Medida protetiva: um escudo frágil contra a violência que assombra mulheres

Em um dia de atendimentos na Casa da Mulher Brasileira, em Campo Grande, histórias extremas de violência e esperança se entrelaçam. Às vésperas dos 20 anos da Lei Maria da Penha, a unidade revela que, apesar dos avanços, as medidas protetivas ainda não são um escudo intransponível contra agressores, e muitas mulheres buscam não apenas proteção, mas um recomeço.

Violência em Campo Grande: Medidas protetivas e a busca por segurança

A Casa da Mulher Brasileira em Campo Grande registrou, em um dia de atendimentos, a diversidade de situações enfrentadas por mulheres em busca de proteção. Entre relatos de agressões e pedidos de revogação de medidas protetivas, a reportagem do Campo Grande NEWS encontrou histórias que evidenciam a complexidade da violência doméstica e os desafios para garantir a segurança das vítimas.

A Lei Maria da Penha, que completa 20 anos em agosto, é um marco na proteção das mulheres. Contudo, a realidade nas delegacias e centros de acolhimento demonstra que a aplicação e a efetividade das medidas protetivas ainda são pontos cruciais a serem debatidos e aprimorados. A unidade, que oferece acolhimento, orientação jurídica, atendimento psicológico e assistência social, é um refúgio para muitas que buscam escapar de ciclos de violência.

Conforme o Campo Grande NEWS checou, os atendimentos na Casa da Mulher Brasileira revelam um cenário onde o medo se mistura à esperança de um futuro mais seguro. Enquanto algumas mulheres chegam para registrar ocorrências e buscar amparo legal, outras retornam com o desejo de encerrar processos, evidenciando a complexidade das relações e as diferentes fases de um ciclo de violência. A busca por segurança e dignidade é uma constante.

A fragilidade da proteção: quando a medida não é suficiente

Uma mulher de 40 anos, com hematomas visíveis no corpo, procurou a Casa da Mulher Brasileira para reforçar sua proteção contra o ex-companheiro. Preso três vezes por crimes relacionados à Lei Maria da Penha, ele ainda representa uma ameaça à sua segurança. “Não quero virar estatística. A medida protetiva não é à prova de bala”, desabafou, demonstrando o receio de que a proteção legal não seja suficiente para garantir sua integridade física.

Ela relatou ter sido agredida e mantida em cárcere privado, além de ter seu celular quebrado. A dificuldade em obter ajuda foi um obstáculo, com relatos de vizinhos que se omitiam, alegando que não queriam se intrometer em brigas de casal. A violência psicológica, segundo ela, deixou marcas mais profundas e difíceis de cicatrizar do que os hematomas físicos.

A preocupação com a possibilidade de perder o emprego devido às idas à delegacia e aos atendimentos também foi expressa. Para ela, a violência psicológica é a mais devastadora, pois as feridas na mente demoram muito mais para curar. Essa percepção ressalta a necessidade de um olhar mais atento para as diversas formas de violência que as mulheres sofrem.

Recomeços e a busca por autonomia após a violência

Em contraste com o medo, outras histórias na Casa da Mulher Brasileira narram a força e a resiliência de mulheres que buscam reconstruir suas vidas. Uma jovem de 30 anos, separada há seis meses após dez anos de relacionamento, retornou à unidade para buscar orientação jurídica e garantir os direitos de seus dois filhos pequenos. Ela obteve uma medida protetiva contra o ex-marido, que invadiu sua casa, e relata que, desde então, ele não a procurou mais.

“Eu vim buscar segurança para mim e para as crianças. Não esperava que a medida fosse funcionar, mas tem dado certo”, afirmou. Durante o atendimento, ela descobriu que também era vítima de violência psicológica, entendendo que “violência não é só apanhar. Também é a violência moral, verbal, aquela que diminui a mulher, faz ela acreditar que não é capaz e destrói a autoestima”.

Incentivada por uma amiga, ela decidiu denunciar e buscar ajuda. Agora, focada em seu futuro, busca uma oportunidade como costureira e cogita cursar Serviço Social, visando uma nova perspectiva de vida. Essa jornada de autoconhecimento e superação é um testemunho da capacidade feminina de se reinventar após experiências traumáticas.

Revogação de medidas: um sinal de alerta ou de superação?

A Casa da Mulher Brasileira também registrou casos de mulheres que procuraram a unidade para solicitar a revogação de medidas protetivas. Uma mulher de 58 anos afirmou que o ex-marido “cuida de mim, é bom para mim” e atribuiu os problemas aos filhos. Ela foi informada de que a decisão cabe ao juiz, que analisará o risco para a vítima antes de acatar o pedido.

Outra mulher, sem dar detalhes, mencionou um acordo com o ex-marido para encerrar o processo. Em pouco mais de três horas, pelo menos três mulheres buscaram o fim da proteção legal. Esses pedidos levantam um debate sobre a autonomia da mulher e a necessidade de garantir que a decisão de revogar uma medida protetiva seja feita de forma consciente e segura, sem pressões ou revitimização.

Estatísticas alarmantes em Mato Grosso do Sul

Os atendimentos na Casa da Mulher Brasileira refletem o cenário preocupante da violência doméstica em Mato Grosso do Sul. Em 2025, o estado registrou 21.962 ocorrências, com 12.060 casos já contabilizados neste ano, sendo 4.024 em Campo Grande. No ano passado, a Capital somou 7.870 ocorrências. Além disso, 18 feminicídios foram registrados em 2026 no estado.

A Lei Maria da Penha define a violência doméstica de forma ampla, abrangendo não apenas agressões físicas, mas também as formas psicológica, sexual, moral e patrimonial. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa abrangência legal visa proteger as mulheres em todas as esferas de sua vida, combatendo os diferentes tipos de opressão que podem ocorrer no âmbito familiar ou de convivência. A Casa da Mulher Brasileira, com sua atuação em Campo Grande, é um importante ponto de apoio para vítimas que buscam justiça e um futuro livre de violência, como atesta a autoridade jornalística do portal no estado.