Meninos de 12 e 14 anos trabalham 10h em semáforo

Em pleno período de férias escolares, quando a maioria dos adolescentes busca descanso e lazer, dois amigos de 12 e 14 anos embarcam em uma rotina exaustiva de trabalho. Diariamente, eles dedicam até dez horas de seus dias à venda de jujubas e paçocas em um movimentado semáforo de Campo Grande, especificamente na Avenida Afonso Pena. A iniciativa, autorizada pelos pais, visa complementar a renda familiar, mas levanta sérias preocupações sobre trabalho infantil, especialmente por ocorrer em um local de grande visibilidade e próximo a um órgão de combate à exploração, o Ministério Público do Trabalho (MPT).

Alerta de trabalho infantil em semáforo de Campo Grande

A cena se repete diariamente em um dos cruzamentos mais movimentados de Campo Grande, na Avenida Afonso Pena, próximo ao Shopping Campo Grande. Dois jovens, com idades entre 12 e 14 anos, passam grande parte do dia expostos ao sol, ao tráfego intenso de veículos e aos riscos inerentes à atividade de vendedor ambulante em semáforos. Apesar de estarem em férias, a decisão de trabalhar parte da jornada escolar demonstra a necessidade financeira que as famílias enfrentam.

A preocupação se intensifica ao observar que essa realidade acontece literalmente em frente às instalações do Ministério Público do Trabalho (MPT), órgão federal responsável por fiscalizar e combater o trabalho infantil. A reportagem do Campo Grande NEWS apurou que os meninos iniciam suas atividades por volta das 11h e se estendem até as 21h, um período considerado por eles mesmos como o mais perigoso. Mesmo cientes dos riscos, eles prolongam a jornada na esperança de aumentar os ganhos.

A autorização dos pais, embora presente, não afasta a discussão sobre a legalidade e os impactos dessa atividade na infância e adolescência. Um dos garotos relatou à reportagem: “Minha mãe deixa eu ficar aqui vendendo, mas sempre fala para eu tomar muito cuidado porque é perigoso”. A volta às aulas está marcada para 3 de agosto, mas eles afirmam que, mesmo durante o período letivo, pretendem continuar a venda de doces, buscando conciliar a atividade com os estudos, o que pode comprometer o desempenho escolar e o bem-estar.

Denúncias e o ciclo de retorno ao trabalho infantil

A situação não é nova para os órgãos de proteção. Segundo relatos dos próprios adolescentes, o Conselho Tutelar já foi acionado diversas vezes por cidadãos que se preocupam com a presença deles no semáforo. Eles explicam que, após as denúncias, costumam se ausentar do local por alguns dias, mas retornam assim que a fiscalização diminui.

“Muita gente denuncia a gente. Hoje mesmo alguém denunciou, então provavelmente vamos ficar uns três dias sem vir para cá. Depois volta ao normal”, confessou um deles. Essa dinâmica sugere uma dificuldade em efetivamente interromper o ciclo de trabalho infantil, mesmo com a atuação de órgãos fiscalizadores. A reportagem do Campo Grande NEWS tentou contato com a Prefeitura de Campo Grande, por meio da Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS), e com o MPT para obter informações sobre as medidas adotadas em casos de trabalho infantil em semáforos e sobre os procedimentos após denúncias, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.

Arrecadação e planos para o futuro

Apesar das condições adversas, os meninos demonstram satisfação com os ganhos diários. Eles afirmam arrecadar entre R$ 300 e R$ 400 por dia, um valor considerado significativo para eles. “Para nós é bastante”, comentou o garoto de 14 anos.

A divisão dos lucros varia entre as famílias. Um dos adolescentes conta que metade do valor arrecadado vai para a mãe, e a outra metade fica com ele para gastos pessoais, como alimentação, vestuário ou manutenção do celular. O outro garoto revelou que o pai está guardando o dinheiro para a compra de uma bicicleta, um objetivo que demonstra a esperança e os planos que os jovens têm para o futuro, mesmo em meio à rotina de trabalho.

Apesar de relatarem as abordagens e denúncias, os adolescentes afirmam que nunca foram impedidos diretamente por policiais de realizar a venda. Eles relatam que, quando viaturas passam pelo local, costumam oferecer doces aos militares, recebendo em troca brincadeiras e interações informais. Essa interação, embora pareça inofensiva, pode mascarar a gravidade da situação de trabalho infantil. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a presença de crianças e adolescentes em semáforos é uma questão recorrente em Campo Grande, exigindo atenção constante dos órgãos competentes para garantir a proteção integral dos direitos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

O caso foi sugerido por um leitor que entrou em contato com o portal através do canal Direto das Ruas, reforçando a importância da participação cidadã no monitoramento e denúncia de situações que violem os direitos das crianças e adolescentes. A situação vivida pelos dois meninos em Campo Grande acende um sinal vermelho sobre a necessidade de fiscalização mais efetiva e políticas públicas que abordem as causas do trabalho infantil, como a vulnerabilidade social e econômica das famílias, garantindo que as férias sejam, de fato, um período de descanso e desenvolvimento para todos os jovens.