cidade. Águas Claras estava muito à parte do que estava acontecendo. Então essa [atividade de sábado] foi uma grande oportunidade. As pessoas estão muito felizes”, finalizou.

Um Cenário de Acesso Limitado à Cultura

O Circuito Cultural surge em um contexto onde o acesso a bens culturais no Brasil é notavelmente limitado e desigual. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que menos de um terço dos municípios brasileiros possuem museus, e a visitação a esses espaços é concentrada em faixas de maior renda.

A pesquisa Hábitos Culturais 2025, realizada pelo Observatório Fundação Itaú, reforça essa realidade: apenas 16% dos brasileiros visitaram um museu nos últimos 12 meses, e 13% participaram de festivais literários. Esses números sinalizam um baixo nível de consumo cultural na população brasileira, evidenciando a importância de projetos como o Circuito Cultural.

“Nosso maior desejo com essa ação foi, primeiramente, quebrar essa barreira do acesso. E, segundo, a gente entende que a cultura é realmente uma ferramenta poderosíssima de transformação social, de educação e de ampliação de repertório”, afirmou Ariane Teles, especialista do Instituto Motiva, detalhando os objetivos da iniciativa.