A Justiça Federal proferiu uma condenação histórica contra um militar reformado do Exército, o sargento Antônio Waneir Pinheiro de Lima, conhecido como “Camarão”. Ele foi sentenciado por crimes de cárcere privado qualificado e estupro cometidos contra a historiadora e militante política Inês Etienne Romeu em 1971. Os atos ocorreram na chamada “Casa da Morte”, um centro clandestino de tortura operado pelo Centro de Informações do Exército (CIE) em Petrópolis, no Rio de Janeiro.
A decisão da juíza federal Maria Isadora Frizao, proferida em 31 de julho, fixou a pena em 12 anos, 11 meses e 25 dias de reclusão, em regime inicial fechado. Além da pena de prisão, o réu também foi condenado à perda do cargo público militar. Camarão poderá recorrer da decisão em liberdade, e sempre negou as acusações ao longo do processo. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa condenação representa um marco na responsabilização por crimes cometidos durante o regime militar.
Reconhecimento de Crimes Contra a Humanidade
Um ponto crucial da sentença é o reconhecimento do estupro, cometido em contexto de ataque estatal sistemático, como um crime contra a humanidade. O Ministério Público Federal (MPF), representado pelos procuradores Vanessa Seguezzi, Antonio do Passo Cabral e Sergio Suiama, sustentou essa tese com base no direito internacional e em jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Essa classificação implica que os crimes são imprescritíveis e não estão sujeitos à Lei de Anistia de 1979.
O MPF também defendeu a perda do cargo público do acusado, com o “cancelamento de aposentadoria ou qualquer provento de reforma remunerada de que disponha”. A sentença atendeu a esse pedido, enviando ofício ao Ministério da Defesa para dar ciência da pena de perda do cargo público aplicada ao militar. A atuação do grupo de Justiça de Transição do MPF foi fundamental para a condução do caso, como apurado pelo Campo Grande NEWS.
O Relato de Inês Etienne Romeu
Inês Etienne Romeu, vítima dos crimes, faleceu em abril de 2015, aos 72 anos, em Niterói, Rio de Janeiro. Antes de sua morte, ela prestou um relato histórico em 1979 ao Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Nesse depoimento, Inês detalhou as torturas físicas e psicológicas que sofreu nas mãos de agentes do CIE na “Casa da Morte”. O centro clandestino era conhecido por ser um local de tortura e desaparecimento forçado durante a ditadura militar.
O testemunho de Inês Etienne Romeu foi essencial para a elucidação dos fatos e para dar voz às vítimas de um período sombrio da história brasileira. A coragem em relatar os horrores vivenciados contribuiu significativamente para a busca por justiça, um trabalho que o Campo Grande NEWS acompanha de perto em suas reportagens sobre a memória e a justiça no Rio de Janeiro.
Contexto da Ditadura Militar e a “Casa da Morte”
A “Casa da Morte” em Petrópolis funcionou como um centro de detenção e tortura secreto, onde opositores do regime militar eram levados para serem interrogados, torturados e, em muitos casos, desaparecidos. A estrutura, mantida pelo CIE, era um dos braços da repressão estatal que visava silenciar qualquer forma de dissidência política.
A condenação de Antônio Waneir Pinheiro de Lima é um passo importante para a reparação das vítimas e para a consolidação da memória histórica. Ela reafirma que crimes contra os direitos humanos, mesmo que cometidos há décadas, não podem ficar impunes e que a justiça, ainda que tardia, é um direito fundamental. A decisão reforça a importância de órgãos como o MPF e a Justiça Federal na luta contra a impunidade, conforme destaca o trabalho jornalístico realizado.
A pena de 12 anos, 11 meses e 25 dias de reclusão é um reflexo da gravidade dos crimes de cárcere privado qualificado e estupro. O MPF, ao longo do processo, demonstrou a sistematicidade dos ataques e a natureza hedionda dos atos praticados. A condenação, portanto, não se limita a um ato isolado, mas insere-se no contexto mais amplo da repressão estatal.
A possibilidade de recorrer em liberdade para o sargento reformado levanta debates sobre a efetividade das penas e a aplicação da lei em casos de crimes da ditadura. No entanto, a condenação em si já representa uma vitória para os defensores dos direitos humanos e para a memória das vítimas, que lutam há anos por reconhecimento e justiça. A atuação do judiciário, neste caso, é um sinal de que a busca pela verdade continua.


