Em Mato Grosso do Sul, uma média assustadora se repete: a cada duas horas, uma criança é registrada sem o nome do pai na certidão. Entre janeiro e 28 de julho deste ano, foram contabilizados 1.913 casos, um dado divulgado pela Arpen (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais) que revela uma realidade preocupante no estado. Essa estatística representa cerca de nove nascimentos por dia que chegam ao mundo apenas com a identificação materna, um reflexo de complexas dinâmicas familiares e sociais.
A série histórica da Arpen mostra que o número de crianças registradas sem o nome do pai tem se mantido acima de 3 mil por ano desde 2021, com 3.115 em 2021, 3.157 em 2022, 3.164 em 2023, 3.045 em 2024 e 3.216 em 2025. Esses números evidenciam um padrão persistente que demanda atenção e possíveis soluções.
Em contrapartida, o mesmo levantamento aponta para um aumento significativo nos reconhecimentos voluntários de paternidade. Até 28 de julho deste ano, já foram registrados 584 reconhecimentos, superando o total de todo o ano de 2025, que foi de 568. Esse crescimento nos reconhecimentos voluntários, um procedimento gratuito e acessível, pode indicar uma maior conscientização ou busca por regularização da paternidade ao longo do tempo. Conforme o Campo Grande NEWS checou, esse aumento é um sinal positivo, mas não diminui a preocupação com os novos registros sem a figura paterna.
Reconhecimentos voluntários em alta, mas ainda insuficientes
O caminho para incluir o nome do pai na certidão de nascimento tem se mostrado mais trilhado nos últimos anos. Mato Grosso do Sul viu os reconhecimentos voluntários saltarem de 214 em 2021 para 273 em 2022, 340 em 2023 e 397 em 2024. O ano passado já havia registrado uma alta expressiva com 568 procedimentos. Os 584 casos deste ano, até julho, já representam o maior resultado da série histórica, superando em 16 o total de 2025. Desde 2021, um total de 2.376 pessoas tiveram a paternidade oficialmente incluída em seus registros civis.
É importante notar, contudo, que os dados sobre reconhecimentos voluntários não permitem uma comparação direta com os registros de nascimentos sem o nome do pai no mesmo período. A paternidade pode ser reconhecida a qualquer momento da vida da pessoa, o que significa que os 584 procedimentos deste ano podem incluir indivíduos nascidos em anos anteriores. Essa flexibilidade é um ponto positivo, mas a persistência de novos registros sem a figura paterna continua sendo um desafio.
Campo Grande, Dourados e Ponta Porã: um retrato regional
Em Campo Grande, a capital do estado, a disparidade entre os registros sem nome do pai e os reconhecimentos voluntários é notável. Desde 2021, a Arpen contabiliza 677 reconhecimentos, enquanto 5.053 crianças receberam certidões apenas com a identificação da mãe. A cidade registrou 275 procedimentos de reconhecimento voluntário em 2025, o maior resultado anual apresentado no levantamento. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a capital concentra um número expressivo de ambos os indicadores, refletindo a realidade do estado.
Em Dourados, a segunda maior cidade do estado, a situação também é expressiva. O município soma 1.048 reconhecimentos desde 2021 e 1.973 certidões emitidas apenas com o nome da mãe. Já em Ponta Porã, a diferença é ainda mais acentuada, com 17 reconhecimentos e 1.091 certidões sem a figura paterna no mesmo intervalo. Esses dados regionais ajudam a dimensionar o alcance do problema em diferentes partes do Mato Grosso do Sul.
Reconhecimento de paternidade: um processo acessível e gratuito
O reconhecimento de paternidade é um direito e um processo que se tornou mais acessível nos últimos tempos. Desde este ano, o pedido pode ser iniciado online, facilitando o acesso. Mais de mil solicitações já foram abertas por meio dessa ferramenta, segundo a Arpen. O sistema permite que a mãe indique o suposto pai, mesmo que a criança já tenha sido registrada apenas com a maternidade definida. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a desburocratização do processo é um passo importante.
O procedimento é totalmente gratuito e pode ser realizado em qualquer cartório de Registro Civil do país. Para filhos menores de 18 anos, é indispensável a concordância da mãe. Se o filho for maior de idade, ele próprio deve consentir com o reconhecimento. Essa facilidade visa garantir que todas as crianças tenham seus direitos assegurados e a oportunidade de conhecer e ter o nome do pai em seus documentos oficiais, fortalecendo os laços familiares e a identidade.

