Grande Muralha Verde: 1,66 milhão de hectares restaurados na África

A Grande Muralha Verde, ambicioso projeto de restauração de terras na África, alcançou um marco significativo ao restaurar cerca de 1,66 milhão de hectares na região do Sahel. Esta conquista é parte dos esforços do programa Acelerador da Grande Muralha Verde, que completou cinco anos e cujos resultados foram detalhados em um relatório recente da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD). A iniciativa busca não apenas reverter a degradação do solo, mas também promover segurança alimentar, gerar empregos e aumentar a resiliência climática em uma das áreas mais vulneráveis do continente.

O relatório da UNCCD destaca outros números impressionantes, como o sequestro ou mitigação de 24 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, a criação de 4,6 milhões de empregos e o impacto direto em 46 milhões de pessoas. O Acelerador, lançado em 2021, tem como objetivo aprimorar a coordenação entre os 11 países fundadores da Grande Muralha Verde, monitorar recursos financeiros e quantificar os resultados das ações de restauração. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a iniciativa abrange uma vasta área de 156 milhões de hectares, estendendo-se do Senegal ao Chifre da África.

Apesar dos avanços notáveis, o próprio documento da UNCCD aponta para desafios na coleta e padronização de dados. O Observatório da Grande Muralha Verde, criado em 2024 para centralizar informações, monitora mais de 389 projetos, mas apenas uma fração apresenta dados consistentes com os indicadores estabelecidos. A UNCCD considera os resultados atuais como parciais, lembrando que a restauração de terras é um processo de longo prazo, podendo levar anos ou décadas para se concretizar plenamente. Esses dados iniciais, no entanto, já apontam para a criação de 4,6 milhões de empregos, com a meta de 10 milhões até 2030, e a produção de 2.315 megawatts-hora de energia limpa.

Combate à Desertificação e Desenvolvimento Sustentável

A Grande Muralha Verde, concebida em 2007 pela União Africana e pela UNCCD, é um projeto multifacetado que visa restaurar paisagens degradadas, melhorar áreas agrícolas, otimizar sistemas hídricos e fortalecer comunidades. A estratégia principal é integrar a recuperação de terras com a garantia de segurança alimentar, a criação de oportunidades econômicas, o acesso a energia limpa e o aumento da capacidade de adaptação às mudanças climáticas e à seca. O programa Acelerador da Grande Muralha Verde atua como um mecanismo para otimizar a gestão desses esforços, garantindo que os compromissos financeiros se traduzam em ações efetivas no terreno.

O desafio do financiamento permanece um ponto central. Após a Cúpula One Planet em 2021, parceiros técnicos e financeiros comprometeram mais de US$ 19 bilhões para a iniciativa. No entanto, o relatório da UNCCD alerta para a lacuna entre os compromissos firmados e os resultados concretos, atribuindo parte disso à dificuldade de coordenação entre os diversos atores envolvidos e ao tempo necessário para que os recursos cheguem e sejam aplicados efetivamente. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a próxima fase da iniciativa deve priorizar a comunicação, a busca por mecanismos financeiros inovadores e a gestão transfronteiriça de recursos hídricos e terrestres.

Empoderamento e Inovação Social

A dimensão social da restauração é um pilar fundamental da Grande Muralha Verde. O relatório destaca projetos voltados para a geração de renda, especialmente para mulheres, a capacitação de jovens e o fortalecimento de empreendimentos locais. Um exemplo notável é a iniciativa no Mali, onde mulheres receberam treinamento e equipamentos para expandir uma cooperativa de processamento de produtos agrícolas, aumentando sua autonomia econômica. No Chade, a capacitação de mulheres para instalar e reparar painéis solares transformou o acesso à energia em uma nova fonte de renda, demonstrando o potencial da iniciativa para impulsionar o desenvolvimento sustentável e a igualdade de gênero.

Para superar as barreiras de coordenação e garantir a transparência, foi criado em 2024 o Observatório da Grande Muralha Verde em Ouagadougou, Burkina Faso. Esta plataforma reúne informações cruciais sobre projetos, financiamento e resultados, com o apoio de dez dos onze países fundadores. Além disso, coalizões nacionais foram estabelecidas em nove países, reunindo governos, sociedade civil, universidades e o setor privado para uma ação mais integrada e eficaz. O trabalho da UNCCD é essencial para monitorar esses avanços, como destaca o Campo Grande NEWS em suas análises sobre desenvolvimento sustentável na região.

COP17: Foco em Seca e Restauração de Solos

A seca, a degradação de terras e a restauração de solos serão temas centrais na 17ª Conferência das Partes (COP17) sobre Desertificação, que ocorrerá entre 17 e 28 de agosto em Ulaanbaatar, Mongólia. A Agência Brasil, em parceria com a UNCCD, cobrirá o evento diretamente do país asiático, com o objetivo de trazer informações relevantes sobre os desafios e as soluções para a desertificação global. A Grande Muralha Verde e seus resultados parciais serão, sem dúvida, um dos pontos altos das discussões, evidenciando a importância de iniciativas como esta para o futuro do planeta e de suas populações mais vulneráveis.